 Era uma vez no vero
 The millionaire and the cowgirl
 Lisa Jackson
 Famlia Fortune 2

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


  H dez anos, durante um vero na fazenda do Wyoming, a inocente Samantha Rawlings se entregou de corpo e
alma a um homem cujos olhos azuis prometiam amor eterno. Mas assim que a estao chegou ao fim, Kyle
Fortune partiu, deixando Samantha sozinha...e  grvida. At que a mo do destino trouxe Kyle de volta para o
Wyoming. E agora ele ter de reconquistar seu grande amor, e tambm aprender a ser pai de uma criana que ele
nem sabia que existia....

  KATE FORTUNE: Enquanto todo mundo acredita que a poderosa matriarca do cl dos Fortune est morta, ela 
uma figura misteriosa brincando de cupido com os filhos e os netos.
  KYLE FORTUNE: Milionrio e playboy, Kyle enfrenta um grande desafio ao herdar a fazenda do Wyoming.
Agora, ele tem de se empenhar muito para se transformar em um caubi legtimo, reconquistar o nico amor de
sua vida e tambm conhecer uma filha que ele nem sabia que existia.
  SAMANTHA (RAWLINGS) FORTUNE : Vaqueira e indomada, Sam ainda no conseguiu perdoar Kyle por t-
la abandonado e se casado com uma socialite. Mas ser que ele poder perdo-la por ter guardado um segredo por
10 anos?
  ALLIE FORTUNE: Modelo e garota-propaganda da Cosmticos Fortune, Allie  desejada pelos homens apenas
pelo seu dinheiro e seu corpo. Ser sua beleza uma beno ou uma maldio?

  O Dirio de Kate Fortune
  Meu avio foi sabotado. E para descobrir quem fez isso, estou fingindo que morri.
  Mesmo afastada, continuo monitorando a minha famlia.
  Estou bastante satisfeita que eles tenham gostado dos presentinhos que deixei para cada um em meu
testamento. Como no caso de meu neto, Kyle. Quando era um menino, costumava me visitar em minha fazenda
no Wyoming. Durante um vero, ele se apaixonou pela adorvel Samantha Rawlings. At hoje no entendi muito
bem por que ele decidiu se casar com uma socialite, e no com Sam.
  Kyle precisa sair da cidade grande e criar razes.  um playboy incansvel porque se esqueceu do que realmente
importa. Foi por isso que deixei para ele a fazenda. E para garantir que no a venderia, inclui uma clusula que o
obriga a viver nela por seis meses at que a propriedade seja oficiafmente dele.
  Deve ser tempo o bastante para que ele se aproxime de novo de Samantha e descubra o segredo que ela vem
escondendo h dez anos...

  Liz Jones
  A Colunista N 1 dos Celebridades

   tudo verdade! A megamilionria Kate Fortune, presidente da Cosmticos Fortune, morreu em um trgico
acidente de avio. Soube por fontes seguras que Rebecca Fortune, neta de Kate, suspeita de traio, j contratou
um detetive particular para investigar o caso.
  Amigos muito prximos disseram que a famlia ficou arrasada com a leitura do testamento. Alm de suas aes
preferenciais, Kate tambm deixou algumas lembrancinhas. Seu neto Kyle, um dos solteiros mais cobiados da
cidade, ficou com a fazenda do Wyoming. Portanto, segurem firme, bonitinhas! Para domar esse garanho vocs
tero de aprender a ser vaqueiras, j que Kyle ter de ficar na fazenda por seis - sim, seis! - meses at que ela seja
oficialmente sua. Fico imaginando como ser. Mas, como todos j sabem, Kate sempre tem um plano maior- e uma
carta escondida na manga!
  Qual ser o impacto da morte de Kate sobre o imprio dos Fortune? E se algum est querendo acabar com eles,
quem ser a prxima vtima?

  Prlogo

  Clear Springs, Wyoming
  Junho

  Trrrriiim!
  O estridente sino da escola tocou anunciando o final das aulas dos alunos da Escola Primria Whitecomb em Clear Springs,
Wyoming. Pouco depois, crianas conversando e rindo, carregando lancheiras e mochilas, comearam a sair do grande prdio
coberto de tijolos vermelhos. Duas bandeiras, uma dos Estados Unidos e uma do estado de Wyoming, tremulavam presas ao
mastro perto da entrada principal da escola. nibus amarelos esperavam perto da entrada lateral do estacionamento e soltavam
fumaa azul de seus canos de descarga.
  Dentro de uma van estacionada em frente a um pequeno chal do outro lado da rua, um forasteiro observava ansiosamente.
Ele olhava para alm das filas de caminhonetes, carros e vans que rodavam lentamente pelo asfalto do estacionamento
enquanto pais esperavam para pegar suas preciosas cargas.
  - Vamos l, vamos l - murmurava ele.
   claro que ele reconheceria a criana, uma menina de nove anos em que seu parceiro depositava esperanas.
  E se ela no estudasse mais nesta escola? E se ela e a me tivessem se mudado? Seus dedos agarravam o volante com fora.
Droga, estava calor, apesar de ele ter estacionado na sombra de um carvalho solitrio cujos galhos se estendiam pela cerca,
protegendo uma pequena casa.
  Ele abriu um pouco a janela e um vento quente e seco entrou na van. Em algum lugar da rua, um cachorro latiu, o que o
deixou nervoso, mas ainda assim esperou. Prometera que ele prprio veria a criana para depois contar para seu parceiro que
ela estava viva e saudvel.
  De repente, uma menina loura com cabelos rebeldes e um grande sorriso saiu correndo do prdio. Pernas compridas, dentes
um pouco grandes para o rosto, ela era uma dessas garotas que floresceria com o tempo, uma menina graciosa que prometia
rara beleza na fase adulta. Caitlyn Bethany Rawlings, nica filha de Samantha Rawlings, que ainda era solteira.
  Ele sentiu um alvio momentneo ao ver Caitlyn e os outros alunos da quarta srie da Sra. Evelyn Johnson se juntarem s
crianas que j estavam subindo nos nibus ou atravessando a fila de carros estacionados.
  Caitlyn, que vestia jeans e uma camiseta, estava conversando com uma menina mais baixa de cabelos escuros. Um
emaranhado de cachos, como os da me, emolduravam o rosto pequeno e bronzeado. Havia sardas em seu nariz, e olhos
redondos e azuis se apertaram at encontrarem a caminhonete j bem usada da me. Com um aceno para duas amigas, saiu
correndo entre duas vans estacionadas e entrou no carro.
  Cheia de empolgao, Caitlyn tagarelava com a me. Afinal, era o ltimo dia de aula. Havia muito o que falar e planejar
para o vero, ele supunha, embora nenhuma delas soubesse que, pelos planos de seu parceiro, tudo estava prestes a mudar.
  Ouvindo a filha enquanto arrancava, Samantha saiu do estacionamento e seguiu a fila de carros e caminhonetes que iam em
direo  pequena cidade do Wyoming pela ltima vez neste ano letivo.
  Elas passaram pela van do forasteiro, que se virou esperando no ser visto nem reconhecido. Vir  escola em plena luz do
dia era bem arriscado. Sempre existia a chance de algum perceber uma pessoa que no pertencia a essa comunidade pequena
e organizada localizada na base das Montanhas Tetons. As oportunidades tinham de ser aproveitadas. Eram arriscadas, mas
necessrias, para que a primeira parte do plano funcionasse.
  E o plano vai funcionar, custe o que custar. Vidas dependem disso. As vidas da famlia Fortune.


  Captulo 1

  EIa no mudou nem um pouco.
  Esse pensamento atingiu profundamente as entranhas de Kyle Fortune, trazendo lembranas que deveriam ficar esquecidas,
enquanto ele tirava o p do freio da velha caminhonete Chevy. Insetos manchavam o pra-brisa, e o interior do carro estava
sufocante.O sol do Wyoming no perdoava.
  Samantha Rawlings. A menina que ele deixara para trs. Agora uma mulher. Diabos, quem poderia imaginar que ela seria a
primeira pessoa que ele encontraria aqui neste fim de mundo? Ento a sorte dele no mudara.
  - Maldita Kate - resmungou baixinho, como se sua arrogante av, que arranjara essa pequena viagem de volta  fazenda da
famlia na base das montanhas Tetons, pudesse escut-lo mesmo estando morta.
  Pneus carecas o obrigaram a uma parada.
  - Meu Deus...
  De repente, uma lembrana distante entrou em sua mente e ele viu Samantha deitada na relva entre flores silvestres, os
cabelos louro-avermelhados espalhados em volta do rosto. O corpo era bronzeado, menos nas partes mais ntimas, os seios
doces voltados para o cu com mamilos cor-de-rosa que apontavam altivamente para ele enquanto a beijava em todos os
lugares - a amando com o abandono selvagem da juventude, sem pensar no futuro, apenas desejando mergulhar no calor
daquele corpo e fazer amor para sempre.
  Ele no a via h dez anos e ainda assim sentia um aperto ntimo e o ar, que j estava quente o bastante para fazer bolhas na
pintura da velha caminhonete e desbotar a cor da grama, parecia chiar enquanto ele pisava o cho de cascalho. Uma nuvem de
poeira cobriu suas botas novas e ainda apertadas.
  Ela nem reparou nele. Os olhos fixos no potro bravo na outra ponta da corda que ela segurava firme, nem sabia que ele
dirigira at ali por causa dela. Os msculos contrados cobertos de suor, a mulher corajosa e o teimoso Appaloosa se
encaravam, imveis.
  Sam no cedia nem um milmetro. "Cabea dura como sempre", Kyle pensou. Seu queixo estava um pouco mais pontudo
do que aos dezessete anos, os lbios estavam mais carnudos, e os seios, escondidos embaixo de uma camiseta desbotada,
pareciam maiores do que ele se lembrava. Mas aqueles cabelos - louros com mechas vermelho-fogo, eram os mesmos, ainda
presos em um rabo de cavalo, com alguns cachos teimosos emoldurando o rosto suado.
  - Escuta aqui, seu miservel petulante - ela disse entre os dentes, quase sem mexer os lbios. - Voc vai... - Ela parou
abruptamente quando perdeu a concentrao ao perceber a sombra de Kyle atravessar a cerca e se estender pelo cho seco at
alcanar a ponta de sua bota. Ao v-lo, ela soltou um grito sufocado e afrouxou os dedos da corda.
  -Kyle?
  O cavalo aproveitou a oportunidade para virar a grande cabea preta e branca e arrancar as rdeas das mos dela. Com um
relincho triunfante, ele empinou e girou: o magnfico garanho vencera mais uma vez.
  - Hei, espera, seu miservel... - Mas o cavalo j fugira numa nuvem de poeira, indo descansar no fundo do curral sob a
sombra de um pinheiro solitrio. - timo! Maravilha! Olha o que voc me fez fazer! - Indo em direo  cerca, ela tirou o
elstico que prendia o cabelo e o afundou no bolso de sua cala jeans que estava desbotada e apertada. - Obrigada por me
atrapalhar!
  - No  minha culpa se voc perdeu o controle do cavalo. - Ento a lngua dela continuava to afiada como sempre...
  -  claro que ! - Apertando os olhos contra o sol, o olhou de cima a baixo. - Ento o neto prdigo voltou. O que
aconteceu? Perdeu sua Ferrari em um jogo de pquer? Errou o caminho para Monte Carlo?
  - Mais ou menos...
  Inclinando-se sobre a cerca, ela o fuzilou com o olhar.
  - Sabe, Kyle, voc  a ltima pessoa que eu esperava rever um dia. - As proeminentes mas de seu rosto ficaram
vermelhas e suor pingava da ponta de seu nariz.
  - Parece que voc ainda no sabe.
  - No sei o qu?
  Ele sentiu uma pontada de satisfao por contar a novidade.
  - Acredite ou no, sou o novo proprietrio deste lugar.
  - Voc? - Ela o encarou nos olhos, como se procurando por mentiras, como se esperasse que ele menosprezasse a verdade
ou a usasse para tirar vantagem.
  - Voc  o proprietrio da Fazenda Fortune? S voc? Mais ningum?    Havia um tom de desaprovao em sua voz.
  - A fazenda inteira.
  - Mas...
  - Voc no sabia?
  Ela empalideceu, as sardas no nariz se tornaram mais visveis.
  - Eu... Eu sabia que um dos filhos ou netos de Kate provavelmente acabaria com...
  Desviou os olhos do rosto dele para encarar todos aqueles hectares de pasto seco e queimado no meio do vero. Havia
moitas de artemsia espalhadas ao longo da cerca e ervas daninhas se alastravam pelo velho estbulo. Sam engoliu seco
quando o olhou de novo.
  - Quer dizer, algum tinha de herd-lo, mas nunca pensei... Pelo amor de Deus, por que voc?
  - Voc me pegou.
  - Voc agora  um garoto da cidade, no ? - Seu queixo corou um pouco como se de repente quisesse desafi-lo. - Voc
no vem aqui h anos.
  - H uns dez anos - ele concordou, e a viu desviar o olhar como se tambm no quisesse pensar no ltimo vero que
passaram juntos. Parecia uma vida passada, embora o sangue dele ainda pulsasse ao v-la. Isso teria de mudar.
  - Ento voc est aqui... Por qu? Para morar? - Ela franziu a sobrancelha como se no pudesse acreditar.
  - Por enquanto. H uma clusula na herana.
  - Clusula?
  - Kate me deixou a fazenda e tudo que est nela... Bom, quase tudo... Mas com a condio de que eu s posso vender a
fazenda ou qualquer parte dela depois de morar aqui seis meses.
  Seis meses! Kyle seria seu vizinho pelo prximo semestre? Os joelhos de Sam tremeram um pouco.
  - Mas voc no pretende realmente ficar aqui...
  - No tenho outra escolha.
  Houvera um tempo em que ela esperara rev-lo, planejara o dia, planejara estar pronta para dizer-lhe umas verdades,
arranh-lo e cham-lo de canalha, entre outras coisas. Mas no queria que isso acontecesse desta maneira, no to
inesperadamente, assim de surpresa sem que ela estivesse preparada.
  - Voc fica aqui at o Natal?
  - Esse  o plano.
  Ele parecia to arrogante, to urbano em seu jeans engomado, chapu novo, camisa plo e botas engraxadas. Ele no
combinava com este lugar. Ah, Deus, e agora? Tentando recobrar o equilbrio e pensar com clareza, ela falou de repente:
  - Mas... E o Grant?
  Ele era o nico dos netos de Kate Fortune que se interessava por fazendas. Grant McClure era meio-irmo de Kyle e neto
emprestado de Kate. No que isso tenha tido alguma importncia durante a vida de Kate. Ela sempre o tratara com se fosse
realmente da famlia, embora ele tenha passado pouco tempo com os Fortune.
  - Grant herdou um cavalo. - O olhar de Kyle procurou o garanho musculoso que encarava o intruso com interesse. A fera
tinha a audcia de bufar para ele. - A paixo dos Fortune.
  - Curinga?
  - O qu?
  Ela inclinou a cabea em direo ao garanho.
  -  ele. Comearam a cham-lo Curinga desde que era um potrinho. Sempre arrumando encrencas, e com suas marcas
nicas... - Ela apontou as manchas brancas no focinho preto como carvo.
  - De que voc o chama?
  - Hoje? - ela disse com um sorriso disfarado. - Demnio, para iniciantes. Tenho outros nomes, mas eles no so adequados
para uma empresa mista.
  Mais uma vez ela tirou um cacho de cabelo rebelde do rosto enquanto Kyle ria.
  Por que Kyle no envelhecera nem um pouco? Por que ele estava em boa forma, o rosto mais esculpido agora que todos os
traos de menino desapareceram? Onde estava a barriga? Os cabelos grisalhos? A delicadeza de um homem rico que nunca
precisou levantar um dedo? Em vez disso, ele tinha ngulos definidos, pele firme, era esbelto na cintura e no quadril, largo nos
ombros. De uma forma pouco comum, o tempo fora generoso com Kyle Fortune.
  - Ainda no encontrei um cavalo que voc no pudesse domar.
  - Curinga, aqui, deve ser o tal - ela disse, embora sua cabea no estivesse na conversa, no agora que havia tantas
sentimentos  flor da pele correndo pelo seu corpo, retalhando seu corao. - Ele vai ser o meu fim, eu juro.
  - Duvido, Sam. Pelo que me lembro, voc adora um desafio.
  - Engraado, no  disso que me lembro. Toda a alegria desapareceu dos olhos dele.
  - No? Ento de qu?
  Meu Deus. O corao dela doa de to apertado.
  - No queira saber.
  - Tente.
  - J tentei. No adiantou.
  Os lbios dele ficaram tensos e o maxilar tornou-se pedra.
  - Sam, voc sabe que no precisamos comear desta maneira.
  -  claro que precisamos.
  Ah. Kyle, se voc soubesse. Sentimentos nus, profundos se confundiam dentro dela, tornando difcil at respirar. A vida
no era justa. Por que Kyle Fortune, o nico homem na terra que ela jurou desprezar, era to sensual, ainda mais em uma cala
Levi's e uma camisa Ralph Lauren um pouco justa nos ombros? Provavelmente ele faz ginstica em alguma academia, levanta
pesos at o suor escorrer pelo corpo enquanto olha para as mulheres em suas malhas e roupas justas. Kyle sempre atrara as
mulheres, como estrume de cavalo atrai moscas. Incluindo voc, ela se lembrou de modo implacvel.
  Limpando as mos, ela subiu at o topo da cerca.
  - J que voc est aqui, acho que posso ir para casa. Estava apenas tomando conta da fazenda, supervisionando at que Kate
pudesse contratar um novo administrador. A ela...
  Sam no conseguia dizer a palavra, no conseguia acreditar que Kate Fortune - a cheia de vida, divertida e petulante Kate -
pudesse realmente estar morta. Apesar de estar na casa dos setenta anos, no estava nem perto da cova quando seu maldito
avio bateu em uma floresta tropical no Brasil mudando tudo.
  - Como est o seu pai? - perguntou Kyle, e o corao de Sam sentiu como se de repente tivesse se enchido de saudade.
  - Ele morreu h uns cinco anos.
  - Ah, sinto muito. Eu... - ele levantou as mos. - Eu no sabia.
  Ela balanou a cabea.
  - Isso no me surpreende. Voc no sabe de nada que acontece aqui em Clear Springs, sabe?
  Os olhos dele, azuis como o cu de vero, se enuviaram, e apesar de saber que estava sendo cruel, ela no podia evitar a
pergunta:
  - Por que Kate deixaria esta fazenda para voc quando fez questo de evit-la por tanto tempo?
  Um msculo apareceu no maxilar de Kyle. Os dedos se fecharam, depois se soltaram, e seu olhar penetrou o dela como se
estivesse ofendido por ela ser to direta. Por fim, ele deu de ombros e desviou o olhar.
  - Voc me pegou - Ele disse e ela acreditou.
  Ele apertou os olhos e tirou o chapu novo, mostrando o cabelo grosso e castanho queimado de sol, que se agitou com a
brisa que rodopiava pelo pasto e dobrava as ervas acumuladas perto das colunas da cerca.
  - Voc sabe, eu realmente gostava da sua av... - Sam lembrou da mulher determinada que dirigia uma empresa de
cosmticos em Minneapolis com mo de ferro e ainda era conhecida por aqui por sua torta de ma. Kate era uma mulher
independente, cheia de talento, que amava a famlia com toda sua fora e, ao longo da vida, se determinara a deixar sua marca,
no apenas nos negcios, mas em seus filhos e netos tambm. Amara a fazenda quase tanto quanto amava a Cosmticos
Fortune.
  - No consigo acreditar que nunca mais vou v-la.
  Ele sacudiu a cabea bruscamente, como se ela tivesse atingido uma ferida aberta.
  - Olha, o que eu estou querendo dizer  que sinto muito por ela ter partido...
  - Eu tambm... - Kyle soltou um suspiro de tristeza e franziu a testa, como se falar sobre a morte de Kate fosse muito
doloroso. Apontou para o garanho com o queixo.
  - O que voc estava fazendo com o cavalo?
  - Tentando dom-lo e fracassando. Ele  o garanho mais valioso da regio e vrios fazendeiros tm pedido para alug-lo
como reprodutor. O problema  que ele s faz o que quer e, como muitos homens que conheo, no gosta que falem o que
deve fazer. Ele detesta ser guiado, se recusa a entrar em um trailer e geralmente causa muita dor de cabea - Ela disse
sorrindo.
  A verdade  que ela admirava Curinga por sua independncia arrebatada. Apesar de sua linha de sangue ser pura, era sua
atitude que provocava a cumplicidade de Samantha.
  O garanho levantou a cabea, abriu as narinas e relinchou para uma gua que pastava perto do cercado. O potrinho que a
acompanhava respondeu, empinando as longas pernas.
  - Ele realmente gosta das fmeas... - ela observou.
  - Um erro.
  Lanando um olhar penetrante para Kyle, Sam percebeu que seu sorriso desaparecera.
  - Experincia prpria?
  O maxilar dele se contraiu de leve.
  - Olha, Sam, eu sei que...
  - Esquea! - Ela o cortou prontamente. - Histria antiga. No vamos discutir isso, certo?
  Mas voc ter de discutir, no ter? No pode simplesmente ignorar o passado, no agora, quando ele est de volta a
Wyoming, quando ele merece saber a verdade. Sua conscincia s vezes s lhe causava problemas.  claro que no tinha outra
alternativa a no ser confiar nele, mas ainda no. No agora.
  - Vamos apenas tomar conta do cavalo.
  Ela caminhou pela cerca e Kyle a seguiu. Ela falou num tom suave com Curinga e ele respondeu como sempre fazia, indo
para o fundo do curral. Os nervos de Sam estavam  flor da pele quando se aproximou da fera, mas Curinga estava cansado e
permitiu que Sam o guiasse de volta a cocheira, onde ela o soltou e lhe deu comida e gua.
  Para seu desgosto, Kyle no sara do seu lado. Como se estivesse fascinado pela maneira como ela tratava o animal, ele a
seguiu at o estbulo e olhou a construo antiga que agora era dele - cho de concreto, paredes de cedro rsticas, os cochos
de feno junto s baias e a estrebaria onde as selas, rdeas e cabrestos exalavam o odor do couro lubri ficado.
  - Voc mora na casa da sua famlia? - A luz do sol era filtrada pelas janelas que exibiam uma crosta grossa de sujeira. A
poeira brincava nos raios de sol que penetravam o ambiente.
  - Moro.
  - Sozinha?
  - Com minha filha - ela disse, fechando a porta da estrebaria.
  - No sabia que voc era casada.
  - E no sou.
  - Ah! - Ele provavelmente pensou que ela era divorciada e, por enquanto, at que recuperasse o equilbrio, ela deixaria que
ele pensasse assim. Ela estava habituada a especulaes. Criar uma criana sozinha em uma cidade pequena era lenha para a
fogueira dos fofoqueiros. Ao longo dos anos, as pessoas fizeram vrias suposies erradas sobre ela  suposies que Sam
nunca se preocupou em desmentir.
  - Mame saiu da cidade quando papai morreu, mas Caitlyn e eu...
  - Caitlyn  a sua filha?
  Ela assentiu com discrio, com medo de se denunciar.
  - Quisemos ficar por aqui. Fui criada no campo e achei que ela tambm deveria ser.
  - E o pai dela?
  Uma dor pulsou atrs dos olhos.
  - O pai de Caitlyn... Ele... est fora de cena. - Sentindo-se covarde, comeou a escovar ferozmente a pelagem macia de
Curinga.
  - Deve ser difcil.
  Se voc soubesse.
  - Temos nos sado bem. - Um arrepio de nervosismo comeava a subir por sua espinha. Diga para ele, Sam, diga agora!
Voc nunca mais ter uma oportunidade como esta. Pelo amor de Deus, ele merece saber que tem uma filha, que  o pai de
Caitlyn!
  - No quis sugerir que...
  - No se preocupe com isso. - Ela passou para o outro lado do animal. Trabalhava com paixo, a mente rodando, a boca to
seca quanto as folhas no outono.
  - Se no tomar cuidado, vai tirar as manchas dele.
  Ela percebeu o quanto estava concentrada no trabalho. At Curinga, que nunca se distraa enquanto comia, virar o longo
pescoo para olhar para ela.
  - Desculpe - murmurou, jogando a escova dentro de um balde. Kyle a deixava nervosa, e o assunto da ausncia de um pai
para Caitlyn sempre a irritava. Agora, no estbulo quente e escuro, junto do homem que a engravidara e a abandonara sozinha,
Samantha se sentia como uma prisioneira. Ela se dirigiu para a porta do estbulo e tentou ignorar a maneira como ele estava
sentado no parapeito, da mesma maneira que h dez anos, jeans apertado nos joelhos e ndegas, o calcanhar apoiado na tbua
mais baixa da cerca, olhos penetrantes, repletos de promessas abafadas enquanto a observava. Mas isso era loucura. Aquelas
velhas emoes estavam secas como as folhas em uma estiagem de dez anos.
  - Sam... - Ele se inclinou e tocou os braos dela, os dedos roando de leve seu pulso.
  Ela reagiu como se tivesse sido queimada e abriu a porta. Um feixe de luz de sol de vero penetrou o ambiente sombrio
junto com o ar quente e seco. Ouviu os passos dele atrs dela, as botas novas pisando no cascalho do estacionamento, mas no
se virou, no queria se arriscar a olhar nos olhos dele e permitir que visse qualquer sinal do que estava sentindo, das emoes
que no conseguia ocultar e que se intensificavam cada vez que olhava para ele. Droga, o que ela tinha de errado?
  - Eu tenho vindo para c fazer o antigo trabalho do meu pai como administrador desde que o ltimo rapaz, Red Spencer,
que j estava aqui h uns sete anos quando papai se aposentou... Bom, deixa pra l. Red assumiu o lugar do papai quando ele
no conseguia mais fazer o trabalho, mas foi embora h uns dois meses. Acho que mudou para Gold Spur para ficar mais
perto do filho e da enteada. Kate me pediu para ficar de olho nas coisas e eu concordei, mas agora que voc est de volta no
precisar de mim...
  - Sam! - Desta vez, ele agarrou seu pulso e a fez girar to rpido que ela nem conseguiu respirar. - Voc est divagando e,
pelo que me lembro, voc no  assim.
  - Mas voc no me conhece mais, conhece? - A raiva que guardava h dez anos de repente explodiu e tomou conta de sua
fala. - Voc no sabe nada a meu respeito porque quis que fosse assim.
  - Pelo amor de...
  Ela puxou o brao.
  - Todas as anotaes esto no escritrio.
  Acenando para a casa, ela continuou andando at a caminhonete.
  - Parece que o trator vai precisar de uma embreagem nova, tem um comprador em San Antnio interessado na maior parte
do gado, tenho uma lista de pessoas que querem o Demnio, ou melhor, Curinga, como reprodutor. O feno chegou cedo este
ano e...
  - E voc est fugindo de medo.
  - O qu? - Ela se virou e o encarou, uma torrente de fria correndo por suas veias, as mos na cintura.
  - Eu disse que voc est...
  - Eu ouvi o que voc disse, s no posso acreditar. Voc - ela estreitou os olhos, fervilhando de raiva e apontou um dedo
furioso para ele -, de todas as pessoas,  a que tem menos direito, menos direito, de me acusar de fugir! - Jogando as mos no
ar, ela olhou para o cu azul manchado com finas nuvens. - Voc  inacreditvel, Kyle. I-na-cre-di-t-vel! - Ela se virou e,
com passos largos e pesados, foi para a caminhonete, engrenou o carro e saiu do estacionamento, deixando Kyle, com as
elegantes botas novas, jeans apertado e camisa justa, comendo poeira.

  - Alguma coisa errada? - perguntou Caitlyn, sentada do outro lado da caminhonete velha, alfinetando a me com os olhos
azuis to parecidos com os do pai enquanto seguiam para a cidade.
  Havia asfalto espalhado pelo acostamento da estrada. O ar quente entrava pela janela, fazendo voar os j embaraados
cabelos louros de Caitlyn.
  - Errado? - O corao de Samantha se apertou quando reduziu numa curva. O sol estava baixo no horizonte e ondas de calor
emanavam do asfalto, distorcendo as fachadas falsas de prdios tpicos do Velho Oeste. Clear Springs homenageava a
arquitetura das ltimas dcadas do sculo dezenove.
  - , voc est estranha desde que me pegou.
  Samantha no estava respondendo com as suas costumeiras frases de duplo sentido.
  - Acho que estou, sim - Sam admitiu e lembrou como Kyle a desconsertara. Ainda estava enfurecida quando pegou a filha
na casa de uma colega.
  - Por qu?
  - Apenas vi um velho... amigo hoje. Fui pega de surpresa.
  - E a?
  Certo. E a?
  - Estou com dor de cabea. - O que no era mentira. Desde o momento em que colocara os olhos em Kyle Fortune, sua
cabea estava latejando.
  - Seu amigo te deixou com dor de cabea? - Caitlyn sacudiu a cabea sem acreditar nessa histria. - Parece que voc est
furiosa.
  - Furiosa?
  - Do mesmo jeito que ficou no ano passado quando descobriu que Billy McGrath tinha convidado todo mundo para a festa
de aniversrio menos eu e Tommy Wilkins.
  O sangue de Sam ferveu ao lembrar do incidente.
  - Bem, aquilo foi errado e a me de Billy sabia disso e... bem, isso j  passado. - Samantha abriu o porta-luvas e pegou os
culos de sol. Na poca, ela quisera estrangular o pirralho do Billy e sua me esnobe, que decidira que duas crianas de uma
turma de vinte e uma no eram boas o suficiente para irem a festa de aniversrio na piscina. As duas crianas que eram ditas
"ilegtimas".
  - Ento, por que o seu amigo deixou voc furiosa?
  - Ele no... ele apenas apareceu de forma inesperada e me deixou surpresa... - E apertou o nariz manchado de Caitlyn. -
Tenho de parar no banco e nos Correios, depois podemos tomar um sorvete na lanchonete.
  A expresso de Caitlyn se tranqilizou.
  - Que tal um sundael?
  - Por que no?! - Ela disse, ao passar pela placa de "Bem-vindo a Gear Springs, Wyoming". Talvez fosse mesmo hora de
comemorar. No era todo dia que o pai de sua filha aterrissava na cidade. Ah, Deus, como um dia poderia contar para ele que
era o pai de Caitlyn? O que ele faria? Riria na sua cara? Diria que ela era uma mentirosa? Ficaria to atordoado que sua lngua
afiada ficaria finalmente muda? Ou ser que ele veria a verdade nua e crua com seus prprios olhos e decidiria que era hora de
se tornar um pai? Se ele quisesse custdia compartilhada, no teria como lutar com ele. Contra o dinheiro e o bando de
advogados da famlia Fortune, ela no teria nenhuma chance.
  De repente a garganta de Sam ficou seca como areia. Ela estacionou e disse a si mesma para no reagir de forma exagerada,
que Kyle s ficaria aqui por seis meses, que quando ele descobrisse que Caitlyn era sua filha, isso no importaria mais. Ele
seria razovel, no seria? Teria de ser. Mas, e Caitlyn? Como ela se sentiria em relao ao homem que era seu pai?
  Samantha no podia perder a filha. Para ningum. Nem mesmo para o pai dela.



  Captulo 2

  - Que baguna! - Com um suspiro de desgosto, Kyle olhou para o livro-caixa escrito  mo. O dirio estava aberto sobre a
antiga mesa de carvalho que ficava no escritrio desde que Kyle podia se lembrar. A grande escrivaninha de carvalho
pertencera a Ben Fortune, av de Kyle e marido de Kate, embora Kyle no conseguisse se lembrar de Ben sentado na cadeira
de couro. Esta fazenda era o refgio de Kate do ritmo agitado da cidade, mas esses malditos livros-caixa eram um mistrio.
Por que no havia nenhum sistema de computao? Nenhuma conexo com a Internet? Nenhum modem? Nenhum programa
de contabilidade? Isso no se parecia com sua av, uma mulher a frente de seu tempo, uma mulher que usava um telefone
celular ou um aparelho de fax com a mesma facilidade com que se perfumava. Kate Fortune estava conectada por computador
a todas as empresas de seu marido, incluindo fbricas em Cingapura e Madri. Capaz de falar a lngua dos acionistas das
empresas petrolferas de Ben, e de pilotar seu prprio avio. Se alguma fazenda em Wyoming deveria ter um computador ou
um modem, era a de Kate. A falta de telecomunicaes simplesmente no fazia sentido.
  A no ser que Kate viesse para c a fim de fugir do corre-corre do dia-a-dia e preferisse o ritmo lento dos fazendeiros que
funcionavam assim h dcadas.
  O telefone tocou e Kyle atendeu, meio que esperando ouvir a voz rouca de Samantha do outro lado da linha. Ele ficou
tenso.
  - Kyle Fortune.
  - Quem diria?! - A voz de Grant veio atravs dos fios enquanto Kyle se acomodava na cadeira. - Ouvi rumores de que
estava de volta  cidade.
  - Notcias ruins correm rpido.
  - Principalmente nesta famlia.
  Amm, pensou Kyle. Os Fortune sempre foram um grupo unido, mas desde a morte de Kate, Kyle sentira uma recm-
descoberta afinidade com os primos e parentes - uma camaradagem nascida da dor compartilhada de perder um ente querido.
  - Mike ligou e disse que voc pegou um avio da empresa para Jackson, ento desconfiei que mais cedo ou mais tarde
apareceria.
  -  Bem a tempo de dar uma olhada na fera que voc herdou.
  Grant deu uma gargalhada.
  - A Paixo dos Fortune.
  - A Loucura dos Fortune, eu diria.
  - Livrarei voc dele assim que ele entrar em um trailer. Parece que Samantha vem trabalhando com ele.
  - Parece que sim.
  Sam. Por que ele no conseguia parar de pensar nela?
  - Voc j deve saber que Rocky est pensando em se mudar para c?
  - Rocky? Quer dizer Rachel?
  - Nossa prima.
  Kyle no via Rachel desde a leitura do testamento de Kate no escritrio do advogado. Costumava ser aventureira, com
sorriso fcil, mas naquele dia estava to melanclica quanto o resto da famlia. Crculos escuros sombreavam seus olhos
castanhos e, mesmo nervosa, segurava o amuleto herdado da av. Ela parecia perdida naquele dia, mas todos estavam.
  - Ento, meu cavalo est bem?
  - Encontrei Sam quando ela estava trabalhando nele. O garanho parecia endiabrado.
  - Ele  assim. - Grant deu outra gargalhada. Olhando pela janela enquanto o crepsculo caa sobre a terra, Kyle disse:
  - Sam tem uma filha.
  - Eu sei.
  - Disse que o pai estava fora de cena. No sabia que ela tinha casado.
  - E no casou.
  - Ento onde est o cara?
  - Voc me pegou. Nunca perguntei. No era da minha conta - disse Grant, que no falou mas deixou subentendido: e
tambm no  da sua.
  Kyle percebeu o tom de reprovao de Grant, mas ignorou.
  - Ningum sabe?
  - Bem, acredito que Sam saiba, e Bess, a me dela. Os fofoqueiros da cidade dizem que pode ser Tadd Richter. Voc se
lembra dele?
  - Lembro, nunca o encontrei, mas ouvi dizer que era um delinqente local.
  - Ele andava com uma turma, circulava com uma moto enorme, bebia e estava sempre encrencado com a polcia. Seus
companheiros sumiram e ele terminou na priso ou em algum lar juvenil perto de Caster, acho. De qualquer forma, Sam j
tinha terminado com ele quando saiu da cidade e depois... bem, ela apareceu grvida. No que isso seja da nossa conta. Ela
nunca comentou sobre isso por todos esses anos e acredito que tenha as razes dela... Mas, s liguei para lhe dar boas-vindas
ao Wyoming.
  - Obrigado.
  - Voc sabe que no  um lugar ruim.
  - Nunca disse que era.
  - Mas no ficou feliz em ter de se mudar para c. Kyle olhou atravs do vidro para o corredor de alamos que cercavam as
margens do Stiller Creek.
  - No gosto que mandem em mim. Nem mesmo Kate.
  - No ser to ruim. Voc vai acabar percebendo que gosta daqui e descobrindo do que est fugindo e o que est
procurando. Nunca se sabe.
  - , nunca se sabe. - Kyle sentiu que estava ficando um pouco irritado. Do jeito dele, Grant disse que no aprovava o estilo
de vida mundano que Kyle levava em Minneapolis.
  - Talvez voc tenha de diminuir um pouco o ritmo.
  - Talvez - Kyle ficou tenso. Ele no precisava de um sermo. Sabia que jogara fora alguns anos de sua vida, s vezes
trabalhando num negcio e ganhando um pouco de dinheiro, outras perdendo muito. Casara com a mulher errada. Trabalhar
para a famlia e ser despedido fora o ltimo desastre. Ele no queria ser lembrado do fracasso, nem conseguia explicar a
inquietao que o perseguia desde a poca de menino, a sensao de que no poderia permanecer em um lugar por muito
tempo. E ele suspeitava que seis meses em Clear Springs, to perto de Samantha, seria muito tempo.
  - Aparecerei a para ver se voc no est maltratando o Curinga.
  -  mais provvel que aquele garanho seja o meu fim.
  - Ou Sam. Amm.
  - Ela  mandona, gosta das coisas do jeito dela.
  - J percebi isso.
  - Preste ateno. Ela vai infernizar a sua vida, mas sabe muito mais sobre fazendas do que voc.
  - Vou me lembrar disso.
  - Faa isso. At amanh.
  Kyle desligou, olhou com mau humor para o livro-caixa sobre a mesa e o fechou. Sam. No pensara nela por anos, no se
permitira, mas desde que chegara a Wyoming no conseguia fugir dela.
  - Droga, v tudo para o inferno. - Girou o pescoo tentando relaxar os msculos. Tadd Richter, o que Sam vira naquele
perdedor? E por que Kyle se importava? Isso j era passado.
  O caf, que j era ruim quando quente, agora estava gelado e insuportvel. Ignorou a xcara. A velha cadeira rangeu quando
se levantou e caminhou at o armrio onde Ben costumava guardar as bebidas. Vazio.
  - Segundo choque. - Sem computador e sem bebida, neste escritrio com paredes de madeira amarelada, cartazes de rodeio
desbotados e um tapete tranado no cho de tbuas. Era como se a vida neste Wyoming esquecido por Deus no tivesse
mudado nos ltimos cinqenta anos.
  - Muito obrigado, Kate - resmungou, apesar de o vero na fazenda sempre ter sido uma recordao especial, um lugar que
preferia no lembrar.
  Ainda no descansara do vo. A viagem de avio de Minneapolis at Jackson no fora de todo ruim, nem a viagem at a
fazenda na caminhonete usada comprada s pressas. No, a viagem no o aborrecera tanto quanto a sensao de estar sendo
manipulado. De novo. Por sua av. De seu tmulo.
  Esbarrando na mesa e deixando o abajur cair, ele foi andando pelo corredor que se estendia por toda a casa de dois andares,
o lugar onde passara vrias frias de vero. s vezes a famlia viajava para lugares exticos como Mxico, Jamaica, Hava ou
ndia. Mas os melhores veres, aqueles que ele guardava com carinho, no eram aqueles em que ficara hospedado em algum
luxuoso hotel com restaurantes cinco estrelas, fontes minerais e piscinas. No, os melhores veres de sua vida foram aqui,
aprendendo a laar bezerros, selar cavalos, marcar o gado, nadando pelado no Stiller Creek e dormindo embaixo do cobertor
sob as estrelas do enorme cu do Wyoming.
  Kyle subiu as escadas para o segundo andar onde estavam os vrios quartos. No final do corredor, ficava o quarto dos
beliches em que ele e os primos dormiam. Sentiu a madeira gasta da porta e tocou na ferramenta que Michael usara para
quebrar a fechadura quando Kyle e Adam o trancaram do lado de fora. Kyle tinha uns doze anos na poca. Michael era um
ano mais velho e no permitiria que um simples trinco o impedisse de abrir a porta e tentar se vingar do irmo por t-lo pego
desprevenido e o atingido com um jato de gua fria da mangueira do jardim.
  Sorrindo, Kyle se lembrou de quando Michael, molhado da cabea aos ps, entrou correndo pelo quarto e bateu a cabea
em um dos beliches, quase indo a nocaute.
  Isso parecia ter acontecido em outra vida. Antes de ele comear a se barbear, antes de comear a reparar nas meninas.
Antes de Sam.
  Acendendo a luz, ele entrou no quarto e olhou os trs beliches, sem lenis, o tecido dos colches desbotado. No
conseguia ver o mao de cigarros que roubaram do av, as revistas Playboy emprestadas por algum da fazenda, nem as
garrafas de bebidas que esconderam no fundo das gavetas dos armrios quando um vaqueiro local as comprara por um preo
alto, sem se importar com a qualidade do usque.
  Passando as mos pela cabeceira de uma das camas, parou na janela que costumavam usar para fugir. A borda ficava perto
de uma velha macieira com galhos grandes, e os meninos elaboraram um sistema de cabos e roldanas que os levava para baixo
e os trazia de volta. Eles se acharam muito espertos, mas Kyle suspeitava que a av provavelmente sabia de tudo que estava
acontecendo. Ela era muito inteligente para deixar passar qualquer uma de suas armaes.
  - Droga - ele resmungou, cerrando os punhos em agonia. Pensar que ela fora embora, de verdade, lhe causava um vazio
profundo na alma. O que ela estava fazendo, voando sozinha naquele maldito avio, procurando por alguma planta rara na
floresta Amaznica? Ela nunca fizera isso. Seu avio explodira em algum lugar do Brasil, caindo em terra em uma pavorosa
bola de chamas. Seu corpo carbonizado fora trazido de volta para os Estados Unidos, onde seus filhos e netos atordoados
lutavam com a incredulidade e tentavam lidar com o fato de que a fora mais influente de suas vidas de repente se fora.
  Abrindo a janela, Kyle deixou entrar a brisa da noite e observou todos aqueles hectares, seus hectares agora. Bem, seriam
seus em seis meses se conseguisse suportar por tanto tempo. No que estivesse triste por deixar Minneapolis; sua vida l
estava estagnada e ele nunca se encontrara, nunca tomara juzo, nunca ficara em um emprego por muito tempo. No, ele era
irriquieto por natureza, e talvez fosse por isso que Kate o tenha escolhido entre todos os netos para herdar a fazenda.
Provavelmente, essa foi a maneira que ela encontrou de for-lo a criar razes.
  Mas que droga, se lembrou do funeral e do caixo fechado coberto de flores, da igreja cheia de pessoas de luto, dos
familiares vestidos de preto e lutando com as lgrimas. Mais tarde, sombrios, quase incapazes de falar, se reuniram em volta
de uma mesa enorme no escritrio do advogado e escutaram enquanto Sterling Foster, sentado  cabeceira da mesa, olhava
para todos eles com as mos sobre os ltimos desejos de Kate, seu testamento.
  - Kate Fortune foi uma mulher memorvel, me de cinco filhos, porm s quatro criados por ela - comeou ele, olhando
lentamente em volta da mesa. - Av de... quantos? Doze? E bisav tambm. - Ele sorriu com tristeza. - Apesar de viva h dez
anos, ela ainda era a fora condutora da Cosmticos Fortune. Ela sobreviveu  morte do marido. Assim como  perda de um
filho... Primeiro, ela me instruiu a entregar a todos os amuletos que comprara quando nasceram. Peguei-os no vaso da sala de
reunies em que estavam guardados.
  Ele passou uma bandeja de prata com envelopes brancos ao redor da mesa, e quando a travessa chegou nele, Kyle
encontrou seu nome datilografado com nitidez em um dos pacotes. Ah, Kate, pensou com tristeza enquanto rasgava o
envelope e retirava uma objeto de prata.
  O advogado limpou a garganta e levantou os papis datilografados a sua frente.
  - Eu, Katherine Winfield Fortune, estando em meu juzo perfeito...
  Todos prestavam ateno ao advogado, e Kyle sentia os msculos tensos. Tudo isso estava to errado. Era como se o
mundo tivesse parado de repente e ele tivesse perdido o cho.
  Sua irm Jane sentou-se ao seu lado, os dedos apertando a manga do casaco dele, a renda do punho do vestido, em que
enxugava os olhos, manchada de rimel. Ela tentava ser forte, mas seu lbio inferior continuava a tremer e ela o segurava
pedindo apoio. Me solteira, esperava-se que ela conseguisse suportar sozinha, encarar os desafios que a vida imps. Mas
nenhum deles - filhos, filhas e netos - conseguia acreditar que perdera uma pessoa to ntegra e querida, a base de suas vidas.
  - Ah, meu Deus - gemeu ela, uma mecha de cabelo cor de canela caindo sobre o rosto.
  Ele deu as mos a Jane e encontrou o olhar desconsolado de Michael. Os olhos dele refletiam seu tormento. Michael.
Sempre responsvel. Enquanto Michael sempre fazia tudo certo, Kyle fracassava. Michael carregava a responsabilidade em
seus ombros; Kyle fugia dela.
  Parecia que Jane tinha conseguido um pouco de fora. Piscando e endireitando os ombros, pegou a jarra d'gua e se serviu.
A um sinal de Allison, serviu um segundo copo. Allie, a bela, modelo e porta-voz da Cosmticos Fortune, a menina rica com
um sorriso encantador. Agora, seu lindo rosto estava contrado e plido, sentada entre seu irmo e sua irm gmea, Rocky. At
a expresso normalmente animada de Rocky estava sem vida.
  Rocky parecia conseguir alguma fora de seu nico irmo, Adam, que lhe afagava o ombro enquanto Sterling continuava a
leitura. Adam era o mais velho e o nico filho de Jake e Erica Fortune. Cercado por irms, Adam era algum que Kyle
costumava procurar, um esprito afim, um filho rebelde. Adam virara as costas para a fortuna da famlia, viajando pelo pas
por alguns anos antes de se tornar militar e desistir quando a esposa morreu. Agora, Adam era um pai solteiro de trs filhos
tentando seguir em frente.
  Kyle no o invejava. Droga, ele no invejava ningum que estivesse aqui hoje. Brincando com o cordo em seu pescoo,
ele tentava se concentrar.
  Prendendo os olhos por uns instantes, Sterling virou a pgina e continuou sua montona leitura. Kyle gostava dele. Parecia
falar sem pensar e no fazia rodeios. Os culos de leitura estavam na ponta do nariz, e o cabelo branco, impecavelmente
penteado, parecia prata sob a luz.
  - E para meu neto Grant McClure, deixo A Paixo dos Fortune, um garanho Appaloosa registrado...
  Kyle observou a reao do meio-irmo, mas Grant continuou a olhar pela janela, nem piscou ao ouvir o prprio nome.
Grant parecia fora de lugar aqui usando jeans, jaqueta e chapu Stetson e com sua caminhonete estacionada junto a BMWs,
Cadillacs e Porsches. No ntimo, Kyle apostava que o meio-irmo cowboy estava doido para entrar em um avio, apagar as
luzes da cidade e voar de volta para a vida rstica que tanto amava no meio do nada: Clear Springs, Wyoming.
  Ao lado de Grant, Kristina, a nica filha de Nate e Barbara, o pai de Kyle e sua madrasta, estava nervosa na cadeira e
mordia o lbio inferior enquanto tentava se mostrar interessada. Por incrvel que parea, ela jogou os cabelos louros por cima
do ombro e pareceu no querer nada alm de sair do escritrio do advogado. Ela encontrou os olhos de Kyle, mandou-lhe uma
mensagem silenciosa e ento desviou o olhar.
  Ele no a culpava. Eles tinham sofrido durante o funeral, o enterro e a reunio social que se seguiu com os familiares e
amigos mais ntimos de Kate. Centenas de cartes de condolncia, um legtimo jardim de flores e coroas e dezenas de
milhares de dlares em cheques para as instituies de caridade preferidas de Kate chegavam o tempo todo. E havia a
imprensa e a especulao sobre sua morte, como ela pilotara o avio da empresa sozinha pelas florestas da Amrica do Sul, e
de alguma forma perdera o controle e cara para uma morte horrvel...
  Kyle ficou com o rosto tenso.
  - ... E para meu neto Kyle, deixo a fazenda em Clear Springs, Wyoming, com todo o gado e equipamentos, com exceo do
garanho A Paixo dos Fortune... - Kyle no estava ouvindo direito at que a clusula fosse lida - ... Kyle deve residir na
fazenda por no menos do que seis meses antes que a escritura e todos os papis sejam transferidos para seu nome...
  Era tpico de sua av deixar a fazenda para ele - o osis de sua infncia - com algumas condies. Ele ouviu um rpido
suspiro de seu irmo Michael, provavelmente por causa do valor da fazenda e do fato de Kyle nunca ter feito nada sozinho,
no realmente.
  Mais tarde, Michael conversara com ele sozinho, lhe passara um sermo sobre responsabilidade, governar a prpria vida e
aproveitar ao mximo a oportunidade que Kate lhe dera.
  Kyle no escutou muito. No precisava de sermes. Sabia que errara e no achava que era da conta de Mike o que faria
com seu futuro. Era seu - para o sucesso ou o fracasso.
  Mas seu irmo estava certo sobre uma coisa. Agora Kyle tinha a chance de se revelar morando na fazenda, fazendo os
consertos necessrios e finalmente vendendo tudo para obter um excelente lucro, apesar de isso provavelmente no ser o que a
av pretendia.
  - O que voc esperava? - ele disse para a sala vazia, como se a av pudesse escut-lo. - Realmente achou que poderia me
controlar do tmulo? Achou? Bem, voc est errada. Vou vender esse lugar assim... - Estalou os dedos e pegou o trinco da
janela, mas ao fechar a vidraa, viu a noite estrelada, o velho pomar que se estendia at a fazenda vizinha, onde uma lmpada
brilhava em uma das janelas.
  Sam.
  Um inesperado turbilho de emoes fez com que seu corao saltasse. Por um fugaz momento, imaginou se a av
planejara deix-lo to perto da nica mulher que o fazia querer estrangul-la em um segundo e fazer amor com ela no
seguinte. Mas isso era impossvel. Ningum, ningum mesmo, soubera de seu romance com Sam - bem, s ele prprio e Sam
 e continuaria sempre dessa maneira.
  Ele observou a aconchegante chama de luz, parecia dar-lhe boas-vindas, e rangeu os dentes ao perceber que o que mais
desejava era andar por aqueles campos iluminados pela lua, bater na porta dela e tom-la nos braos. Ele a beijaria como
antes, com a mesma paixo que correu por suas veias e trouxe sua virilidade  tona anos atrs.
  Mas cruzar a fronteira para a casa dos Rawlings era a ltima coisa no mundo que ele planejava fazer.
  Virou-se e quase bateu com a cabea em um lustre que pendia muito baixo. Sentiu-se encurralado, manipulado, frustrado
quando pensou em Sam. Como se a av pudesse escut-lo onde estivesse, ele falou entre os dentes:
  - Tudo bem, Kate. Voc venceu. Estou aqui. S me diga uma coisa: como devo agir em relao a Sam?


  Captulo 3

  - Bom, muito bom. - Sam tirou as botas na varanda dos fundos, onde uma mariposa sem rumo batia na luz. Lanou um
olhar alm da cerca de arame farpado para os hectares visveis da propriedade dos Fortune e mais uma vez imaginou do que
Kyle era capaz.
  Durante toda a tarde e a noite, vinha brigando com uma dor de cabea que comeou quando colocou os olhos em Kyle
Fortune depois de dez longos anos. Enquanto arrumava a casa, pensara nele, desejando nunca mais precisar lidar com ele, mas
sabendo, no fundo do corao, que no teria escolha.
  Por que Kate - uma mulher que Sam admirava por sua coragem e viso clara - achou melhor deixar a fazenda para ele
quando tinha mais de uma dzia de descendentes para escolher? Kyle era o menos apropriado para administrar a fazenda, o
candidato menos provvel a adotar Wyoming como seu lar. Por que no Grant, que nunca deixara Clear Springs? Ou Rachel,
que tantos na cidade achavam to parecida com a av? Rocky, prima de Kyle, era aventureira, uma piloto, e sempre amara
Clear Springs. Mas no, Kate escolhera Kyle e depois o prendeu aqui por seis longos meses - to perto de Sam.
  Andando silenciosamente at a pia, suspirou baixinho, abriu a torneira e jogou gua fria no rosto, deixando escorrer para a
blusa.
  - Cristo! - ela sussurrou antes de tomar um longo gole de gua da torneira. Se tivesse alguma coisa na cabea, chamaria
Kyle, diria que precisavam conversar e, quando estivesse cara a cara com ele de novo, admitiria que tinham uma filha, uma
linda menina sapeca.
  - Certo. Agora, fazer o qu? - pensou alto enquanto enxugava a boca na manga. Ou Kyle daria no p - se a histria se
repetisse - ou exigiria prova da paternidade e, quando os exames de sangue estivessem prontos, pediria custdia
compartilhada. - Dane-se... - ela parou quando viu o reflexo de Caitlyn na janela atrs da pia. - O que voc est fazendo
acordada?
  - O que voc est fazendo falando sozinha?
  Sam suspirou e endireitou as mangas arregaadas at os cotovelos. Com o sorriso especial reservado s para a filha,
levantou um ombro.
  - T certo. Voc me pegou... Acho que estou chateada.
  - Por causa do seu amigo? - Caitlyn a olhava de um jeito estranho. Franzia o rostinho de nove anos com preocupao, os
olhos azuis dos Fortune acusando-a silenciosamente.
  - , por causa dele.
  - Voc sempre me diz para no deixar que outras pessoas me aborream.
  -  um bom conselho. Acho que vou segui-lo. Agora, por que voc no explica por que est acordada to tarde? Achei que
tivesse ido para cama uma hora atrs.
  - No consegui dormir - disse Caitlyn encolhendo os ombros, mas as linhas de preocupao no suavizaram em sua testa.
  - Por que no?
  - Est calor.
  - E...? - Sam a encorajou, se aproximando da filha e gentilmente a conduzindo para as escadas que levavam ao quarto.
  - E... - Caitlyn mordeu o lbio.
  - O que ?
  -  Jenny Peterkin - Caitlyn finalmente admitiu juntando as sobrancelhas.
  - O que tem a Jenny? - Samantha no estava gostando do rumo da conversa. Jenny era uma menina mimada de dez anos
que era o carma da vida de Caitlyn desde a segunda srie.
  - Acho que ela me xingou.
  - Voc acha?
  - Acho. Enquanto voc estava na cocheira, o telefone tocou e algum me chamou e disse que era Tommy Wilkins, mas no
parecia ele e eu ouvi risos. - Ela engoliu em seco e olhou para o cho.
  - O que o Tommy, a Jenny ou seja l quem for disse?
  - Que eu sou... sou uma bastarda.
  Meu Deus, dai-me foras.
  - Voc sabe muito bem, minha querida Caitie, essas pessoas do telefone so crianas malvadas - disse Sam, se corroendo
por dentro por causa da filha. - Eles no sabem nada sobre voc. - Ela abaixou e passou os braos em volta dos ombros de
Caitlyn. No era a primeira vez que ela sentia a falta de um pai, e provavelmente no seria a ltima, mas cada vez doa um
pouco mais.
  -  verdade?
  - O qu?
  - Procurei a palavra no dicionrio e... e eu sou. No tenho pai.
  -  verdade que eu no me casei com seu pai, mas voc tem um. Todos tm um pai.
  - Onde est o meu? Quem  ele? - O lbio inferior de Caitlyn tremia e os olhos estavam marejados de lgrimas.
  - Ele  um homem que mora muito longe. J disse isso. - Por que agora? Com Kyle to perto, por que aqueles pirralhos
tinham de lembrar que Caitlyn no tinha um pai agora?
  - Voc disse que um dia eu iria encontr-lo.
  - E vai.
  - Quando?
  Com um sorriso triste, Sam disse:
  - Acho que mais cedo do que eu queria.
  - Vou gostar dele? Sam assentiu.
  - Acho que sim. A maioria das pessoas gosta.
  - Mas voc no.
  -  mais complicado do que gostar dele ou no. Voc vai ver. Ento, gostaria de um lanchinho antes de voltar para cama?
  Caitlyn estreitou os olhos como se soubesse que estava sendo manipulada. Aos nove anos, no era mais to fcil distra-la
quanto antes.
  - Mas, me...
  - Da prxima vez que Jenny, Tommy ou seja l quem for ligar, diga para eles deixarem voc em paz. Melhor, no diga
nada, s me d o telefone. Falarei com eles. Agora voc est melhor?
  - Acho que sim. - Ela enxugou as lgrimas e o trauma, pelo menos neste momento, parecia ter passado. Suspirando alto,
Caitlyn foi at a janela e olhou em direo  cocheira. Passou os dedos pelo peitoril. - Estive pensando. - Lanou um olhar
astuto para a me.
  - Sobre?
  - Voc me prometeu um cavalo de aniversrio, lembra?
  - Prometi, mas seu aniversrio  s na primavera.
  - Eu sei, mas o Natal  antes disso.
  - Ainda falta meio ano. - Seis meses, o mesmo tempo que Kyle teria de ficar em Wyoming.
  Juntas, me e filha subiram as escadas estreitas de madeira at o pequenino quarto de Caitlyn, o mesmo quarto que Sam
passara sua infncia. Ela abriu a janela. Uma brisa leve fez as cortinas desbotadas voarem, trazendo consigo o aroma de terra
seca e rosas do jardim. Grilos cantavam, seu coro suave s vezes interrompido pelo gemido de um bezerro ou pelo uivo de um
coiote no alto das montanhas.
  Caitlyn se jogou na cama - a mesma cama com dossel duplo em que Sam dormira - e tentou encobrir um bocejo.
  - Eu amo voc - ela murmurou no travesseiro, naquele momento parecendo tanto com Kyle que o corao de Sam at doeu.
  - Eu tambm. - Sam beijou a bochecha rosada da filha, mas antes que pudesse pegar a empoeirada cala jeans e a camiseta
do cho, Caitlyn se agitou.
  - Deixe a luz acesa.
  Sam juntou as roupas sujas mas no saiu do quarto.
  - Por qu?
  Levantando os ombros, Caitlyn suspirou:
  - No sei.
  - Claro que sabe. Voc dorme no escuro desde os dois anos. - Os cabelos da nuca de Sam se arrepiaram. - Tem alguma
coisa errada? - ela perguntou. - Alguma coisa alm das ligaes de Jenny Peterkin?
  Caitlyn mordeu o lbio, um sinal claro de que mais alguma coisa a perturbava.
  Ainda segurando a roupa suja, Sam abaixou-se no p da cama de Caitlyn.
  - T bom, querida, pare de enrolar. O que ?
  - Eu... no sei - admitiu Caitlyn, fazendo um beicinho de preocupao. - S uma sensao.
  A garganta de Sam ficou seca.
  - Uma sensao? De qu?
  - Como... como se algum estivesse me observando.
  - Algum? Quem?
  - No sei! - disse Caitlyn, puxando a colcha at o pescoo, apesar de estar uns trinta graus no pequeno quarto.
  - Voc viu algum? - Meu Deus, ser que tinha algum seguindo sua filha? Isso acontecia com pessoas famosas na cidade,
mas s vezes alguns pervertidos seguiam crianas... Por favor, Deus, no!
  - No vi ningum mas...  como se, voc sabe, quando voc sente que tem algum olhando. s vezes, Zach Bellown me
olha engraado, e mesmo a carteira dele sendo atrs da minha e no podendo ver, eu sei que ele est me olhando.  estranho.
  -  claro que  - disse Sam com o corao palpitando. - Mas se voc no viu ningum... Quando isso aconteceu?
  - Umas duas vezes na escola e depois uma vez na loja.
  - Algum estava com voc quando isso aconteceu? Uma coleguinha, uma professora ou algum que possa ter visto quem
estava observando voc? - perguntou Sam, tentando loucamente no entrar em pnico, sentindo o estmago revirar.
  Caitlyn negou com a cabea.
  - Ento por que voc est... preocupada hoje? Caitlyn mordeu o lbio de novo.
  - S me sinto estranha.
  - Bem, isso acontece! - Sam colocou um sorriso no rosto, mas estava se contorcendo por dentro. - Voc vai dormir comigo.
E no se preocupe com ningum observando voc. Temos o melhor co de guarda do mundo...
  - Fang? - Caitlyn riu, a preocupao desaparecendo de seus olhos.
  - , e eu tranco todas as portas e janelas  noite. De qualquer forma, isso provavelmente  s sua imaginao. Vamos l.
  Arrastando a colcha com ela, Caitlyn saiu correndo do quarto pelo corredor e pulou na cama de casal de Sam. Escondeu-se
toda embaixo das cobertas.
  - Podemos ver televiso? - ela perguntou com um brilho nos olhos.
  - Achei que voc estivesse cansada.
  - Por favor...
  Sam concordou, imaginando se no teria sido enrolada pela mais jovem atriz do planeta. Verificou duas vezes as
fechaduras das portas, certificou-se de que Fang estava em sua posio favorita perto da base das escadas, depois lanou um
olhar pela janela da cozinha para a Fazenda Fortune. A noite, iluminada pela lua crescente, estava serena. O nico problema
imediato que surgia em seu futuro era Kyle Fortune. Sam subiu as escadas, escutou o estalido que o terceiro degrau sempre
fazia, mas sabia que sua vida e a de Caitlyn nunca mais seriam as mesmas.

  Kyle bateu em um mosquito com a prancheta enquanto andava pelos estbulos e olhava barris de gros, equipamentos,
suprimentos veterinrios, ferramentas e fardos de feno. Embora ainda fosse cedo, quase nove horas, ele j estivera na
cocheira, no alpendre, na casa de mquinas e na casa da bomba. Queria comparar com as notas e grficos que estavam no
livro-caixa e depois passar os dados para o computador que encomendara por telefone. Laptop, modem, software, impressora
j estavam a caminho. A Fazenda Fortune finalmente entraria no sculo vinte e um.
  Os estbulos pareciam mofados e fechados, o ar denso j estava esquentando. Um cheiro forte de estrume, couro, suor e
urina de cavalo se misturavam ao familiar odor que sempre associara a este lugar. Baldes, forcados, ps e ancinhos pendiam
de ganchos nas paredes. Perto do extintor de incndio estava um lampio a querosene pronto para ser aceso caso faltasse
eletricidade.
  Escutou Curinga, o nico garanho que ficava perto dos prdios, soltar um relincho penetrante. Kyle conclura que o
garanho era um problema, mas sentiria falta do animal manchado quando Grant decidisse lev-lo embora. Kyle sempre
associaria o Appaloosa ao reencontro com Sam.
  Com a imagem do cavalo bloqueando seus pensamentos, tirou os culos do bolso e colocou-os enquanto saa. Raios de sol
refletiam no metal do telhado da casa de mquinas.
  O garanho relinchou de novo.
  - Tudo bem, garoto - entoou uma voz de criana. Kyle parou mortificado. Sentada no parapeito mais alto
  da cerca estava uma menina - que devia ter entre oito e doze anos, ele supunha - falando com o maldito cavalo. Cabelos
louros avermelhados saam do que j fora um rabo de cavalo, os braos e pernas que se estendiam da cala jeans e da camiseta
amarela eram longos e bronzeados. Calava botas e tinha poeira e fuligem espalhadas pela roupa. Ele no conseguia ver o
rosto quando ela virou para o outro lado, concentrada no cavalo.
  - O que voc est fazendo aqui? - A menina se assustou e quase caiu da cerca ao olhar por cima dos ombros.
  - Quem  voc? - Os olhos azuis que sobressaam entre as sardas estavam indignados.
  - Opa! Essa fala  minha! - Ele foi adiante e percebeu em um instante que ela era filha de Samantha. Tinha a mesma postura
orgulhosa do queixo, os mesmos lbios carnudos e o nariz reto levemente arrebitado.
  - Eu sou Caitlyn - ela disse com um tom de provocao, para ver se ele o desafiaria. Tal me, tal filha. - Caitlyn Rawlings.
  - Prazer em conhec-la. Sou Kyle Fortune. - Ela o encarou sem se esquivar, mantendo o olhar, diferente da maioria das
crianas que ele conhecia. - Conheo sua me. Ela est aqui?
  - No. - A menina ficou um pouco embaraada ou porque no confiava nele ou porque sabia que estava onde no deveria
estar.
  Ele se inclinou sobre a cerca, observando a criana que se parecia tanto com a me.
  - Mas ela sabe que voc est aqui?
  Caitlyn mordeu o lbio inferior, como se imaginando uma mentira. Em vez disso, tentou enrolar.
  - Mais ou menos.
  - Bem, ou sabe ou no sabe.
  Os olhos da menina, de um tom de azul como o cu de vero, abaixaram.
  - Ela acha que fui para a casa de Tommy. Ele mora l... - Ela apontou o dedo para o oeste. - Mas peguei um atalho pelo
campo e...
  - Acabou aqui conversando com Curinga.
  - Isso. Acho melhor correr - ela falou como se de repente percebesse que teria problemas. Pulou para o cho e limpou a
poeira das mos, ento hesitou. - Fortune. Como a dona Kate?
  - Ela era minha av.
  - Voc  sortudo - ela disse sorrindo. Isso ele no poderia discutir.
  - Ela me deixou esta fazenda.
  - Ento voc mora aqui agora? - Ela abriu a boca em admirao e os olhos azuis brilharam como o sol em um lago na
montanha. - Uau, voc  mesmo sortudo.
  - Tambm acho. De qualquer modo, ficarei aqui por um tempo. At o Natal. - Por que ele se sentia obrigado a contar sua
histria? Provavelmente a clareza de seus olhos. E no fundo, sempre gostara de crianas.
  - E depois?
  - Provavelmente venderei a fazenda.
  - Por qu?
  - Estar na hora.
  - Se eu fosse a dona, nunca venderia. Minha me diz que  a melhor fazenda do vale.
  - Ela diz? - Kyle no conseguiu evitar um sorriso. Essa Caitlyn Rawlings era uma criana interessante. Precoce, esperta, e
ele suspeitava, bem astuta.
  Ela j estava descendo a alameda.
  - Tenho de ir. Mame vai ligar para a casa do Tommy se eu no ligar primeiro para avisar que j cheguei.
  Por instinto, ele sabia que ela era levada, apanhava gafanhotos, mergulhava nos riachos e provavelmente atirava com uma
22 e construa fortes com os fardos de feno. Ele tinha dvidas se ela alguma vez brincara de boneca, vestira as roupas velhas
da me ou brincara de panelinha. , ele pensou, a olhando passar entre o arame farpado e comear a correr pelos campos, com
certeza ela  filha de Sam.

  - Olha s voc - disse Grant ao entrar pela porta de tela e ver o meio-irmo logo depois de ter encontrado Caitlyn. - Se no
o conhecesse to bem, diria que  um autntico cowboy.
  - Claro - Kyle falou cheio de sarcasmo.
  - Tem caf?
  - Instantneo.
  O sorriso de Grant ficou ainda maior.
  - O qu? Nada de expresso ou cappuccino, ou seja l o que for, que vocs tomam na cidade?
  Kyle bufou. No podia discutir. Seu dia em Minneapolis geralmente comeava com um latte duplo, embora no quisesse
admitir aqui. Mas tinha de reconhecer que as malditas botas de cowboy machucavam um pouco e o jeans, recm-comprado no
armazm local, ainda estava apertado.
  - Olha, pode me insultar o quanto quiser, estou apenas enrolando at poder vender a fazenda e me mudar.
  - Muito nobre - observou Grant.
  - Quem disse que era nobre?
  - Ningum. Pode acreditar.
  - Foi o que pensei.
  Nunca fora o tipo de pessoa que se engaja em causas nobres, no sabia por que algumas pessoas se importavam. Ah, claro,
mantinha um respeito ressentido pelas pessoas que lutavam pelo que acreditavam, mas no ficava surpreso quando a luta
virava e os antigos heris quebravam a cara. Kyle acreditava que se no infringisse nenhuma lei e no pisasse nos calos de
ningum, nada mais importaria. Seu nico arrependimento, que ele enterrara mais fundo do que admitiria, era Sam. Rev-la
apenas fez com que se lembrasse de como eram prximos. Mas isso foi h muito tempo. Eram crianas. Eram to errados um
para o outro como agora.
  Grant pendurou o chapu em um gancho atrs da porta, depois se sentou em uma cadeira perto da velha mesa, a mesma
cadeira com ripas horizontais que gostava quando criana, enquanto Kyle servia para os dois uma xcara de algo que chamava
de caf.
  - Ento, voc viu Sam de novo? - disse Grant enquanto Kyle lhe entregava uma caneca muito quente.
  - Ontem, ela estava trabalhando com o demnio que voc herdou.
  - A nica que consegue tratar dele.
  -  mesmo?
  - Sam se transformou em uma excelente amazona. Havia um tom de admirao na voz do meio-irmo?
  Por alguma razo, Kyle sentiu uma pontada de cime.
  - Acho que sim.
  Grant tomou um longo gole do caf e franziu o nariz.
  - Voc nunca se importou em aprender a cozinhar.
  - Fale-me sobre Sam. - Sentando-se em uma cadeira gasta, apoiou o salto da bota em outra.
  - Ela tem sido uma ddiva. Quando Jim ficou doente, ela assumiu. Seguiu os passos do pai. Ele ensinou tudo que ela sabe
sobre administrar uma fazenda, que  muita coisa, e quando ele morreu, ela dirigiu esta fazenda to bem quanto a sua prpria
propriedade. - Girou a caneca, fazendo o contedo rodar, e fechou a cara. - Kate dependia de Sam para manter as coisas
funcionando quando no estava por perto, apesar de ter contratado um homem, Red Spencer, como administrador. Ele no era
to esperto quanto Jim e Sam ajudou o quanto pde. Depois Red se aposentou e tudo caiu sobre os ombros de Sam. Kate
pagou para ela e tentou encontrar outra pessoa, mas ningum era to honesto e leal quando Samantha Rawlings. Ningum
mais realmente se importava com a fazenda, ento... bem, Kate morreu e Sam assumiu.
  - Parece que ela  realmente maravilhosa. - Desta vez, Kyle tinha certeza de que percebera um tom de admirao na voz do
meio-irmo.
  - No diga isso para ela.
  - Voc est meio apaixonado por ela - disse Kyle apertando a caneca na mo.
  Grant riu e passou a mo pelos cabelos ruivos e curtos.
  - Eu? De jeito nenhum, e coitado daquele que se apaixonar. Ela  cabea dura. Prefiro que as minhas mulheres sejam um
pouco menos geniosas.
  - Ah, claro. - Kyle no estava convencido e no se importava de esconder seus sentimentos. Grant era um solteiro mas no
era imune s mulheres, principalmente as inteligentes e bonitas. Como Sam.
  - Conheci a filha dela hoje.
  - Caitlyn?
  - Sim... Ela estava aqui h uma meia hora. Parece muito com a me.
  - . Tem o mesmo gnio tambm. Parece que tem um jeito de se infiltrar no corao das pessoas.
  - Que nem a Sam?
  Grant sorriu e os olhos brilharam.
  - Por que voc se importaria?
  - No me importo.
  - Bem, falando do diabo... - disse Grant ouvindo o barulho de uma caminhonete descendo a alameda. Uma nuvem de poeira
seguia o velho Dodge que roncou at parar perto da casa. - Acho melhor ver como ela est indo com Curinga.
  - O cavalo endiabrado? No muito bem, se a exibio de ontem indicar alguma coisa.
  - Quer tentar?
  - Claro que no. Quanto mais longe eu estiver daquele demnio, mais gostarei dele. Se Kate no o tivesse deixado para
voc, provavelmente eu o venderia para uma fbrica de cola - disse Kyle, mas um sorriso apareceu nos cantos de sua boca.
  -  Claro. - Grant terminou o caf, mas no tirou os olhos da caminhonete de Sam.
  - Olha, tenho de morar aqui pelos prximos seis meses, mas acho que no tinha nenhuma clusula dizendo que teria de
arriscar minha vida tentando ensinar um garanho presunoso a andar na guia.
  - Espero que voc esteja falando do cavalo e no de mim. - Grant ainda estava olhando pela janela e Kyle tambm seguia
Samantha com o olhar enquanto ela saltava da caminhonete e tirava a franja dos olhos.
  - Interprete como quiser- disse Kyle. - Voc sabe, ela  maluca o suficiente para usar as unhas. Acho que vou verificar meu
cavalo.
  - Covarde.
  Grant pegou o chapu.
  - Pode apostar. Fiz uma promessa para mim mesmo uns anos atrs de que nunca seria controlado por uma mulher antes das
dez da manh. Assim se comea o dia com o p esquerdo. - Seus olhos se estreitaram enquanto colocava o chapu na cabea. -
Voc sabe o que dizem sobre quem mexe em casa de marimbondo? Pode ser s uma suposio, mas pelo que parece,
Samantha  um ninho de marimbondos.

  Samantha bateu a porta da caminhonete. Usava uma cala jeans escura e apertada, camisa desbotada com as mangas
dobradas at os cotovelos, como se estivesse pronta para uma briga. Os lbios estavam comprimidos em uma linha fina e
determinada. Antes que Grant pudesse sair pela porta dos fundos, ela entrou, a porta de tela batendo atrs dela.
  Kyle sentiu um sorriso em seus lbios, embora esperasse conseguir esconder sua satisfao. Se um olhar pudesse matar, ele
teria cado morto no segundo em que ela o fuzilou com os olhos verdes.
  - Bom dia, Sam - cumprimentou Grant.
  - Bom dia.
  - J estava de sada.
  - Espere. Eu ia ligar para voc - ela disse colocando a mo no brao de Grant de modo to ntimo e amigvel que irritou
Kyle. - O que voc vai querer fazer com Curinga agora que Kyle voltou?
  -  Vou lev-lo na prxima semana ou na outra. Sem pressa. At l, espero que ele j entre docemente no trailer.
  Sam no pde evitar o riso, e Kyle sentiu como se tivesse levado um chute inesperado. Quantas vezes ela, uma menina
levada de dezessete anos, sorrira daquele modo para ele?
  - Acho que isso depende de Kyle. Ele est no comando agora. - O sorriso dela apagou. Pequenas linhas apareceram nos
cantos da boca e uma marca profunda surgiu entre as sobrancelhas quando ela fuzilou Kyle com o olhar mais uma vez. Um
pouco da arrogncia pareceu ir embora um segundo antes de ela dizer:
  - S vim pegar algumas coisas. Agora que Kyle est aqui, no tem muito sentido eu continuar.
  Ela olhou para Grant.
  - Samantha? Espere um minuto. Voc no est desistindo de Curinga, est?
  - Talvez Kyle consiga dom-lo.
  - S se for em sonho - respondeu Grant.
  - De jeito nenhum. - Kyle levantou as mos. - No tenho nada a ver com essa fera.
  Ela murmurou alguma coisa que tinha a ver com pirralhos mimados e colheres de prata.
  - Temos um trato - Grant lembrou a ela.
  - Cancelado quando Kate deixou a fazenda para seu irmo.
  - Ei, esta briga no  minha - disse Kyle.
  Sam passou os dedos pelo cabelo que estava bem puxado para longe do rosto. Algumas nuvens encobriram seus olhos.
  - Tudo bem - ela disse para Grant. -Vou cuidar de Curinga por alguns dias, depois vou embora daqui.
  - Qual  o problema? - Grant olhou de Kyle para Sam. - Briga de namorados?
  A cor sumiu do rosto dela.
  - Apenas tenho bastante coisa para fazer na minha fazenda.
  - Justo. - No parecia que Grant acreditara completamente no que ela dissera, mas no queria pressionar. - S preciso poder
pegar Curinga antes de a gua de Clen James entrar no cio.
  - Sem promessas. Farei o meu melhor.
  -  tudo que peo. - Grant colocou o chapu. - Tenho de ir  cidade comprar uma pea para meu maldito trator. At mais.
Bateu com a palma da mo no portal enquanto saa, depois hesitou na varanda, a porta de tela ainda aberta, encostada em seu
ombro.
  - Kyle, mame ligou hoje de manh e disse que Rebecca andou dizendo que contratou um detetive particular para investigar
a causa do acidente de Kate.
  - Achei que tivesse sido apenas um acidente, falta de equipamento ou coisa assim.
  - , isso foi o que todo mundo pensou, mas voc conhece nossa tia. Ela gosta de mexer em casa de marimbondos.
  Kyle teve uma sensao parecida com pavor. Rebecca era a filha mais nova de Kate e Ben, e apesar de tecnicamente ser sua
tia, era apenas alguns anos mais velha. Uma escritora de mistrio, Rebecca era conhecida por ter uma imaginao frtil.
  - Ento, o que ela acha?
  - Quem sabe? Por mim, ela deveria parar de trabalhar e sossegar.
  - Ah, como voc?
  Grant lanou-lhe um olhar misterioso.
  - S no se surpreenda se ela ligar. At mais, Kyle. Sam. Samantha observou enquanto ele se afastava e hesitou
  por um momento. Estava sozinha com Kyle. De novo. Era o que ela queria. Era mesmo? Ao ver Grant indo embora, tomou
conscincia de que o ar na casa parecia mais pesado, denso com emoes silenciosas, e no conseguiu respirar direito. Estar
to perto do homem que um dia quebrou seu corao era surreal.
  - Por Deus, no entendo por que Kate deixou a fazenda para voc - ela disse, desatando os ns que de repente prenderam
sua lngua. - Grant ou Rocky...
  - Eu sei, eu sei. Voc j disse que praticamente qualquer um da famlia teria sido uma escolha melhor.
  Ela levantou o queixo e seus olhares se encontraram.
  -  exatamente o que eu penso.
  - At Alisson?
  Seus lbios se contraram na meno da prima de Kyle, to bonita e sofisticada, feita para o brilho e o ritmo acelerado da
cidade.
  - At a Kristina.
  - No a Kris - implicou ele.
  - Absolutamente! Sua irm pode ser mimada mas pelo menos sabe o que quer da vida! - Sam nunca conseguira guardar sua
opinio para si mesma, especialmente com Kyle. - Acho que sua av no estava com a cabea no lugar quando deixou este
lugar para voc.
  - Eu no poderia adivinhar.
  Dane-se sua maldita fala e seu sorriso sensual.
  - O que mais voc sabe? - ela perguntou.
  - Tenho o pressentimento de que voc vai me contar, mesmo que eu no queira saber, ento  melhor ouvir. - Ele abriu um
sorriso malicioso e ela teve vontade de esbofete-lo. Ele a estava irritando, conscientemente ou no. Bem, ele perguntou. Ela
com prazer diria a ele.
  - Voc no vai conseguir ficar aqui por seis meses, Kyle. Vai dar no p antes de completar o que veio fazer. Nunca passou
um inverno aqui, passou? s vezes a eletricidade acaba e se voc no conseguir ligar o gerador, tem de confiar na lareira para
se aquecer. Tem de abrir caminho para os estbulos atravs da neve profunda, derreter gua para proviso e viver com mingau
de aveia, feijo em lata, batatas e mas guardadas na despensa. No h televiso nem rdio, exceto um transistor, se as
baterias no estiverem baixas, e nenhum carro com trao nas quatro rodas vai conseguir atravessar. Ser apenas voc e sua
inteligncia, tentando sobreviver contra a Me Natureza e, no seu caso, aposto que ela ganha de mos amarradas.
  - Quanto?
  - O qu?
  - Quanto voc quer apostar? - ele perguntou, os olhos repentinamente perigosos. Ele cruzou a pequena distncia que os
separava e a encarou com uma expresso to turbulenta quanto uma nuvem trazendo tempestade. Ela sentiu o hlito quente em
seu rosto.
  - No preciso fazer uma aposta por que voc j perdeu. Voc no vai herdar este lugar porque voc, Kyle Fortune, nunca
perseverou em nada por tempo suficiente para ver acontecer. Foi por isso que Kate colocou aquelas clusulas em seu legado, e
 bom que ela esteja morta porque voc a desapontaria no dia em que as coisa ficassem feias e voc desistisse.
  Ela o encarou em desafio e ento ele viu: uma nuvem cruzando seus olhos, um tremor nos cantos de seus lbios, um
sentimento que ela tentava desesperadamente esconder.
  - Foi isso que voc veio aqui me dizer?
  - S vim pegar as minhas coisas. - Ela partiu para o escritrio, mas ele agarrou seu brao, os dedos apertando o cotovelo.
  - No acredito nisso.
  - Kyle, me deixa em paz.
  - Tem mais alguma coisa, Sam. Alguma coisa que est aborrecendo voc.
  O mais importante. Ningum jamais mexera com ele como Samantha Rawlings. Um olhar dela e ele derretia; um leve
movimento de sua boca, e ele ia  estratosfera; ver dor em seus olhos o faria querer matar o bastardo que a machucasse.
  Um lado do lbio dela estava levantado com um sorriso sarcstico.
  - Certo, Kyle, como voc  perceptivo. Poderia ser... deixe-me ver... o fato de voc ter ido embora dez anos atrs sem me
dizer adeus, no ligar, no escrever, apenas mandar um convite formal do seu casamento para minha famlia?
  Ele soltou um som por entre os dentes.
  - Deus, Sam.
  - Voc pediu. - Ela soltou o brao de seus dedos e avanou pela cozinha at o corredor. Ele a alcanou quando ela j estava
saindo, a jaqueta embaixo do brao, um caderno de endereos e uma caneca de caf na mo.
  - Acho que devamos conversar.
  - Tarde demais. - Outra nuvem passou por seu olhar, e ela sentiu o cho faltar por um instante.
  - Nunca  tarde demais.
  Ela soltou um leve grunhido de defesa.
  - Ah, Kyle, se voc soubesse.
  - Soubesse o qu?
  Girou para encar-lo e largou a caneca, que caiu no cho e se quebrou em mil pedaos.
  - Ah, pelo amor de...
  - Esquea isso. - Os dedos dele mais uma vez apertaram seu brao.
  - O qu?
  - Limparei isso mais tarde. - Ele sentiu uma premonio de um segundo, como se estivesse na beira de um abismo
emocional sem fundo e o cho em que estava pisando estivesse desmoronando embaixo de suas botas. - Voc estava quase
confiando em mim.
  Ela engoliu em seco.
  - Esta... esta no  a hora. H muito o que dizer. A maioria no tem muita importncia, mas... bem, algumas coisas so
importantes.
  - Que coisas?
  Ah, Deus, ela conseguiria dizer? Contar a ele que ele era pai? Vamos l, Sam, agora  a hora. Deixe de ser to covarde.
  Ele a estava encarando, esperando, com seus olhos azuis glaciais. Ela conseguia escutar o corao batendo. Quantas vezes
imaginara este momento, sonhara em contar-lhe toda a verdade, mesmo s tendo segurado o telefone ou comeado uma carta
para depois soltar o gancho ou abandonar a pgina no acabada?
  - Sei que fui embora de repente... Ela soltou um som sarcstico.
  - Voc provavelmente pensou que teramos um futuro, e poderamos ter tido, mas...
  - No! - Ela se afastou da verdade mais uma vez e se esquivou dele at a porta.
  - Sam...
  - Outra hora, ok? Podemos relembrar o passado uma outra hora, agora no tenho tempo a perder. Tenho de pegar Caitlyn
e... voltarei mais tarde para trabalhar com o cavalo.
  - Conheci Caitlyn esta manh.
  - Voc o qu? - Ela sentiu o rosto perder toda a cor. Ele conhecera Caitlyn? Ah, meu Deus.
  - Ela parou por aqui a caminho da...
  - Casa de Tommy Wilkins?
  - Isso mesmo. Parece uma tima menina. Voc fez um trabalho maravilhoso com ela.
  - Ah, obrigada. - Ela mal conseguia respirar. Molhando os lbios, silenciosamente se chamou de covarde, mas no
conseguia se acalmar para contar a verdade a ele. - Olha, tenho de correr. Foi para a porta de novo.
  - Voc sabe, Samantha, que eu no quis machuc-la.
  Essas palavras esmagaram sua alma. Os passos vacilaram e sentiu o corao em retalhos. Um bolo se formou na garganta.
  - No se preocupe com isso... Voc no me machucou. Sam ouviu as botas dele no assoalho atrs dela. Bateu a porta dos
fundos, passou pela varanda e desceu correndo os dois degraus empoeirados antes que ele a alcanasse. Ele a segurou pelo
ombro.
  - Samantha. Deus me ajude.
  - Por favor, me ajude aqui.
  - No posso. - Ela estava morrendo por dentro, desejando contar para ele, feri-lo, machuc-lo, mas no conseguia, no desta
maneira, no at que soubesse que ambas, ela e Caitlyn, estavam preparadas. Ah, meu Deus, que confuso!
  - Voc est fugindo de mim.
  - Acho que aprendi a lio. Tive um bom professor. Ele parou em frente a ela, sua sombra caindo sobre o rosto dela.
  - O que est acontecendo?
  - S acho que  um pecado uma mulher to esperta como a Kate deixar esta fazenda para um playboy urbano que no sabe
diferenciar a parte da frente de um cavalo da parte traseira.
  - Voc  uma mentirosa nojenta.
  - E voc  um amante nojento!
  Ele a fitou boquiaberto e ela mordeu a lngua. Isso no era o que ela queria dizer, mas no retiraria as palavras. Apesar de
rpido, o relacionamento que tiveram fora quente, selvagem, de tirar o flego. Ela era virgem e ele tinha dezoito anos,
excitado como um potro. Ela lutou contra as lembranas e o formigamento na pele.
  - Apenas me deixe em paz, Kyle.
  - De jeito nenhum.
  -  isso que quero. No sou mais uma menina ingnua de dezessete anos que beija o cho que voc pisa.
  Ele contraiu o maxilar.
  - Voc queria a verdade? Conseguiu. - Dez anos de fria tomaram conta da lngua dela. - Eu achava que te amava, mas
voc no se importou comigo. Ah, claro, eu era diverso garantida na hora que voc queria uma rapidinha no celeiro ou no
riacho, mas certamente no uma pessoa para se casar e se importar.
  - Deus - ele murmurou.
  - Eu no teria me importado, Kyle, no teria dado a mnima, mas trs ou quatro meses depois, voc se casou. Assim! - Ela
estalou os dedos no rosto dele. - Voc nem teve a coragem de ligar. Porque eu signifiquei muito pouco.
  Um msculo tremeu no canto do olho dele.
  - Apenas uma menina do campo que era boa para satisfazer seus desejos, mas no boa o suficiente para... para...
  - Para o qu? Casar? - Ele colocou seu rosto perto do dela. - Era isso que voc queria?
  S queria que voc me amasse.
  - Acho que na poca eu queria. Acreditava em compromisso. Sorte minha voc ser to volvel. Seno teria cometido o
maior erro da minha vida.
  - Se voc estava to interessada em compromisso, o que aconteceu com o pai de Caitlyn?
  - Nem pergunte - ela avisou, recuando.
  - Voc comeou.
  - Acho que seria melhor mantermos minha filha fora dessa conversa. - Ela no esperou uma resposta, apenas passou por ele
e subiu na cabine da caminhonete.
  Sam sentiu as bochechas quentes e o pulso latejava com fora ao olhar pelo espelho retrovisor. Kyle no se mexera. Ficou
parado, as pernas plantadas mais abertas do que os ombros, o cabelo liso voando ao vento enquanto olhava para ela.
  O corao dela deu um salto doloroso. Lgrimas ameaaram mas ela se recusou a deix-las cair. Os dedos apertando o
volante enquanto silenciosamente amaldioava o dia em que conhecera Kyle Fortune e se encantara com seu sorriso to
sensual.


  Captulo 4

  - Mulheres! - resmungou Kyle, sacudindo as mos como se assim pudesse se livrar de Sam e do jeito como ela j
conseguira se entranhar em sua vida. Era intil. De algum modo ela conseguira invadir a sua mente e passar para o sangue.
Ele tinha um mau pressentimento de que no conseguiria expurg-la de sua vida com facilidade. Olhou para o garanho que
estava de p, parado, e o encarou como se fosse a atrao de um espetculo.
  - As mulheres so a criao mais interessante de Deus, em especial as que nos deixam furiosos. Principalmente aquela. -
Kyle olhou sobre os ombros, mas s viu poeira na estrada de cascalho. Samantha j se fora h bastante tempo. Devia estar
animado, mas no estava. Ela o atingira com suas farpas.
  Fora um cafajeste. Um filho-da-me presunoso de dezoito anos. Namorara sua cota de moas em Minneapolis: debutantes
ricas que freqentavam escolas particulares, dirigiam Porsches e BMWs e passavam os veres viajando pela Europa e as
frias de inverno nas Bahamas. Moas com sorrisos arrumados por ortodontistas e narizes retocados por cirurgies plsticos.
A maioria delas era esperta, algumas eram engraadas, umas poucas at eram rebeldes e usavam roupas de brechs. Mas
nenhuma era como Sam. Ela era a inspirao de ar fresco no retorno de um mergulho longo e asfxiante.
  Baixa e atrevida, com cabelos louros avermelhados difceis de domar, contidos apenas por um elstico que os mantm
longe do perfeito rosto oval, ela era diferente de qualquer outra garota que conhecera. Samantha no estava interessada no
menino rico que visitava a fazenda da av, onde ela s vezes ajudava o pai no trabalho.
  Kyle s a notara realmente naquele vero e o fato de ela t-lo ignorado s aumentou o interesse, jogando lenha na fogueira
j acesa. Ele se exibia para ela, sorria de modo sensual, e s vezes, apoiado em uma cerca ou mastigando um fsforo, a olhava
passar dos estbulos para a casa de ferramentas, observando como os quadris dela se movimentavam e as ndegas firmes se
moviam por baixo do jeans surrado que estimulavam sua imaginaoj to frtil e o crebro cheio de testosterona.
  Ela pegava a ferramenta que estava procurando e ao voltar dizia bem alto para que ele pudesse ouvir:
  - Por que no tira uma foto? Dura mais tempo!
  Foi exatamente o que ele fez. Pegou a cmera de Jane e tirou vrios filmes de fotos de Samantha Rawlings - a garota que
parecia no se impressionar com o Corvette, trofus de tnis, aprovao para a Cornell University ou qualquer outra coisa
sobre ele. Os olhos verdes, como uma floresta pela manh, permaneciam gelados, os lbios nunca esboavam um sorriso para
alguma das piadas dele e quando ele ousava toc-la, ela levantava as j arqueadas sobrancelhas para coloc-lo no lugar. Ela
recusava convites para passear no carro dele, fingia no perceber o fato de que ele a encarava constantemente, parecia no dar
a mnima importncia quando ele saa com as meninas da cidade. Quanto mais ela o ignorava, mais intrigado ele ficava, mas
foi apenas quando a confrontou nos estbulos, enquanto colocava gua e alimentos para as guas, que ele comeou a entender.
  - Voc no gosta muito de mim, no ? - ele perguntou, montado no alto da cerca entre as cocheiras.
  - No tenho uma opinio formada. - Ela estava de costas para ele enquanto colocava aveia no cocho, despejando os gros
de uma velha lata de caf, mas ele sentiu um leve cheiro de flores silvestres apesar do p de aveia.
  -  claro que tem.
  - Voc se acha muito, no  mesmo? - Ela lhe lanou um olhar silencioso que dizia cresa. A cocheira estava escura com
apenas poucos raios de luz passando pela janela empoeirada. Estava quieto l dentro, exceto pelo farfalhar da palha e o ranger
de dentes dos cavalos triturando os gros.
  - S gostaria de conhecer voc melhor. - Suas mos estavam realmente suando?
  - Claro.
  - Por que no acredita em mim?
  Ela se virou e o olhou rapidamente, depois sacudiu a cabea.
  - Por que voc quer me conhecer e todas as outras meninas de Clear Springs. - Dando um tapinha na gua malhada, que j
tinha o nariz coberto de gros, ela saiu da cocheira, colocou outra medida de aveia na lata e entrou na cocheira ao lado, onde
um cavalo alazo soltou um suave suspiro de antecipao.
  - Eu apenas fico com elas.
  - Comigo no. - Ela fechou o trinco atrs de si e comeou a falar de um modo doce e suave com o cavalo. Com dedos
experientes, ela afagou a pelagem da gua enquanto despejava os gros. Kyle ficou irritado ao perceber que Samantha
Howlings dava mais ateno aos animais do que a ele.
  Por um tempo, nada mudou. Mas Kyle persistiu.
  Durante as primeiras semanas, Samantha no lhe deu a menor ateno. A av dele, que passava parte das frias de vero
em Wyoming, dava poucos conselhos, mas uma vez o pegou suando, com uma garrafa de Coca-Cola na mo acompanhando
Samantha com olhos atentos. Sam estava ajudando a colocar a ferradura em um dos potros mais rebeldes das redondezas, e
Kyle, que estava sentado no parapeito da varanda, encostado na pilastra, no escutou a porta de tela se abrir nem os leves
passos de sua av nas tbuas do assoalho.
  - Sam no  como as outras garotas que conhece. Ou voc ainda no percebeu isso?
  Ele quase pulou de susto, to atento estava em Samantha. O refrigerante respingou na camisa.
  -  O qu? - No conseguiu evitar o calor que subiu pela espinha.
  - Ser preciso mais do que um carro e um sorriso conquistador para chamar a ateno dela. Ela tem sido vista com Ted
Richter, um rapaz que no tem nada, ento no espere impression-la com o que tem. O que conta  o que voc tem por
dentro.
  Kyle no podia acreditar nisso. O que sua av podia saber? Ela era velha, santo Deus. Uma viva.
  Entretanto seus truques habituais - olhar para outras garotas, passear de carro pela cidade, brincar com ela sempre que podia
- no tinham conseguido transpor a enorme proteo em volta do corao de Sam.
  - Voc podia tentar ser voc mesmo - sugeriu Kate, os olhos azuis brilhando como se partilhasse um segredo. Ela lhe deu
um tapa no ombro do jeito que ela sempre fazia.
  - Eu mesmo? Estou sendo.
  - Tem certeza? - As sobrancelhas se arquearam de incredulidade. - Pense sobre isso, Kyle. E no deixe a garrafa de coca-
cola aqui porque atrai as abelhas. Ponha no lugar onde deve ficar, na garagem.
  Ele rangeu os dentes e se segurou para no dizer para ela tomar conta da vida dela. Mesmo aos dezoito, sabia que ela s
queria o melhor para ele. Alm disso, ela estava tentando superar a morte do av Ben, que mesmo sendo sortudo e duro na
queda, no conseguira sobreviver a um ataque fulminante do corao. Esta viagem a Wyoming era a primeira desde que seus
filhos - tio Jake e o pai de Kyle, Nathaniel - assumiram as responsabilidades do pai.  claro que Kate fazia parte do conselho
da empresa e supervisionara a transio, mas estava finalmente tirando umas poucas semanas de frias, apenas o suficiente,
pelo que parecia, para se meter na vida dele.
  Ignorando o conselho da av, passou as duas semanas seguintes tentando chamar a ateno de Sam. Mas, pelo que parecia,
Samantha era inacessvel, e quanto mais ela o ignorava, mais obcecado ele ficava.
  A noite, ele passava horas acordado, as mos sob a cabea enquanto olhava as estrelas atravs da janela aberta, evocando
imagens dela - imagens que o deixavam to excitado que at doa. Ele imaginava como ela era por baixo das calas gastas e
das camisetas. Os seios no eram to grandes, provavelmente do tamanho da palma de sua mo, mas mesmo assim daria tudo
para v-los. Ser que os mamilos eram escuros e grandes ou pequenos e rosados, fceis de enrijecer? Em sua mente, ele via o
corpo dela, molhado depois de nadar no riacho ou escorregadio de suor e quente de desejo. Ele pensava em agarr-la e beijar
aqueles lbios, as mos subindo pelas costelas at tocarem os seios escondidos, ou descendo pelo jeans aberto at encontrar
seu mido calor - mas sabia que no poderia fazer isso.
  Ser que algum j a beijara, tocara em seus seios, metera as mos por dentro de sua cala? E Tadd Ritcher, que diziam ser
um vagabundo de vida fcil que morava fora da cidade em um trailer? Ser que ele a beijara?
  Ele gemeu e pensou em ir at a cidade para encontrar Shawna Davies. J ficara com ela algumas vezes, sabia que s
precisava beij-la, dizer algumas palavras e ela o deixaria fazer o que quisesse. O problema  que no estava interessado. E
no era s porque ela j tinha feito isso com metade dos rapazes de Clear Springs, mas porque desde que botara os olhos em
Samantha, nenhuma outra garota o excitava.
  - Idiota - ele disse, alto o suficiente para o irmo escutar.
  - Voc que disse, no fui eu - disse Mike da cama de baixo.
  - V dormir.
  - Estou tentando.
  Droga, que confuso! Kyle sabia que tinha duas alternativas: poderia esquecer Sam ou tentar quebrar suas defesas. A
maioria das garotas se derretia com seu olhar. Aquelas que no eram seduzidas por seus olhares, vinham quando descobriam
que ele tinha muito dinheiro. Garotas como Shawna Davies. Mas ele no queria Shawna. Pela primeira vez na vida, ele no
queria outra. Apenas uma garota o interessava. Aquela que no podia ter.
  -  Pare de babar - brincou Michael na tarde seguinte. Eles estavam cavalgando por Murdock Ridge, olhando o gado pastar
perto do riacho. Os rabos espanavam as sempre presentes moscas, e bezerros brincavam perto das mes, mas no era o gado
que chamava a ateno de Kyle, no quando Samantha estava ajudando o pai a engatar um trailer a um velho trator. O trator
ocioso soltava fumaa no cu azul sem nuvens; e Samantha, sem saber que estava sendo observada, estava curvada olhando o
motor, o jeans apertado em suas ndegas quando ficava de p na grama seca do campo j ceifado.
  - No estou babando - resmungou Kyle, sem deixar de olh-la.
  - Certo. - Mike, um ano mais velho e anos-luz mais adiantado quando se tratava do sexo oposto, puxou as rdeas e olhou
para o irmo: - Cara, est tudo errado.
  - No tem nada errado.
  - At parece. Voc est doido por ela e ela nem presta ateno em voc, presta? - O riso de Mike se transformou em um
sorriso malicioso. - Nunca pensei que veria o dia em que uma garota, principalmente algum to simples e com a lngua to
afiada, deixaria voc assim... Mas gosto disso. Gosto muito.
  - Ela no  simples.
  - Comparada a Connie Benton, Beverly Marsh e Donna Smythe? - Mike ria ao citar trs garotas que Kyle namorara no ano
anterior. - Sam  simples, ok? No faz o seu tipo.
  - Meu tipo?
  - Rica, bonita e esnobe.
  - Voc no sabe de nada.
  - No? - Ele olhou para Sam e o sorriso se apagou. -Olhe, deixe Sam em paz, certo? Ela no precisa do tipo de encrenca
que voc vai causar.
  - Sabe, Mike, voc realmente  um p no saco.
  - Mas voc entendeu, no? Voc  um caso perdido, Kyle. - Mike riu e deu um grito que fez Sam olhar sobre os ombros,
esporeou o cavalo e saiu levantando poeira.
  Com as palavras do irmo ainda martelando no ouvido, Kyle galopou at a cerca, desmontou da sela e passou pelo arame
farpado. No pde deixar de notar que Sam comprimiu os lbios ao v-lo se aproximar. Ela parecia to zangada que poderia
pular no pescoo dele, mas Kyle no deixaria a clera de uma fmea aborrec-lo. Ele apontou para o trator.
  - Precisa de ajuda?
  - No, obrigada. Estamos bem. - Lanou-lhe um sorriso frio e duro.
  - Sam, cad as boas maneiras? Uma ajuda  sempre bem-vinda, sim. - Jim, o pai de Samantha, deu a volta pelo lado do
equipamento e se apoiou no assento de plstico rasgado, enquanto pegava um leno e enxugava o suor do rosto. - Maldito
alternador. Esse trator aqui j foi bom. Trabalhou muitos anos pro seu av, mas acho que est ficando cansado. - Jim suspirou
antes de guardar o leno no bolso de trs do macaco. Um homem baixo com uma barba prateada que crescia continuamente,
Jim Rawlings vivera no Wyoming a vida inteira, como todas as geraes de Rawlings antes dele. - A gente est acabando de
tirar o feno desse campo. Jack e Matt j levaram o ltimo carregamento pro estbulo, mas a o trator comeou a dar problema.
  Kyle desceu do cavalo.
  - Deixe-me dar uma olhada nisso.
  - No, ns podemos resolver isso. - Samantha se mantinha inflexvel.
  - Voc entende alguma coisa de trator? - Jim tomou um gole de usque. Pela primeira vez Kyle percebeu seu sotaque.
  - Entendo um pouco.
  Sam tentou ficar entre o pai e Kyle.
  - Olha s, no precisa se incomodar. Estamos bem mesmo. - Ela disse cada palavra de maneira enftica para ver se o pai
captava a mensagem. No obtendo resposta, ela deu as costas para Kyle, um sorriso fixo fora de lugar em seu rosto ansioso. -
Jack e Matt j devem estar chegando. - Sam olhou furtivamente para o horizonte, como se sua simples vontade pudesse forar
os dois empregados a aparecerem. - No precisa se incomodar.
  - No est incomodando. - O olhar deles se encontrou, e ele percebeu a pulsao no pescoo dela.
  - Mas este  o nosso trabalho. Podemos resolver isso.
  - Trabalho com carros...
  - No  bem a mesma coisa.
  - E claro que . - Kyle no queria ser feito de bobo, apesar de estar vendo o pnico crescendo nos olhos dela.
  - Escuta isso - disse Jim. Tentou subir no assento do trator mas o p escorregou e ele caiu para trs no cho. -Droga -
resmungou, antes de agarrar na beira do assento e fazer fora para sentar. O rosto estava vermelho por baixo do bronzeado, e
ele xingou enquanto pegava um cigarro, depois virou a chave.
  O motor ligou, mas logo estremeceu at "morrer" de novo. Jim tentou de novo, mas a bateria estava arriada e tudo que
conseguiu foi criar uma srie barulhenta de est-los que pareciam zombar dele.
  - Filho da...
  - Papai!
  - Est to morto quanto um defunto. Maldito... O rosto de Sam ficou tenso.
  - Por favor, pai.
  - Tudo bem. Kyle no liga se eu reclamar um pouco. Esse maldito trator...
  - Pai, no. - O rosto de Sam pegava fogo. Seu corao pulsava nervoso. Gotas de suor escorriam pelo pescoo at a gola da
camisa. - Nos deixe em paz - ela disse para Kyle.
  - Levaremos o trator de volta para a garagem. Matt sabe que o trator quebrou e logo estar de volta...
  Jim pulou para o cho e quase caiu, torcendo o tornozelo e perdendo o flego enquanto tentava se equilibrar. Cinza de
cigarro caiu no peito dele.
  - Ele no tem condies de trabalhar em nenhum equipamento.
  - Ah, meu Deus - murmurou ela. - No, ele s tomou um gole...
  - Um gole? Pelo amor de Deus, Sam, ele est pra l de Bagd! Poderia se machucar ou machucar outra pessoa...
  - No vou deixar isso acontecer. - Ela estava determinada, a postura reta, o olhar ameaador.
  - O que vocs esto conversando?
  - Nada, pai - Sam implorou a Kyle silenciosamente com olhos arregalados e cheios de medo. Pela primeira vez, ele viu o
lado vulnervel dela e entendeu por que ela fora to rpida em tentar mant-lo  distncia.
  O rudo de um motor cortou o ar. O alvio tomou conta das feies de Sam quando avistou uma das caminhonetes da
fazenda.
  - O Matt voltou, pai - ela disse, ainda encarando Kyle.
  - Voc j pode ir. Matt vai consertar tudo.

  - Voc no contou para sua av. - A voz de Sam pegou Kyle de surpresa. Ele estava sozinho no riacho, apoiado no tronco
de uma rvore, fumando um cigarro, pensando no longo vero que ainda tinha pela frente. A noite rapidamente caa e os
peixes estavam comeando a subir, formando ondas.
  - No tive motivos para isso. - O corao disparou ao v-la. O cabelo estava solto, o rosto emoldurado pelos cachos livres, e
ela trocara o jeans desbotado por um short branco e uma blusa fina amarrada abaixo dos seios. - Kate no ia gostar se eu
contasse que o administrador estava bbado.
  - Ele no ... - comeou ela e depois parou. - Ele... comea e pra. A maior parte do tempo ele est sbrio, at que alguma
coisa acontece e ele volta a beber. Isso vai acabar.
  - Tem certeza?
  Ela hesitou por um longo segundo.
  - Tenho.
  - E se ele no parar?
  - Ele vai.
  Pela primeira vez na vida, Kyle sentiu pena dela, sempre encobrindo o pai, fingindo que a vida estava normal. Ele apagou o
cigarro em uma pedra.
  - Como voc pode ter certeza de que ele vai parar? Sam suspirou alto quando uma brisa fez as rvores farfalharem,
mexendo as folhas prateadas e despenteando ainda mais seus cabelos.
  - Mame vai ameaar se separar dele se no parar.
  - E isso funciona?
  - At agora funcionou. - Ela sentou na vegetao seca ao lado dele. O cheiro de flores silvestres e o de sabonete misturados
no ar o provocava. Pegando uma paleta de grama, Samantha comeou a pic-la em pequenos pedaos, que jogava ao vento e
observava at cair nas guas escuras do riacho.
  - Voc no pode continuar encobrindo seu pai.
  - Eu sei.
  Hipnotizado pelo lindo beicinho que ela fazia, ele quase no conseguia manter a conversa.
  - Kate vai descobrir.
  - J disse que sei.
  - E depois?
  - Cuidaremos de tudo. Olhe, no vamos discutir por causa disso, ok? Papai tem um problema. Ele sabe disso, e eu e mame
tambm sabemos, mas estamos tentando manter as coisas sob controle. Ele teve um pequeno deslize naquele dia, e est
preocupado de ter estragado tudo quando deixou que voc o visse meio fora de si. No vai acontecer de novo.
  - Voc acredita bastante no velho.
  - Eu o conheo. Ele ama o trabalho. Adorou trabalhar para o seu av e beija o cho que Kate pisa, ento no precisa se
preocupar, certo? S vim agradecer por no contar nada.
  Ela j ia embora, mas os dedos de Kyle seguraram seu punho. Ao fazer isso, ele sentiu a pulsao por baixo da pele macia.
  - Essa no foi a nica razo que fez voc me procurar.
  - No? - Ela olhou na direo dele antes que parecesse ler seus pensamentos. - Ah, pelo amor de Deus, Fortune, no se
vanglorie.
  - No deveria?
  - Voc est atrs de mim desde que chegou, mas esperava que j tivesse percebido que no estou interessada.
  - Acho que est com medo. Ela riu.
  - Com medo? De voc? Por qu? Porque voc  o neto da patroa? Porque  da cidade grande? Pode acreditar, no tenho
medo de voc, mas do seu ego. Voc realmente se acha muito. - Levantando um pouco o queixo, perguntou: - O que voc
quer de mim?
  - Talvez uma chance de conhecer voc melhor.
  - Como j disse, no estou interessada.
  - Por que no? - Ele olhou para ela com cuidado. -  por causa de Tadd?
  - Tadd?
  - Ouvi dizer que vocs esto saindo.
  - Ele ... - Ela balanou a cabea e suspirou. - Tadd  s um amigo. Todos acham que ele  m pessoa, mas no . Ele 
legal. Apenas perturbado.
  - Ele est cheio de problemas.
  - Voc tambm. Talvez um tipo diferente, mas, de qualquer jeito, problemas.
  Apertou ainda mais o punho.
  - Se no  o Tadd ou outro cara...
  - No tem ningum.
  - Ento por que continua me evitando?
  Ela hesitou, e lentamente colocou os braos para trs. Em uma rvore prxima, uma coruja piava.
  - Quer razes? Ok. Tenho muitas. - Ela levantou um dedo. - Um, no saio com homens para quem trabalho.
  - Voc no...
  - Dois... - ela levantou outro dedo - voc nem mora por aqui. - Mais outro. - Trs, voc  muito mimado, e quatro, voc vive
de forma muita desregrada. Muito desregrada para mim. - Deixou a mo cair e levantou o ombro. - No vim aqui discutir com
voc. Olha, obrigada por no ter falado nada sobre meu pai. Eu... ns agradecemos, e voc tem a minha palavra de que ele no
vai mais beber na hora do trabalho. - Ela levantou e se afastou dele. -  melhor eu voltar.
  - No, espere, Sam! - Ele chamou enquanto ela subia a rampa. Ele correu atrs dela e chegou quando ela assoviava
suavemente para uma gua escura pastando na grama que crescia perto de uma pedra alta. - No fuja.
  - No estou fugindo.
  -  claro que est.
  - Certo, porque estou com medo.
  Ele fitou a sua boca enquanto ela engolia nervosamente, como se de repente sua garganta estivesse seca.
  - Apenas goste de mim.
  - No...
  Ele perdeu completamente a cabea e a beijou com tanta fora que fez sua cabea girar. Por um instante, ela ficou tensa nos
braos dele, depois derreteu como manteiga. O corao dele batia com fria, ecoando em seu crebro de um modo que no
conseguia ouvir a gua batendo na areia ou o suave relincho da gua.
  Quando ele levantou a cabea, ela olhou para ele com plpebras pesadas por um segundo antes de balanar a cabea como
que para coloc-la no lugar e tir-lo de l, livrando-se dos seus braos.
  - Ah, no! - Com raiva de si mesma, passou a mo na boca, no como se quisesse limpar o beijo, mas como se quisesse
certificar-se de que os lbios ainda estavam no lugar. - Isso foi um erro.
  - Por qu?
  - Porque voc  um menino rico e mimado, acostumado a conseguir tudo que quer.
  - Na maioria das vezes...
  - No desta vez, Fortune! Voc nunca vai me conseguir! - A voz dela tremeu quando pegou as rdeas e montou no cavalo,
desaparecendo no crepsculo numa nuvem de poeira.
  - Ah, Sam, vou sim. Voc sabe e eu sei. - Neste momento, ele tinha certeza de que era uma questo de tempo at fazer amor
com Samantha Rawlings. - Pacincia - ele sussurrou quando a lua subiu no cu escuro e um morcego voou por cima do lago. -
Temos o vero todo.
  Mas dizer para esperar a hora era um exerccio em vo. O vero estava acabando e logo ele estaria de volta a Minneapolis
com o resto da famlia. At Kate j estava ficando inquieta. Ela viera para o Wyoming a fim de colocar a cabea em ordem e
"tomar flego antes de comear a administrar a empresa", mas todos sabiam que estava usando esse tempo para lidar com a
dor. Mesmo com o casamento no tendo sido um mar de rosas, eles souberam se manter juntos. Kyle no sabia de todos os
detalhes - seu pai e av eram ambos discretos sobre assuntos pessoais - mas Kyle ouvira um pouco ao longo dos anos de sua
me, Sheila, que tinha sido a primeira esposa de Nathaniel e costumava aproveitar cada oportunidade desde o divrcio para
espalhar um pouco de veneno sobre a famlia Fortune.
  Kyle j chegara a pensar que a me fora maltratada quando se separou de Nate, mas ao longo dos anos mudou de opinio,
assim como Michael e Jane. Eles compararam informaes e descobriram que muitas vezes a me mudava a histria, torcia a
verdade ou apenas mentia para colocar os Fortune, especialmente o ex-marido e a me, Kate, em maus lenis. Sheila Fortune
era uma mulher amarga que sempre reclamava que fora enganada, que no tivera uma repartio de bens justa e que os
advogados "passaram-na para trs" na poca do divrcio.
  Sheila nunca trabalhara na vida, morava numa casa em um condomnio caro, comprada com o dinheiro dos Fortune, e tinha
cozinheiras, empregadas e jardineiros para servi-la. Com o passar do tempo, Kyle mudou de opinio sobre a me e quando a
comparava com Sam e sua famlia, sentia um gosto ruim na boca.
  Sam o evitou por quase uma semana, mas ele no permitiria que ela fosse embora com apenas um beijo - apesar de to
ardente. Ele a perseguira com a determinao de um lobo faminto seguindo uma cora solitria. Ele a vira nos estbulos
alimentando os animais, em casa ajudando a me a fazer gelia, na cidade em uma lanchonete em que ela pediu milk-shake de
framboesa.
  - Ainda no ficou cansado de me seguir? - ela perguntou ao pagar o milk-shake e seguir em direo  porta. A caminhonete
do pai dela, verde desbotado e coberta de fuligem, estava parada ao lado do carro esporte de Kyle no estacionamento.
  - No estou te seguindo.
  - Claro. - Ela lanou um olhar que o chamava de mentiroso ao passar pela porta de tela. Ele deixou a Coca-cola no
terminada no balco e foi atrs dela.
  - Talvez eu goste de encontrar com voc.
  - Talvez voc j esteja entediado.
  - No de voc.
  - Desista, Fortune. Voc no faz meu tipo.
  - At parece.
  - Voc acha que s porque seu sobrenome ...
  Ele se aproximou, segurou o pulso dela e desatentamente derramou milk-shake vermelho na blusa de Sam, deixando uma
mancha na altura dos seios.
  - S quero conhecer voc melhor.
  - De jeito nenhum! Olhe o que voc fez... - Kyle viu a mancha que se espalhava pelo tecido amarelo. Por um rpido
segundo, ele se imaginou lambendo aquela mistura cm seus seios, que eram firmes e empinados, mamilos vaidosos esperando
serem tocados por sua lngua. - Esquea isso - ela disse um pouco ofegante.
  - No consigo. - Ele a beijou ento, passou os braos cm volta dela e pressionou os lbios ansiosos contra os dela. Ele
escutou a bebida dela cair, sentiu que respingou na parte de trs de suas pernas, mas no ligou, e pela primeira vez ela tambm
o beijou, com lbios quentes e suplicantes, e a boca aberta para sua lngua.
  Um tremor subiu pela espinha e o sangue dele ferveu. Sua virilha doa.
  Ele intensificou o beijo, esquecendo que estavam parados na calada da rua principal da cidade.
  Como se um balde de gua fria tivesse cado sobre ela, Sam finalmente o empurrou.
  - No aqui - ela disse sem flego enquanto olhava para as janelas da lanchonete.
  - Onde voc quiser.
  - Olha, no posso me envolver nem com voc nem com ningum.
  - Samantha, por favor, me d uma chance...
  - De jeito nenhum.
  - Mas, Sam... Ela se afastou.
  - Kyle, me deixe em paz.
  - No posso.
  - Ento, me faa um favor. V para o inferno, Kyle Fortune, mas, por favor, no me leve com voc.
  Mas ele levou. Em uma quente tarde de vero quando as abelhas formavam um enxame no algodoal e ele estava prendendo
colunas nas cercas desde cedo, ele a encontrou. Sozinha. Nadando em uma curva do rio em que a gua era escura e funda.
  Suas roupas estavam jogadas na margem do rio e seu corpo nu se deixava ver entre as claras ondulaes, braos e pernas
bronzeados,os mamilos escuros que apontavam o cu enquanto ela flutuava at mergulhar de novo.
  Ele deveria ir embora. Fingir no ter cruzado a linha da cerca com esperana de encontr-la. Agir como se no tivesse visto
o tringulo de plos louros avermelhados no pice de suas pernas com gotas de gua quando ela vinha  superfcie e de novo
mergulhava.
  Sentiu o estmago revirar, um desejo que mal o deixava respirar se torcia de ansiedade dentro dele.
  A luz do sol cintilou na gua que as sombras no alcanavam e moldou perfeitamente o corpo dela, esbelto e pequeno,
flexvel e dcil, desde a cintura fina, passando pelo quadril atltico, indo at os tornozelos sensuais. O que ele no daria para
excit-la... Apertar seus lbios quentes na pele molhada e toc-la como nunca fora tocada. No tinha dvidas de que era
virgem, e Kyle adoraria faz-la mulher, mostrar para ela as delcias de fazer amor, ouvir seus gemidos de prazer antes mesmo
de penetr-la.
  O corao dele batia descompassado enquanto ela nadava como uma ninfa, sem saber que estava sendo observada. Ele
desceu at uma pedra enorme, de onde emitiu um som alto o suficiente para espantar os pssaros das rvores prximas.
  Samantha emergiu e tirou o cabelo dos olhos.
  - O qu? Pelo amor de Deus... O que voc est fazendo aqui?
  - Observando voc.
  - Voc no desiste, no ?
  - No quando quero alguma coisa.
  - Meu Deus. Aqui... aqui  uma propriedade particular.
  - Ento devo receber um corretivo. Invadi a propriedade e estou observando voc. - Engolindo um sorriso, ele percebeu o
rubor que subia pelo rosto dela e a maneira como tentava andar pela gua escondendo sua nudez com as mos.
  - V embora.
  - Ainda no.
  - Vou processar voc.
  - Claro.
  - Depois meu pai vai vir atrs de voc com a espingarda dele.
  Kyle riu.
  - Acho que no.
  Ela estava ficando com muito raiva. Ele podia ver a chama nos olhos dela.
  - Voc est me deixando constrangida.
  - Com um corpo como este, voc no deveria ficar constrangida.
  - Agindo desta maneira, voc deveria ficar.
  Ele riu de novo e pegou as roupas dela. Ela tentou segurar um gemido.
  - No ouse.
  - O qu? - Mexendo na cala, blusa, suti e calcinha, ele se endireitou.
  - Se voc me deixar aqui sem nada para vestir, eu juro, Kyle Fortune, que quando estiver dormindo cortarei seu corao
podre e alguma outra parte de sua anatomia da qual gosta muito.
  - Teria coragem? - Ele no pensara em roubar as roupas, mas a idia era interessante. Ela estava nadando para a margem
agora.
  - Sem pestanejar.
  - Veremos.
  - Voc  um menino mimado, presunoso, filho da...
  - Com quem esto suas roupas? Voc sabe, Sam - ele falou sem pressa, cruzando os braos com as roupas penduradas nos
dedos, considerando a situao, no me insultaria se fosse voc.
  Ela no estava escutando. Aparentemente decidiu que no teria nada a perder e saiu da gua, o corpo escultural pingando
no cho seco. Tremendo de raiva, ela se aproximou dele.
  - Voc  um cafajeste.
  - Voc no acha isso... - Os olhos dele prendiam os dela enquanto lhe devolvia a roupa. - No ia lev-las.
  - Cretino. - Ela vestiu a cala, deixando os seios, claros e firmes, balanarem e a ereo com a qual ele vinha lutando
passou a chamar a ateno.
  Com o som do zper, a viso que ele tinha dos quadris e dos plos midos na juno de suas pernas desapareceu. Em
segundos, ela passava a camiseta pela cabea e puxava o cabelo do pescoo. Depois ela pegou as peas de roupa ntima,
enfiou-as no bolso de trs e olhou para ele.
  - Por que voc insiste em me humilhar?
  - Porque voc no me d ateno.
  - Ento tudo isso  por causa do seu ego ferido? - Ela pegou as botas. - Um monte de meninas morreriam para ficar com
voc. V brincar com elas.
  - No quero um monte de meninas.
  Ela congelou.
  - Claro que quer.
  Pela primeira vez, a verdade bateu fundo dentro dele.
  - S quero voc.
  Visivelmente ela se assustou, os olhos procuraram os dele, e as botas quase caram.
  - De jeito nenhum. Sem pensar, ele a pegou.
  - Acredite em mim, eu mudaria as coisas se pudesse.
  - No, Kyle, no... - ela disse enquanto os lbios dele procuravam os dela. Ela tremeu e o corpo dele estremeceu em
resposta. - Por favor...
  - Por favor, o qu? - ele perguntou, mas ela no disse mais nenhuma palavra.
  Sua resposta foi abrir a boca e desistir de lutar contra a fraqueza que tomava conta dela. Caram na terra seca, e l, naquela
superfcie dura, com a gua batendo na margem e o vento balanando as folhas do algodoal, ele descobriu o verdadeiro
significado de fazer amor. Com dedos ansiosos, corpo ardente e rgido e uma nova conscincia de sua alma, ele roubou a
virgindade dela e deixou para trs um pedao de seu corao.
  At hoje, anos depois, ele lembrava dela deitada embaixo de seu corpo naquela primeira vez, que fora gloriosa. O cabelo
molhado emoldurava o rosto bronzeado, os olhos arregalados denunciavam a inexperincia e o receio, e a pele estremecia com
um simples toque enquanto lentamente ele a penetrava e encontrava um pedao do paraso que no sabia existir.


  Captulo 5

  Por que agora? Sam se perguntava. Por qu? Puxa, no precisava disso! A janela na frente da pia estava aberta e ela
observava a filha subir nos galhos mais baixos de uma macieira no quintal.
  - Caitlyn! Almoar.
  - T indo! - Com a agilidade de um verdadeiro moleque, Caitlyn pulou do galho e correu para a escada dos fundos. Fang, o
cachorro bobo, estava em seus calcanhares.
  - Deixe as botas na varanda.
  - Eu sei, eu sei. - Caitlyn puxou o salto de uma bota com o bico da outra.
  - E lave...
  - ...as mos e o rosto.
  - Isso mesmo.
  A porta de tela se abriu e depois bateu quando Caitlyn passou s de meias pelo tapete e desapareceu dentro do banheiro.
Fang, balanando o rabo, foi para seu lugar perto do velho fogo a lenha. O relgio do forno tocou.
  Sam pegou a torta de morango do forno. No era bem uma cozinheira, e a casca perto das beiradas estava chamuscada, mas
o aroma doce da fruta quente e da canela se espalhou no ar.
  Caitlyn voltou para a sala, um sorriso no rosto. Todas as preocupaes sobre estar sendo observada por algum
desconhecido pareciam ter sumido, e no recebera mais nenhum trote desde o ltimo de Jenny Peterkin. A vida de Sam e de
sua filha parecia estvel mais uma vez. Exceto por Kyle Fortune. Ele era um problema de carne e osso que Sam teria de
encarar.
  - Posso comer um pedao?
  - Depois.
  Quando Sam colocou a torta na janela para esfriar, Caitlyn pulou no assento desbotado da cadeira.
  - Que horas a me de Sarah vai chegar?
  - A qualquer instante. - Samantha olhou o relgio ao servir meio copo de leite e coloc-lo sobre a mesa. -  melhor comer
rpido.
  Caitlyn j estava comendo o sanduche, mordendo o po com dentes que ainda eram grandes para a sua boca. Aos nove
anos, ela era um pouco desengonada, os braos e as pernas cresciam mais rpido do que o resto do corpo, mas aos olhos de
Sam ela era linda.
  - Diga para a me de Sarah que pegarei vocs depois da aula. - Samantha se sentou e pegou a outra metade do sanduche. -
No vou me atrasar, mas se me atrasar, voc e Sarah...
  - J sei. No nadem no rio sozinhas, no peguem carona com ningum e... ela chegou! - O som dos pneus na estrada entrou
pela janela aberta, e Fang se levantou e comeou a latir.
  - J? Ela est dez minutos adiantada. - O que era estranho. A me de Sarah, Mandy Wilson, estava sempre correndo contra
o relgio, conciliando quatro crianas e um emprego de meio expediente. E Mandy ainda insistira em dar sua contribuio
levando as meninas para a aula de canoagem que insistiram em fazer neste vero.
  - Fang, quieto!
  Caitlyn deixou metade do sanduche esquecido e tomou um gole longo do leite, depois pulou da cadeira, pegou a mochila
do gancho perto da porta e saiu.
  -  Ah, no  Sarah! - A decepo era evidente pelo movimento de seus ombros.
  - No? Ento quem...? - Mas Samantha no precisou perguntar porque sabia que a pessoa mais provvel era Kyle Fortune.
Seu corao disparou e ela quase deixou cair o copo de ch gelado que estava na boca.
  Como podia ter tanto azar em reencontr-lo cara a cara to rpido? No estava pronta para isso, mas provavelmente nunca
estaria. Tomando coragem, olhou pela janela para o raio de sol que refletia na porta da caminhonete empoeirada dele. Se ele
apenas soubesse como ela o amara dez anos atrs e como fora cruel em partir seu corao. O ardente caso deles no fora
planejado; mas cometeram o erro de mergulhar de cabea nesse amor. Para Kyle, o amor nunca durava mais de duas semanas.
Samantha acreditava em amor para a vida toda. Por trs daquela aparncia de durona, ela era romntica.
  Ela empurrou a cadeira para trs e foi at a varanda, onde Caitlyn, curiosa como sempre, observava o estranho com olhos
to parecidos com os dele que uma hora Kyle teria de notar a semelhana.
  - Oi, Caitlyn - ele disse com o mesmo sorriso pelo qual Samantha se apaixonara anos atrs.
  - Oi - respondeu Caitlyn.
  - Voc no apareceu mais para me ver nem para ver o Curinga.
  - Mame no deixou - replicou Caitlyn, lanando um olhar de triunfo para a me.
  - Eu... hum, no achei que seria uma boa idia. - A voz de Samantha era inexpressiva, e ela tinha a sensao de estar
vivendo uma experincia fora de seu corpo. Estava dizendo as coisas certas, agindo como se nada no mundo estivesse errado,
mas dentro de sua cabea escutava uma splica ensurdecedora, como o som de uma cachoeira distante que parecia estar se
aproximando e ficando mais alto e mais perigoso a cada segundo.
  - Ela pode aparecer por l sempre que quiser.
  - Mesmo? - perguntou Caitlyn encantada.
  - Espere um momento. - Esta conversa estava indo rpido demais para Samantha.
  - Claro. Quando quiser.  um trato. Os olhos de Caitlyn cintilaram.
  - Quer selar o acordo? - ele disse, esticando e oferecendo a mo para ela apertar.
  Sam se inclinou no parapeito da varanda. As pernas fraquejaram ao ver a pequena mo de sua filha ser engolida pelos
enormes dedos de Kyle. O momento era magnfico, mas nenhum dos dois sabia o porqu. No, deveria existir uma ligao
mais permanente, uma compreenso mais profunda, um amor especial. Mas nem o pai nem a filha sabiam a verdade. Sam
assegurara que os dois estivessem protegidos da realidade. S ela podia compreender a magnitude deste momento. Lgrimas
brotaram em seus olhos.
  Pai e filha.
  Sonhadora. Sua boba romntica. Ainda no cresceu? Eles nunca sero parte de uma famlia de verdade.
  -  um trato, Sr. Fortune. - O sorriso de Caitlyn era enorme, mostrando seus dentes grandes.
  - Pode me chamar de Kyle. "Sr. Fortune" faz com que eu parea um homem velho. - Ele abaixou um pouco para olhar mais
de perto o rosto de Caitlyn quando soltou a pequena mo.
  Ele lanou um sorriso fascinante para Caitlyn, e Sam mal conseguiu respirar. Ento, a expresso dele mudou - subitamente,
a princpio, uma pergunta presa em seus lbios. A mesma pergunta, uma suspeita de algo que no podia denunciar, encobrindo
os olhos.
  Ele sabe. Ele v o prprio rosto refletido no olhar dela! Sam comeou a suar, e o corao pulsava to forte no peito - como
um passarinho tentando escapar da gaiola - que ela no conseguia se mexer.
  Ele tem o direito de saber a verdade. Caitlyn tambm. Voc tem de contar para eles!
  Lentamente, como se ele estivesse olhando para uma piscina suja em que a gua comeasse a clarear, as dvidas em seu
rosto desapareceram. Em um piscar de olhos ele soube. Sam tinha certeza disso.
  Conte para ele. Conte, para ele agora! Conte para os dois! Ah, Deus. As mos de Sam comearam a suar e ela abriu a boca,
no mesmo momento em que uma buzina tocou e a minivan de Mandy Wilson, apinhada com os filhos e o cachorro, desceu a
alameda. O carro prateado parou perto da cocheira. Da cozinha, Fang latia.
  - Tenho de ir! - Caitlyn disse e saiu correndo.
  - Espere! - Kyle olhou para ela sem palavras.
  - Tenha cuidado! - disse Samantha, tentando acenar para Mandy, que colocara a cabea para fora da janela do lado do
motorista.
  - Pegarei as meninas no final da aula.
  - timo, estarei em casa com o resto da crianada. Caitlyn desapareceu dentro da van. A porta de correr que Sarah estivera
segurando bateu fazendo um baque que parecia ecoar o corao de Sam. Est chegando a hora, pensou Sam, levantando a mo
enquanto Caitlyn acenava da janela e Mandy saa dirigindo.
  - Ela  um encanto - disse Kyle, olhando na direo da minivan que ia para a estrada. O cenho estava levemente franzido, o
lbio inferior cobrindo o superior como se estivesse perdido em pensamentos. - Quantos anos ela tem?
  - Nove. - Um bolo se formou na garganta de Samantha. Mais alguns segundos de silncio. Kyle tirou os culos
  de sol e os pendurou na camisa. O corao de Sam batia dolorosamente entre o zumbido dos insetos e o gorjeio dos
pssaros. Ah, meu Deus. Ele sabe. Ele tem de saber. Fang veio at a porta e comeou a arranhar para sair.
  - Quando  o aniversrio dela? O corao de Sam parou.
  - Entre, Kyle.  Ele j estava juntando dois com dois e chegando a trs: pai, me e filha. A filha deles. Abrindo a porta, ela
virou para a cozinha enquanto Fang passava para a varanda e desaparecia entre os arbustos. - Tem ch gelado e torta e...
  - No quero ch gelado.
  - Bem, tem outras coisas mais fortes. Meu pai deixou uma garrafa de usque no escritrio e...
  - Ela  minha filha, no ? - Seus olhos foram encobertos por nuvens escuras, e o sorriso, que j fora to caloroso, apagou
em uma linha amarga, assustadora, to gelada quanto os invernos nas montanhas.
  - Meu Deus... - Ela recusava-se a ver as malditas perguntas nos olhos dele, as acusaes silenciosas escritas em seu rosto.
Ela sentiu como se as pernas no fossem mais agentar quando olhou para a cozinha em que Caitlyn brincara quando criana.
Construindo fortes embaixo da mesa, empilhando blocos perto da despensa, fazendo mil e uma perguntas quando no estava
correndo feito um furaco pela casa. A vida como elas conheciam mudaria para sempre.
  -  ou no ? - Ele chutou uma cadeira de balano que estava na varanda que bateu na parede da casa. Fang latiu.
  As mos de Sam se apertaram na maaneta gasta da porta de tela.
  - Olhe, Kyle. Precisamos conversar. Se voc pelo menos entrasse... - Ela comeou a abrir a porta, mas to rpido quanto um
leo faminto, ele fechou a porta com a palma da mo, a agarrou firme, e com dedos fortes segurando os ombros dela, e a fez
girar e encarar a fria em seu rosto.
  - Responda, droga! Ela  minha filha ou no?
  O controle de Sam se partiu como um galho frgil.
  - , Kyle, ela  sua filha.  claro que . - Ela afastou a mo dele e o encarou. - Meu Deus, voc no conseguiu ver isso nos
olhos dela, no nariz, na curva do queixo?
  - Eu no fazia idia...
  - Voc realmente acreditou que eu poderia me envolver com outra pessoa logo depois de voc? Acreditou?
  - As pessoas acharam que Tadd Richter...
   - Nunca dormi com Tadd, Kyle. O nico homem com quem estive foi voc. Como pde pensar que estive com outra
pessoa? Nem Tadd, nem nenhum outro, logo depois que eu e voc... Ah, Deus, que desespero!
  - Eu no entendo o que voc fez.
  - E por que isso? - ela perguntou, incendiando como fogo na gasolina. - Foi voc que me seduziu e fugiu assim que pde.
Antes que pudesse piscar, voc j estava casado com outra mulher.
  - Sam...
  - Voc no  cego, Kyle. Caitlyn  a sua cara! Ela tem as caractersticas dos Fortune por todo o corpo. Ela  sua filha, Kyle,
goste ou no. Agora, podemos entrar e conversar civilizadamente ou voc quer descarregar toda sua raiva aqui na varanda
mesmo?
  - Ela sabe? - ele perguntou com o maxilar contrado.
  - O que voc acha? - Sam abriu a porta e entrou na cozinha.
  Kyle praguejou alto enquanto entrava.
  - No posso acreditar.
  - Ento no acredite.
  - Quero dizer... Inferno, nem sei o que quero dizer - Ele balanava a cabea tentando controlar a raiva. Sempre tivera
cabea quente, conhecido por suas brigas e discusses. Mas isso era diferente. Ambos sabiam disso.
  - Por que no me contou? No achava que eu tinha o direito de saber?
  - No.
  - No? - repetiu ele. - No? Voc perdeu a cabea? Em que planeta voc vive? Hoje em dia, os pais tambm tm direitos.
Ou voc no tem acompanhado casos de custdia ultimamente?
  O corao de Sam congelou. Custdia. Certamente ele no estava pensando em acion-a judicialmente por direito de
custdia. No Kyle. O eterno playboy. O que ele poderia querer com uma menina de nove anos que s bagunaria a vida dele?
Mas por mais que argumentasse consigo mesma, Sam no conseguia evitar o medo  um tipo de perturbao profunda e
cortante que rouba o sono e faz com que suor brote em pleno inverno.
  - Voc desistiu de todos os direitos sobre a minha filha h muitos anos.
  - Eu no sabia dela. - Uma veia estava comeando a pulsar em sua tmpora. - Como eu poderia desistir de alguma coisa?
  - Voc desistiu dela quando desistiu de mim.
  - Eu no...
  - Voc se casou, Kyle - ela sentiu aquela antiga ferida no corao, aquela que tanto tentara curar.
  O ar ficou pesado. Apenas o som do relgio da sala e o rudo da geladeira quebravam o silncio.
  - Tudo bem - ela disse suavemente. - Quando eu finalmente tomei coragem e fui ao mdico, depois de dois meses sem
menstruar e um exame de gravidez de farmcia, os convites do seu casamento j tinham sido entregues.
  - Mas voc podia ter me contado...
  - Quando? Na despedida de solteiro? Ou talvez no jantar de ensaio... No, melhor ainda, no casamento, voc sabe, naquela
parte da cerimnia em que o padre pergunta se algum tem alguma coisa contra aquele casamento. Talvez eu devesse ter
anunciado que estava esperando um beb do noivo. - Ela no pde evitar o sarcasmo nas palavras, no conseguia deixar de
sentir a mesma dor e amargura que sentira quando vira o convite de casamento aberto em sua mesa. O pai trouxera junto com
a correspondncia, e a me abrira o envelope creme. Quando Samantha, que acabara de vir da consulta do mdico que
confirmara as suspeitas, viu o convite, sentiu como se fosse desmaiar. Ainda tinha as palavras gravadas na memria: Sr. e Sra.
Donald P. Smythe tm a honra de convid-lo para o casamento de sua filha, Donna Joanne, com o Sr. Kyle James Fortune.
  A sala rodou. Samantha jogou o maldito convite na mesa, os joelhos repentinamente fracos, o estmago revirando. Ento,
por fora do destino, ela correu para o banheiro, onde deixou todo o almoo e foi obrigada a confessar para a me que estava
esperando um filho de Kyle Fortune. Esse fora o segredo delas, que nunca compartilharam com ningum, nem com o pai.
  E agora Kyle sabia a verdade.
  - Por que voc no senta? Vou servir um pouco de ch ou qualquer outra coisa. Tem torta e...
  - No quero torta nenhuma! - A voz dele ecoou como um trovo pela casa, e ele chutou uma cadeira que bateu na parede. -
Droga, Samantha, voc acaba de me dizer que sou pai. Tenho uma filha que j est crescida e nem sabe que eu existo. A
minha vida est virando de cabea para baixo e voc quer que eu coma torta?
  - S estou tentando me manter calma.
  - Por qu? Este no  um tipo de conversa calma, Sam. Certo. Se  assim que ele quer, ento vai ter de escutar tudo. A
batalha comeou.
  - Voc nunca ia me contar? - ele perguntou, passando os dedos nervosamente pelo cabelo, como se tentasse mas no
conseguisse manter a compostura.
  - Ia.
  - Quando?
  - Um pouco antes de contar para ela.
  - Que seria...
  - Quando ela fizesse dezoito anos.
  Ele olhou para ela estupefato, como se tivesse criado razes ali naquele cho amarelo, depois balanou a cabea lentamente
de um lado para o outro.
  - Dezoito?
  - .
  - Quando ela j fosse adulta?
  - Madura o suficiente para entender.
  - Filha da me! - Ele foi at a pia e olhou pela janela aberta. - Voc no acha que ela gostaria de saber que tinha... tem... um
pai, que ela tem o direito de saber a verdade, que  um crime esconder esse tipo de informao?
  - Mas no foi um crime enganar uma pessoa o vero todo, deix-la sem defesas, convenc-la de que voc era o homem
mais especial do mundo, faz-la am-lo tanto que at doa e depois deix-la para casar com outra mulher?
  - No foi assim.
  - Guarde isso para algum que acredite em voc, Kyle. - A garganta de Sam estava apertada, o corpo extenuado.
  - Eu gostava de voc e...
  - No comece, t? Por favor, no comece. Eu fui burra, uma romntica ingnua, mas no tenho mais dezessete anos e agora
sou imune a voc. - Ela foi at um armrio no canto da pia, abriu a porta, ficou na ponta dos ps e pegou uma garrafa
empoeirada. - No sei voc, mas eu preciso de uma bebida. - Ela olhou para ele sobre os ombros.
  - Ningum precisa de bebida.
  -  claro que precisa. A ltima vez que bebi foi quando papai morreu e antes eu no me lembro. Mas hoje, eu
definitivamente preciso de um gole de alguma coisa forte. Alm disso, no preciso de nenhuma lio de moral. - Ela pegou
dois copos, colocou uma espcie de usque nos dois e entregou um para ele. - Sade - provocou, encostando seu copo no dele.
- No  todo dia que se celebra o fato de sermos pais.
  Com o maxilar contrado e os olhos apertados, fervendo de fria e desaprovao, ele disse:
  - Talvez eu deva propor um brinde.
  - Por que no?
  - A Caitlyn. - A voz dele estava rouca quando encostou seu copo no dela. Sam sentiu um bolo na garganta. Com o olhar
preso no dele, tomou um gole e quase engasgou quando aquele lquido quente bateu na garganta. -Espero conhec-la muito
melhor.
  - Voc tem seis meses.
  - No. - Ele terminou o usque em um gole. - Tenho o resto da minha vida.
  - O que isso quer dizer? - O mundo estava caindo de novo. Ele colocou o copo na pia e disse bem alto:
  - Apenas que tem muito tempo perdido para ser recuperado.
  - Agora, espere um minuto. Voc no pode simplesmente voltar para Wyoming e impor sua presena na vida de uma
menina.
  - Errado, Sam - ele disse com a mesma arrogncia maldita que ele usava como medalha. - Eu posso fazer o que quiser.
  - Por que voc  um Fortune?
  - No. - Ele foi at a porta e a abriu com um chute. -Porque, a no ser que voc seja a maior mentirosa do mundo, eu sou o
pai de Caitlyn.
  - Pelo amor de Deus, Kyle...
  - Onde ela est? - Ele estava indo para a caminhonete, procurando as chaves no bolso enquanto cruzava o quintal e o
estacionamento.
  - No rio... com um instrutor.
  - No rio?
  - Ela e a amiga Sarah esto tendo aula de canoagem.
  - No acredito.
  Ele chegou na caminhonete.
  - Espere um minuto. O que voc pensa que est fazendo? - O pnico dominou o corao de Sam.
  - Vou encontrar a minha filha.
  - Agora?
  - Acho que j esperei tempo demais. - Ele abriu a porta. - Voc vem?
  - Claro.
  Ele colocou os culos de sol.
  - Suba.
  - Mas... mas eu no estou pronta. No peguei minha bolsa ou...
  - No vai precisar. Entre na caminhonete ou saia do meu caminho.
  - Pelo amor de Deus, Kyle, escute o que voc est dizendo. Pense um pouco!
  Ele entrou na cabine, o rosto tenso, os cantos da boca apertados, os olhos escondidos atrs das lentes escuras. Sam no
gostava da sensao de estar sendo manipulada. Sempre se orgulhara de tomar suas prprias decises, mas neste momento no
tinha muita escolha. Com um giro do pulso, ele ligou o carro.
  - Tudo bem, tudo bem - gritou ela, passando pela frente da caminhonete. - Mas vamos fazer isso do meu jeito.
  Ele bufou de desgosto enquanto ela entrava na caminhonete.
  - Acho que voc j fez do seu jeito por tempo suficiente.
  - S estava pensando em Caitlyn.
  - At parece. - Engatando a primeira marcha, ele pisou no acelerador, provocando uma nuvem de poeira ao virar o volante e
seguir para a estrada. O corao de Sam batia como um tambor. Suor descia pela coluna, e pavor, sempre a sua sombra,
tomava conta de tudo dentro dela, tornando at a respirao impossvel.
  - Onde eles ficam?
  - Bittner Point Park. A doca perto de onde o Stiller Creek passa.
  - Eu lembro.
  Sam manteve a boca fechada e os olhos fixos na janela. Alamos contornavam as encostas, as folhas balanando com a mais
suave brisa. Gado e cavalos pastavam na grama desbotada e quilmetros de arame farpado separavam a estrada dos campos
que a margeavam. O cu estava claro e azul, s algumas poucas nuvens se reuniam em volta dos picos das montanhas mais
altas. Nada mudara, exceto a vida dela e a da filha que nunca mais seriam as mesmas.
  - Conte-me mais.
  Ela olhou para ele, adivinhando seus pensamentos.
  - Sobre o qu... criar Caitlyn?
  - Descobrir que estava grvida.
  - Ah. - Ela fingiu estar interessada nos campos que passavam em uma sucesso de colunas da cerca. - Bem, no foi uma
boa notcia a princpio. Eu estava assustada. Ficava pensando que tinha calculado errado ou estava apenas atrasada. Torcendo
para estar errada. Eu no sou daquelas mulheres que tm o ciclo regular, mas no segundo ms, tinha quase certeza. Comprei
um desses testes de farmcia e quando deu positivo, procurei um mdico e depois contei para minha me. - Ela esfregou as
palmas da mo no jeans. - Ela no ficou muito feliz.
  - Aposto que no.
  - Ela queria saber o nome do pai, e eu contei depois dela jurar que nunca contaria para ningum, nem para o papai, e
principalmente para Kate... e para voc.
  - Voc deveria...
  - Voc ia se casar, Kyle, ou no se lembra?
  - O casamento foi anulado em um ano.
  - Como eu poderia saber disso? E no dia que eu descobri que esperava um filho seu, minha famlia recebeu o convite para o
maldito casamento. Tudo que eu sabia era que voc se casaria com uma mulher que conhecia a vida toda e que era educada e
tinha uma boa posio social, a mulher certa para voc... alguma debutante que tinha o maldito pedigree. - Nunca conhecera
Donna Smythe, s vira a foto do casamento no jornal local. Mas a noiva de Kyle estava linda: alta, elegante, cabelos escuros e
curtos e um vestido delicado de renda com uma cauda que parecia se estender por quilmetros. Na foto, Donna sorria para o
noivo, que vestia um smoking, parecendo muito distante daquele menino com quem Sam nadara nua no riacho e fizera amor
sob o cu estrelado de Wyoming.
  Ela engoliu a antiga dor enquanto ele dirigia a caminhonete para o parque. Carros, caminhonetes, motor homes e trailers
estavam estacionados sem cuidado no asfalto empoeirado. Uma famlia estava fazendo piquenique perto do rio e crianas
mergulhavam onde algumas rvores faziam sombra sobre a gua. Sam abriu a porta para sair, mas a mo de Kyle segurou seu
brao.
  - Espere.
  - Para qu? Achei que voc quisesse acabar logo com isso.
  - E quero... Acho que  justo eu contar para voc o que aconteceu realmente, j que voc est sendo to franca comigo.
  - Isso seria um bom comeo - ela disse, o pavor se misturando com a curiosidade.
  Os lbios dele se contraram como seja estivesse arrependido de confiar nela. Os dedos da mo esquerda batiam no volante.
  - Mas que droga, Sam! A verdade  que casei com Donna para esquecer voc.

  Captulo 6

  Sam no se moveu. Tentava no dar ateno  dor profunda que sentia no canto escuro do corao, nem quela vozinha
estpida de triunfo ecoando em seu crebro quando percebeu que ele gostava dela.
  - Isso no importa.
  -  claro que importa.
  - No preciso de desculpas.
  - Droga, no estou me desculpando. - Ele praguejou baixinho e apertou o brao dela com mais fora. - Pelo menos uma vez
na vida, Sam, escute. Donna vinha me perseguindo h anos, desde o colgio, mas eu no queria compromisso... bem, voc
sabe.
  - Eu lembro.
  - Quando voltei para Minneapolis naquele ano, ela soube que algo acontecera, que eu mudara. Estavamos no Country Club,
a festa de noivado de um amigo, e ela j tinha tomado umas duas garrafas de champanhe. Ns dois bebemos muito. Eu acabei
na cama dela e esqueci de ir embora. Os pais dela nos encontraram na manh seguinte e...
  - Para salvar a honra dela, voc disse que estavam noivos. - Sam podia ler nos olhos dele.
  Ele assentiu.
  - Mais ou menos isso, sendo que o pai dela ainda achava pouco. Eu no queria ser encoleirado, mas decidi que seria o
melhor.
  Ele levantou os culos e a encarou com aqueles olhos azuis.
  - Eu at pensei que poderia esquecer voc.
  - E conseguiu.
  Ele assentiu de forma decidida.
  - , finalmente.
  Todas as suas efmeras esperanas, que surgiram de forma estpida, colidiram nas pedras frias e cruis da realidade. Ele
no a amava, nunca amara. Por que ela inocentemente esperara mais? Afinal de contas, ele era um homem rico e egosta
acostumado a fazer as coisas do seu jeito.
  - Me! - A voz de Caitlyn soou como uma melodia. Uma grande canoa levando as duas meninas e o instrutor cortou as
ondas cintilantes do rio. Caitlyn, na popa, estava acenando, seu remo fora da gua pingando.
  Sam saiu da caminhonete em um instante. Protegendo os olhos, acenou para a filha e sem esperar por Kyle foi na direo
da doca em um ritmo acelerado. Ele a alcanou em poucos passos, e em alguns segundos estavam em p no final da doca
assistindo as meninas manobrarem a canoa at a margem.
  Com o cabelo molhado e o rosto corado, Caitlyn subiu no per.
  - Voc me viu? - ela perguntou, a excitao brilhando nos olhos.
  - Vi.
  - E eu? - juntou-se Sarah, com os cachos pretos encharcados.
  - Claro. - Samantha apontou Kyle. - Sarah Wilson, este  o Sr. Fortune.
  - Ele prefere ser chamado de Kyle - disse Caitlyn.
  - Ei, meninas, vocs no se esqueceram de nada, no? - Reed Fuller, um homem grande de quarenta e cinco anos, estava
amarrando a canoa  doca. Sarah e Caitlyn voltaram para ajud-lo. Enquanto Kyle e Samantha observavam, Reed deu mais
algumas instrues para as meninas. Minutos depois, elas tiraram seus salva-vidas e colocaram nas bolsas de equipamentos
que Reed carregava no jipe.
  Uma vez terminado, as duas meninas, falando como duas matracas, se acomodaram na caminhonete entre Kyle e Samantha,
o que para ela estava timo. Quanto maior a distncia entre seu corpo e o de Kyle, melhor; mas era difcil ver a perna fina e
bronzeada de Caitlyn grudada na coxa do pai. Olhando para os dois rostos, to parecidos, Sam pensou como ningum na
cidade, nem Kate Fortune, descobrira que a menina de Samantha tinha o sangue dos Fortune nas veias.
  Como as meninas insistiram, Kyle dirigiu at a cidade para a lanchonete onde uma vez ele e Sam se encontraram. O lugar
j pertencera a vrias famlias desde ento, servira de tudo, de pizza a comida mexicana, mas agora era de novo uma
lanchonete de estilo antigo que servia hambrguer e milk-shake.
  As meninas pediram milk-shake, que vinha com muita espuma e formou um bigode colorido em cima de seus lbios. Kyle
pediu caf e Sam bebeu um refrigerante, enquanto se perguntava se antes j se sentira to desconfortvel na vida. Caitlyn
parecia no notar que Kyle a observava. Ela mal deu ateno a ele antes de entrarem de novo na caminhonete e seguirem para
a casa de Sarah, um velho chal que j fora reformado quatro vezes nos ltimos cinqenta anos e que agora tinha um corredor
central e cozinha, com trs alas separadas saindo da estrutura original.
  - Voc  parente da dona Kate? - Sarah finalmente perguntou, estudando-o com olhos srios.
  - Sou neto dela.
  - Eu a conhecia - disse Sarah, assentindo de modo que os cachos balanaram. - Minha me s vezes limpava a casa, mas
isso foi antes de ela morrer.
  Os lbios de Kyle se esticaram, os olhos grudados na estrada.
  - Eu gostava dela - acrescentou Caitlyn. - Ela me disse que um dia eu poderia montar o Curinga.
  Samantha balanou a cabea.
  - Isso foi h muito tempo, o Curinga agora pertence a outra pessoa.
  - Ele ainda est na fazenda.
  - Eu sei, mas no podemos simplesmente montar nas costas dele sem que o dono, Sr. McClure, diga que pode.
  - Grant no se importar - disse Kyle e os olhos de Caitlyn brilharam.
  Samantha percebeu que a conversa estava indo por um caminho perigoso. Ela ainda era a me de Caitlyn, a nica pessoa
responsvel por ela que a menina conhecera.
  - No tenho certeza se  uma boa idia ela montar aquele cavalo. A desobedincia e imprevisibilidade dele, e... ah, aqui  a
entrada para a casa de Sarah. - Ela apontou uma alameda.
  Os irmos de Sarah estavam no quintal. Um menino pequeno, com cabelo preto e sardas, se balanava em um pneu
pendurado no galho de uma macieira, e o irmo mais velho ria dele, trepado em um galho mais alto. Umas poucas vacas,
cavalos e at um casal de lhamas pastavam no campo em volta da propriedade.
  Mandy acenou da varanda e Sarah desceu da cabine.
  Ento, estavam sozinhos, os trs. O que poderia ter sido uma famlia. A garganta de Samantha apertou. Como eles
contariam a Caitlyn que ela tinha um pai, que a me mentira para ela e que, ao longo de todos esses anos, ela poderia ter
sabido da verdade a qualquer momento?
  Sam olhou para Kyle e lembrou de como o amara. No incio, cautelosa, mas depois se entregara a ele de corpo e alma.
  Desde ento, j se perguntara um milho de vezes como pde ter se enganado tanto sobre ele. Nunca pensara que ele seria
capaz de viver um romance to trrido e depois fugir e se casar com outra mulher antes do Natal do mesmo ano.
  Deus, por que ainda se importava? perguntava para si mesma. Ficara grvida no final de agosto, incio de setembro,
suspeitara em outubro e confirmara em novembro, e antes que pudesse pegar o telefone para ligar para Kyle a fim de contar-
lhe que seria pai, viu o convite de casamento na mesa da cozinha. Que importncia ele dava para ela?
  Quando soube que o casamento fora anulado menos de um ano depois, j era me e estava completamente ocupada com o
beb. Nessa poca, j estava determinada a cri-la sozinha. Era muito orgulhosa para contar que Kyle a engravidara e depois
fugira e se casara com outra. Todo o cl dos Fortune, incluindo Kyle, acharia que queria dar o golpe do ba. Teria de fazer
testes de paternidade, passar por batalhas judiciais e horas e mais horas conversando com advogados em busca de fama e
dinheiro.
  Naquela poca, o pai de Sam ainda trabalhava para os Fortune, tentando pagar a hipoteca da Fazenda Rawling. E Kate era
uma viva, no comando de todos os negcios que o marido deixara e tentando manter a famlia unida. No precisava da
preocupao de Sam e de um beb atrapalhando uma famlia que j estava angustiada e partida. Sam preferia ser amaldioada
a deixar seu precioso beb se tornar objeto de especulao ou insinuaes daqueles na famlia Fortune que se ressentiriam
com uma filha ilegtima de Kyle.
  O tempo passou lentamente. Kyle nunca mais visitara a fazenda e Samantha decidiu que seria melhor criar a filha sozinha.
Sentia que era capaz de transformar sua filha em uma mulher inteligente e independente, principalmente porque tinha os pais
ao seu lado.
  Anos depois, Caitlyn perguntou sobre o pai. Samantha sempre enrolava. Como nunca gostara de mentir, explicara que o
homem que a engravidara casara com outra mulher e nunca soubera que tinha uma filha. Sam nunca contara para Caitlyn o
nome do pai, mas prometera que algum dia, quando fosse maior, poderia conhecer o pai.
  Quando Caitlyn ainda era pequena, era fcil manter o segredo, mas conforme os anos passaram e Caitlyn se transformou
em uma menina curiosa e determinada, ficou difcil esconder a verdade, principalmente quando, na escola, Caitlyn ouvia
palavras como ilegtima, bastarda ou que tinha sido um erro. Fora objeto de zombaria e pena.
  O corao de Samantha se quebrara pela filha, to forte por fora e to sensvel por dentro. Vrias vezes, quase contara a
Caitlyn sobre Kyle, mas sempre acabara guardando o segredo com medo de que a filha exigisse conhec-lo e comeasse assim
uma cadeia de eventos envolvendo advogados, testes de paternidade, publicidade e possvel rejeio pela parte do homem que
deveria ter estado ao lado dela desde que nascera.
  Desde o momento em que Sam aparecera grvida, comearam as perguntas. A me de Sam, Bess, contornara habilmente as
insinuaes maliciosas, a especulao descarada, as cartas de reprovao. Ningum sabia do envolvimento de Sam com Kyle.
As poucas vezes que foram vistos juntos no eram diferentes das vezes em que ele estava com outras garotas da cidade.
  Quando perguntavam, Sam sempre dizia que a gravidez fora fruto de um caso com um rapaz local que fugiu quando soube
sobre o beb. Seu pai sempre quis saber quem era o "filho da me covarde", mas Bess insistira que isso no ajudaria em nada,
s os machucaria e que todos eles amariam Caitlyn independente de quem fosse o pai biolgico dela.
  A histria no estava to longe da verdade. Todos pensaram que Sam se envolvera com Tadd Richter, um rapaz grosso de
quem fora amiga antes dos pais dele se mudarem da cidade naquele vero. As poucas vezes que fora vista com Kyle no
chamaram a ateno de ningum j que ele se interessara por outras garotas da cidade.
  Entretanto, Sam acreditava que se Kate tivesse vivido mais, em algum momento chagaria  concluso de que Caitlyn era
uma Fortune. A semelhana com a famlia era muito forte para ser ignorada.
  At Kyle notara.
  Enquanto Kate estava viva, sempre que visitava a fazenda demonstrava um interesse especial por Caitlyn. Ah, Deus, Sam
sentia falta dela. Fora como uma av para ela, e agora, por causa de sua morte, parecia que Kate dera a Kyle a oportunidade de
encontrar a filha. Quer Sam gostasse ou no.
  - Vocs duas no gostariam de ir  minha fazenda? -convidou Kyle, a trazendo de volta ao presente. Algum ligara o rdio
e uma antiga msica de Bruce Springsteen estava perdendo uma briga para a esttica. Caitlyn parecia to  vontade na
caminhonete, como se sempre tivesse estado ali, entre os dois.
  - Acho melhor irmos para casa. - Sam abriu um pouco mais a janela, esperando que ar fresco pudesse afastar as memrias e
limpar a cabea. - Caitlyn precisa tomar banho e...
  - Posso montar Curinga? - perguntou Caitlyn com um sorriso tmido, quase recatado.
  Kyle soltou uma gargalhada.
  - Voc com certeza no perde uma chance!
  - Mas eu poderia?
  Samantha deu um tapinha nas costas da filha.
  - J disse que Curinga agora  o cavalo do Sr. McClure. Kyle franziu o cenho como se estivesse pensando.
  - Acho que no teria problema.
  - Voc est doido? - perguntou Sam, atnita. - Aquele cavalo que no deixa ningum coloc-lo em um trailer no deixar
um menininha montar em suas costas sozinha e...
  - No sou uma menininha.
  - No discuta comigo! - disse Sam rapidamente ao ver a entrada para sua alameda passar. - Espere um minuto...
  - No tem problema. Curinga pode ser cabea dura mas podemos lidar com ele. - Kyle garantiu, e Sam sentiu o rosto
queimar. Como ele ousava contrari-la?
  - Tem problema, sim. Eu disse no e  isso que vale. Como j disse mais de uma vez para Caitlyn, estamos em um barco
que s tem um capito, e esse capito sou eu.
  Ele riu de novo, as linhas de tenso do rosto se suavizando a ponto de lembr-la de como o amara, como confiara nele,
pertencera a ele. Ah, o caso dos dois fora h muito tempo e ela no cairia nessa armadilha de novo, mas houve uma poca em
que ele a seduzira completamente. Ele desceu a alameda para a Fazenda Fortune e enquanto as colunas da cerca e as rvores
passavam, Sam tentava se acalmar. Ficar nervosa s pioraria a situao. Kyle estacionou na sombra da cocheira, e Sam saiu da
caminhonete. Caitlyn passou correndo por ela, indo para o curral em que Curinga costumava ficar.
  Uma vez que a filha estava fora do alcance dos olhos, Samantha se virou para Kyle:
  - Voc no pode fazer isso, sabia? - ela disse, praticamente sem mexer os lbios.
  - Fazer o qu?
  - Tomar o comando. Ela  minha filha e eu a criei at agora sem nenhuma ajuda sua. E no preciso disso agora.
  - No? - Ele tinha um sorriso lacnico, e a vontade dela era dar um tapa naquele rosto presunoso e bonito.
  - No.
  Uma sobrancelha levantou de forma desafiadora atrs da armao dos culos escuros.
  - Voc vai ter de mudar o tom quando eu contar para ela que sou o pai verdadeiro dela.
  - Voc no faria isso.
  -  claro que faria. J est hora de ela saber.
  - Espere um pouco, ok? - insistiu Samantha, quase sem conseguir pensar. Sua cabea girava com a ameaa de uma
enxaqueca e o peito parecia ter barreiras que no deixavam o ar passar para os pulmes. Olhar para Caitlyn lhe dava vontade
de chorar. A filha subira na cerca e com a mo cheia de grama tentava atrair a fera Appaloosa para mais perto. Curinga nem
olhou. Levantou a grande cabea c bufou, as manchas no focinho parecendo mais sinistras do que cmicas neste momento.
  - Com o que voc est preocupada?
  - Com tudo! Com ela, com voc, comigo. Meu Deus, isso  to confuso. - De repente se sentia sufocada, como se sua vida
estivesse desmoronando.
  - Nada est to ruim que no possa piorar.
  - Obrigada pelas palavras de encorajamento.
  - S acho que quanto antes contarmos a verdade para Caitlyn, melhor nos sentiremos.
  - Isso levar tempo.
  - J perdi nove anos, Sam.
  - Ento agora voc est pronto para ser pai - zombou ela. - Voc, o eterno playboy! Voc sabe que para ser pai de verdade 
preciso mais do que apenas fertilizar um vulo. - Ela saiu em direo aos estbulos e  filha.  claro que teria de contar a
verdade para Caitlyn, e que teria de ser logo, mas contaria em seus termos, da sua maneira e quando achasse que estava na
hora. Kyle teria de aprender a ter um pouco mais de pacincia.
  - Vamos, Caitlyn, temos de ir embora.
  - Mas...
  - Agora! - insistiu Sam. - Podemos cortar caminho pelo campo.
  - Levo vocs - ofereceu Kyle.
  - Tudo bem.
  - Quero montar o Curinga. Voc prometeu. - Caitlyn no se mexeu de onde estava na cerca.
  - No prometi. - Sam lanou um olhar acusador para Kyle. - Outro dia, talvez, se o Sr. McClure deixar. Agora, vamos.
  - Acho que  melhor entrar na caminhonete, Caitlyn, por favor - disse Kyle. - Sua me j disse, e voc sabe como ela 
mandona quando resolve alguma coisa.
  O lbio inferior de Caitlyn cobriu o superior e ela lanou um olhar de dio para Kyle, acusando-o de ser mentiroso e traidor
e tudo o mais que uma menina de nove anos pudesse imaginar.
  - Voc no manda em mim - ela disse, levantando o queixo orgulhosamente.
  - No? - Kyle nunca fora do tipo de no responder.
  - Entre na caminhonete, Caitlyn - mandou Sam, percebendo que a conversa estava ficando feia.
  - Faa o que sua me est dizendo.
  - Ele disse que poderia montar o Curinga, mas ele mentiu! - Relutando, ela desceu da cerca.
  - No, ele s fez o que eu pedi. Vamos agora. - Sam foi atrs da filha at a cabine da caminhonete e percebeu lgrimas de
frustrao nos olhos de Caitlyn. Uma pequena gota escorreu em sua bochecha enquanto Kyle se sentava atrs do volante.
Rapidamente, Caitlyn enxugou a lgrima, mas Kyle percebeu. Fazendo uma careta, ele virou a chave. timo, Samantha
pensou prevendo o futuro. Os prximos cento e setenta e poucos dias prometiam ser o inferno.

  - Kyle voltou - disse o estranho no telefone de uma cabine em Jackson. As paredes estavam rabiscadas - palavres e
nmeros de telefone. O ar estava to quente que quase sufocava, mas a cabine era melhor do que um telefone celular. Daqui,
seria difcil rastrearem a ligao.
  - Ele planeja ficar? - A voz do outro lado parecia fraca mas determinada.
  - Diria que sim. No tem outra escolha.
  - E Samantha?
  - J o viu. E a filha tambm.
  - Bem...
  - Certo - ele disse, desejando conseguir encontrar um quarto com um bendito aparelho de ar-condicionado. -Est tudo
acertado.
  - Muito bom.
  - Agora s precisamos de um pouco de sorte.
  - Sorte? - O parceiro o repreendeu com um rudo vindo da garganta. - J deveria me conhecer o suficiente para entender que
no acredito em sorte. Nunca acreditei. As pessoas fazem suas escolhas e pronto.
  - Se voc pensa assim - disse o estranho. Afinal de contas, quem era ele para discutir com algum que provara que essa
teoria estava certa.

  Pai!
  Kyle tirou a camisa e se olhou no espelho em cima da pia ao pegar a gilete. Em pensar que tinha uma filha - uma menina
espevitada de nove anos que era to bonita quanto a me e, suspeitava, to inconstante tambm.
  Como nunca soube? Nunca suspeitou? Por que Sam no contou? Sentia-se como um canalha.
  Mas no mentira para ela. Sofrera muito da ltima vez que deixara o Wyoming. Sam o tocara no ntimo, o deixara confuso,
mais do que admitiria que qualquer outra mulher fizesse, e isso o deixou assustado demais.
  Aquele vero to distante em que ficara obcecado por ela e perdera parte de si - aquela parte associada ao orgulho
masculino - para ela. Ela no era bem o seu tipo de mulher. Muito rebelde. Muito voraz no que falava. Muito independente.
Aos dezessete anos, ela conseguia atirar melhor do que ele, laar um bezerro, vacinar o gado todo, acalmar um garanho
nervoso ou marcar um animal. E ele se apaixonara por ela. Profundamente. Mais do que qualquer homem deveria.
  No final do vero, voltou para Minneapolis, onde Donna estava esperando - pronta para la-lo e expulsar a obsesso por
Sam. Toda suave e feminina, envolta em uma nuvem de perfume e seda, Donna Smythe nunca brigou nem discordou dele. Ria
de suas piadas, fazia o que ele pedia, sorria o tempo todo e nunca o repreendia. Diferente de Sam.
  Toda a vida de Donna parecia se resumir em fazer Kyle se sentir bem, e quando ele decidiu que no poderia continuar a
farsa, que ela estava comeando a irrit-lo com tanta ateno e sorrisos, foram pegos na cama juntos. Como um bobo, fora
levado para o casamento. Para tirar Sam da cabea, casara com a mulher "certa", de sua classe, e fora infeliz. Todos na famlia
se emocionaram com ele - menos Kate.
  Ela o levou para um canto, lembrou que ele era jovem, que havia milhares de mulheres no mundo, que uma socialite bonita
no era a resposta. Mas o orgulho de Kyle e a reputao de Donna estavam em jogo. Ela era boa para ele, e ele no queria que
ela pensasse que era apenas mais uma em sua cama. Alm disso, pensou, gostava dela, no com a paixo avassaladora que
sentia por Sam, mas a amava de seu jeito.
  O casamento estava arruinado desde o comeo. Kyle no suportava ser dominado, andar com o pessoal do Country Club,
estudar  noite e trabalhar nos negcios da famlia como a esposa queria. Donna tinha certeza de que um dia ele assumiria o
imprio financeiro do pai, e ele no ligava a mnima para isso.
  Logo depois do casamento, quando as brigas comearam, e ficou claro que a ambio de Donna era muito maior do que a
dele, Kyle pensou que estaria amarrado para sempre a uma mulher que no conhecia, uma mulher que colocava um sorriso
falso nos lbios com a mesma facilidade que passava batom, uma mulher que o via no como um homem, mas como um
prmio - Olhem o que eu consegui. Um herdeiro Fortune! Ela tentara dizer a ele como se vestir, que carro dirigir, onde morar,
como assegurar a sua parte da herana - uma parte da empresa. Donna o prevenira para ficar de olho nos irmos e primos para
certificar-se de que no estavam paparicando Kate para conseguir uma herana maior.
  Isso o enojara. Ela falava sobre ter filhos e mand-los para as melhores escolas do pas. Ela o levava para assistir bal,
sinfonias e a festas enfadonhas no Country Club.
  Em quatro meses, Kyle no agentava mais. As discusses viraram brigas acaloradas, e a um dia dcil Donna se
transformou em um drago soltando fogo, determinada a mold-lo da maneira que ela achava melhor. Quando Kyle se
recusou, ela ficou aflita. Lembrou que recusara vrios pretendentes de boas famlias para se casar com ele. Disse o quanto
estava decepcionada. Que ele voltara diferente do Wyoming e que ela no sabia o que acontecera. O que quer que fosse no
era bom.
  Kyle discordou silenciosamente.
  Eles brigaram, ela chorou, ele consolou. Fizeram amor da mesma maneira de antes, sem paixo, at que ele comeou a
dormir no quarto de hspedes. Tudo veio  tona em uma noite em que ele se recusou a ir a um jantar beneficente. Passara o
dia com o pai na empresa, negociando com advogados, contadores e acionistas.
  Naquela noite, mais uma vez sozinho no quarto de hspedes, olhou para as luzes de Minneapolis, mas pensou no Wyoming,
onde os morros eram negros e o cu cintilava com um milho de estrelas. Lembrou de como fazia amor com Sam sob a plida
luz da lua e se perguntou por que no conseguia imaginar sua prpria esposa sentindo desejo.
  - Voc  repugnante - disse a si mesmo - e provavelmente apodrecer no inferno.
  Na manh seguinte, encontrou Donna na cozinha, a maquiagem no conseguindo disfarar os olhos vermelhos, um cigarro
queimando entre os dedos. Ainda no se vestira, e o robe rosa abriu quando ela sentou-se na mesa da cozinha perto da porta,
onde neve havia coberto o deck.
  - Acabou - ela disse, mordendo os lbios.
  - O qu?
  - No seja estpido, querido, no combina. Estou falando sobre ns, eu e voc, e este maldito casamento que voc nunca
quis.
  Ele no podia mentir, e ela se debulhou em lgrimas, mas quando ele tentou consol-la, envolv-la em seus braos, ela o
mandou embora. J tinha ligado para um advogado, perguntado sobre anulao em vez de divrcio, e os papis j estavam
correndo.
  - Voc ser livre de novo - ela disse, finalmente dando um longo trago no cigarro e soltando fumaa para cima.
  -  o que voc quer.
  - Acho que deveramos conversar.
  - Por qu? No vai fazer diferena. Voc no me ama. Nunca me amou e no vero... bem, achei que voc tivesse mudado.
Parecia diferente quando voltou do Wyoming, mais vivo, mais interessado. - Ela estreitou os olhos pensando por um segundo,
depois deu de ombros. - Ah, no importa mais. Achei que podia fazer com que me amasse, mas no posso. - A garganta ficou
seca, a voz falhou e ela piscou com fora enquanto esmagava o cigarro.
  - Sinto muito.
  - No sinta. - Fungando alto, pegou um leno no bolso. - Sabia que voc no era do tipo romntico, sossegado, ento 
melhor terminar assim. S quero meu orgulho. Quero poder dizer que fui eu que quis pular fora.
  Kyle concordou, se mudou naquela noite, encontrou um apartamento mobiliado e passou por todas as moes para terminar
com um casamento que nunca comeara realmente. Sua irm tentara convenc-lo a no fazer isso. Jane, sempre romntica,
achou que ele estava agindo como um pirralho mimado, que no tentara o suficiente. O irmo mais velho, Michael, o
repreendeu por no ser responsvel, mas disse que nunca achara que Kyle e Donna fossem uma boa combinao - Kyle era
inquieto demais. Felizmente, Kristina era muito jovem para se interessar pela vida de outra pessoa que no a dela mesma.
  Kyle pensara que levaria uma bronca do pai, mas Nathaniel Fortune sofrera com um casamento ruim com a me de Kyle, e
guardou sua opinio para si mesmo.
  Quando os laos legais foram desfeitos, Kyle renunciou ao casamento para sempre. Mas naquela poca ele no sabia que
era pai.
  Pai! Sem ao menos ser marido. Jogou gua no rosto e enxugou. Nunca imaginara que teria uma filha ou que veria Samantha
Rawlings de novo. Mas agora, graas a maldita herana, gostando ou no, estava cara a cara com essa mulher to teimosa.
  O problema era que o cabelo louro avermelhado, os olhos verdes e as sardas plidas ainda mexiam com ele como antes,
talvez at mais. No era mais uma menina, e sim uma mulher adulta, independente, dona de uma fazenda e me de uma filha
que era dele tambm. To selvagem quanto uma plancie aberta e to firme quanto as montanhas do oeste, Samantha Rawlings
era mais mulher do que Kyle estava disposto a lidar.
  Mas no tinha escolha.


  Captulo 7

  - Al? - Samantha atendeu o telefone enquanto Caitlyn devorava um pedao de torta. Sem resposta.
  - Al? - O corao de Sam batia um pouco mais forte enquanto esperava. Mais uma vez, sem resposta. - Tem algum a?
  Clique.
  Quem quer que fosse, desligou. Os dedos de Sam congelaram. Certamente, uma pessoa que tivesse discado errado se
identificaria. Ento, isso era um trote. Quem seria?
  - Ningum respondeu? - perguntou Caitlyn, a boca lambuzada com calda vermelha.
  - Deve ter sido engano.
  - J aconteceu antes.
  - Aconteceu? Quando? Caitlyn deu de ombros.
  - No sei. Uns dias atrs.
  Isso tudo estava ficando um pouco assustador.
  - E sobre aquela sensao de que voc estava sendo observada?
  Caitlyn encheu a boca com outra garfada de torta e balanou a cabea.
  - Isso j no acontece h um tempo. Silenciosamente, Sam soltou um suspiro de alvio.
  Talvez a sensao de Caitlyn de que estava sendo observada no fosse nada - apenas o produto da imaginao frtil de uma
menina. Alm disso, Sam tinha problemas mais urgentes para resolver. Sam tinha de explicar para Caitlyn que o novo vizinho
e herdeiro da Fazenda Fortune era seu pai. Ela estava esperando h dois dias o momento certo, s para perceber que ele nunca
existiria. Mas Kyle no esperaria para sempre. Deixara isso bem claro.
  Ainda inquieta, Sam levou o prato da filha para a pia. Era agora ou nunca. Faria Caitlyn desligar a televiso, aninhar-se
com ela no sof e contaria que Kyle Fortune era seu pai.
  Lavou o prato, enxugou as mos em um pano de prato e escutou o barulho de um motor. Seu corao parou quando
reconheceu a caminhonete de Kyle na estrada.
  - timo... - murmurou para si mesma.
  Fang latiu e Kyle subiu os degraus da varanda de trs. Sam o encontrou na porta.
  - E ento? - ele perguntou, sem se importar em sorrir.
  - Ainda no contei para ela.
  - Meu Deus! - Ele olhou para dentro, segurou o brao dela e a puxou at a varanda. - Por que no?
  - Ainda no tive uma boa oportunidade. Os olhos dele eram apenas um risco.
  - Assim como no teve uma oportunidade em nove anos!
  - Kyle, por favor, entenda...
  - O que eu entendo  que Caitlyn  sangue do meu sangue. Agora, a menos que voc esteja mentindo, eu tenho uma filha
que no conheo realmente, no como pai e filha. - Desabafava toda sua clera. - Tenho o direito de estar com a minha filha,
Sam, um direito legal de conhec-la melhor, de fazer planos com ela, de ela saber que eu existo.
  - Planos? Que tipo de planos?
  - Primeiro, o que  mais importante. - Ele a soltou e entrou na cozinha.
  - Ah, Deus! - A cabea de Sam estava latejando. Ele no podia, no faria... Estava atrs dele, mas j era tarde demais. J
entrara na sala onde Caitlyn estava deitada no cho assistindo televiso e vendo uma revista sobre cavalos.
  - Acho que precisamos conversar - ele disse, deixando Samantha congelada na passagem em arco para a sala.
  Caitlyn olhou para ele.
  - Sobre o qu?
  - Sobre seu pai. - Ele passou por ela e ficou parado perto da lareira, alto, imprevisvel, parecendo uma miragem.
  Sam mordeu a lngua.
  Toda ouvidos, Caitlyn subiu no sof e lanou um olhar de triunfo para a me. At que em fim, dizia em silncio, algum
contaria a verdade para ela.
  - Voc o conhece? - ela perguntou a Kyle.
  - Muito bem.
  - Espere, acho que eu devo fazer isso. - Revestindo-se de coragem, Sam entrou na sala e se sentou na beirada do sof. O
corao disparado, as mos molhadas de suor.
  - Eu... j deveria ter contado h muito tempo. - De alguma forma, as palavras estavam saindo firmes, apesar de estar
tremendo por dentro. Caitlyn a encarava com olhos arregalados, e o corao de Sam batia cada vez mais forte. - O seu pai  o
Sr. Fortune.
  - O qu? Ele? - Caitlyn virou a cabea para encarar o homem encostado na lareira. - Voc?
  - . - Apesar de estar morrendo por dentro, Sam sentiu como se tivesse tirado um enorme peso dos ombros. A garganta
estava seca, e lgrimas brotavam em seus olhos. - Sr. Fortune... Kyle... e eu nos conhecemos h muito tempo.
  - Mas ele mora longe daqui...
  - Passei um vero aqui na fazenda - explicou ele. - Conheci sua me e passamos muito tempo juntos. Gostvamos muito um
do outro e ficamos muito prximos. - Ele se abaixou at que seus olhos ficassem na altura dos dela. - Tive de ir embora antes
que sua me pudesse me contar que voc estava a caminho. As coisas se complicaram e eu e sua me perdemos contato.
  As sobrancelhas de Caitlyn se franziram:
  - Ento vocs se amavam, mas no se casaram.
  - Isso - disse Kyle sem piscar.
  - No foi bem assim. Ns achamos que nos amvamos, querida, mas ramos muito jovens para saber o que era amor.
  Caitlyn cruzou os braos e lanou um olhar de raiva para Sam.
  - Voc sabia o nome dele.
  - Sabia, mas como ele disse, ele no sabia sobre voc.
  - Por que no?
  - No  to fcil.
  - Voc poderia ter contado para a dona Kate. Aposto que ela o teria encontrado...
  -  verdade, mas eu era jovem e estava confusa. Pensei... esperava estar fazendo o melhor para voc.
  - Ou para voc? - Caitlyn perguntou, as sobrancelhas franzidas juntas. Kyle limpou a garganta.
  - No  culpa de sua me. Eu me casei com outra pessoa. - Ele a encarou e sorriu. - Acho que eu era muito prepotente e
cometi muitos erros. Agora  hora de consertar o que eu puder.
  - O que isso significa? - perguntou Sam, quase sem conseguir respirar.
  - Que eu preciso tomar algumas atitudes, atitudes legais, para assumir minhas responsabilidades sobre Caitlyn.
  Rapidamente, ela estava perdendo o controle da situao.
  - Voc no precisa fazer nada desse tipo.
  - Eu quero.
  - No entendi - disse Caitlyn, mordendo os lbios nervosamente. - Alguma coisa vai mudar? Vou continuar morando aqui?
  - Claro que vai - Sam a abraou. - Ns somos uma famlia.
  - E ele? - ela perguntou, apontando para o recm-descoberto pai.
  - Vamos fazer uma coisa de cada vez. E nada vai mudar. Pode acreditar em mim.
  Ele colocou nos lbios um de seus sorrisos.
  - A nica coisa que vai mudar  que voc e eu vamos nos ver bastante, nos conhecer melhor e recuperar o tempo perdido.
  - E a mame?
  - Ela pode vir junto, eu acho, se quiser.
  - Ns seremos uma famlia?
  - Claro que somos uma famlia.
  - Vamos morar juntos?
  - No, meu amor - Sam beijou a cabea de Caitlyn e lutou com as lgrimas quando percebeu o quanto a filha esperara e
sonhara ser como as outras crianas, aquelas cujos pais eram casados e viviam juntos.
  - Por que no?
  - Porque eu e seu pai no somos casados.
  - Vocs no podem se casar?
  - No, meu amor. Isso  impossvel.
  - Por qu?
  - Porque eu e o Sr. Fortune... Kyle no nos amamos mais.
  - Voc me disse que o amor dura para sempre.
  - O amor verdadeiro, Caitlyn - disse Sam, consciente do peso do olhar de Kyle sobre ela. - O amor verdadeiro dura para
sempre, mas  muito difcil de encontrar.
  Caitlyn balanou a cabea.
  - No,  s procurar melhor.
  - Talvez ela esteja certa - disse Kyle. - Talvez no tenhamos procurado bem.
  Sam engoliu e colocou as mos nervosamente nos bolsos.
  - Foi h muito tempo.
  - Eu sei, mas...
  - No deu certo. Final da histria. - A voz dela era firme, no deixando chances para discusso. - Acho que por hoje j 
suficiente, no?
  Ele olhou para o relgio e franziu o cenho.
  - Parece a sua me de novo. - Deu um tapinha no joelho de Caitlyn. - Tenho de correr pois estou esperando uma ligao.
Mas vou voltar e comearemos a nos conhecer melhor, ok?
  Caitlyn concordou, de olhos arregalados.
  - Voc quer saber mais alguma coisa? - Kyle perguntou.
  - Posso montar o Curinga?
  - Pelo amor de Deus! - Sam chamou a ateno da filha e suspirou. - J disse que isso no  possvel...
  Kyle riu.
  - Como disse antes, Caitlyn, voc  mesmo tinhosa.
  - Amm - concordou Sam. Endireitando-se, Kyle prometeu:
  - Vou falar com Grant. E veremos o que sua me vai dizer. Boa noite. - Kyle saiu da sala, passou pela cozinha e fechou a
porta. Sam lentamente soltou o ar quando ouviu o barulho da caminhonete dele se distanciar.
  Caitlyn se enroscou em seus braos.
  - Por que no me contou?
  - Porque achei que era o melhor - respondeu Sam, balanando a cabea e abraando a filha com fora. -  claro que eu
estava errada.

  - Estou te dizendo, Kyle, alguma coisa no est certa. - A voz de Rebecca batia em seus ouvidos, mas ele no conseguia
lidar com suas teorias rebuscadas e mal acabadas sobre a morte da av. No quando estava tendo sua prpria crise pessoal.
  - Mame era uma excelente piloto - continuou Rebecca.
  - Mas o avio teve um problema.
  - Por qu? Ele sempre passava por uma reviso entre os vos. Conversei com o mecnico e ele me jurou que o avio estava
como novo quando ela decolou.
  - Mas era um avio, Rebecca. Acidentes s vezes acontecem.
  - No sem uma razo.
  Ele quase conseguia ouvir as rodas girando na cabea da tia. Ela no era muito centrada, em sua opinio, uma escritora de
mistrio que s vezes parecia ter problemas em separar o real e a fico.
  Passou a lngua nos dentes. A garganta estava seca, os msculos doam depois de horas colocando colunas na cerca, e no
tinha tempo para as alucinaes de Rebecca.
  - Ento, voc est falando que o avio no aterrissou?
  - No sei o que estou dizendo, ainda no, exceto que tem alguma coisa suspeita. Mame era muito cuidadosa para sofrer um
acidente como esse.
  - Cuidadosa? Kate? Estamos falando da mesma pessoa? Ela procurava um desafio como um peixe procura a gua.
  - Mas no era imprudente - insistiu Rebecca. - Olha, contratei um detetive particular para investigar o acidente.
  - , j me falaram. Mas, Rebecca, por qu? Isso no trara Kate de volta.
  -  apenas algo que preciso fazer, ok? Achei que tinha de avisar a famlia toda.
  - No posso acreditar nisso.
  - Acredite, Kyle, e confie em mim. Tem alguma coisa podre nessa floresta no Brasil e pretendo descobrir o que .
  Droga. No tinha muito tempo para o mais recente mistrio de Rebecca, mesmo sendo sobre Kate. No agora que os seus
prprios problemas eram mais do que conseguia resolver, e o menor deles era administrar esta fazenda.
  Agora que sabia que Caitlyn era sua filha, o que faria a respeito dela?  claro que tinha de conhec-la melhor, apesar de ter
a sensao de que a menina o conquistaria rpido. Mas e depois, quando vendesse esse pedao de terra e voltasse para
Minneapolis ou qualquer outra coisa? E ento?
  Ou poderia ficar? Por que no? Mais de mil motivos vieram a cabea mas mandou-os embora. Sempre amara o Wyoming e
ali se sentia em casa mais do que em qualquer outro lugar.

  - Voc me disse que  errado mentir! - exclamou Caitlyn enquanto regava o jardim junto com a me.
  - E ! Mas eu era jovem... Ah, Caitlyn - ela disse olhando para os fiapos de nuvens que flutuavam no cu de vero. -
Cometi um erro. O que posso dizer? Sinto muito.
  - Sente mesmo?
  - Sinto! Por que no acredita em mim?
  - Por que voc  uma mentirosa. - Caitlyn largou a mangueira e cruzou os braos. - Se voc tivesse me contado sobre ele,
eu poderia ter contado para as outras crianas e no ser chamada daqueles nomes horrveis.
  - J disse que sinto muito.
  Caitlyn levantou o queixo de forma desafiadora.
  - Vou passar os fins de semana com ele que nem a Nora Petrelli faz com o pai dela?
  - No! Honestamente, no sei como vo ser as coisas. - Sam esticou a mangueira. - Teremos de ver.
  - Vou ligar para Tommy e Sarah e...
  - Ainda no, meu amor, ok? No at contarmos para a famlia. Iremos  casa da vov hoje e deixaremos Kyle contar para
os irmos dele. - No conseguia imaginar o que o restante do cl dos Fortune pensaria.
  - Eu tenho primos? - Caitlyn pegou a mangueira de novo e jogou gua em alguns ps de tomate murchos.
  - Provavelmente uns mil.
  - Uau! - Um sorriso se abriu no rosto de Caitlyn quando percebeu que era parte de uma famlia muito maior. -Quando vou
conhec-los?
  - Assim que Kyle contar para todo mundo. - No fundo do corao, Sam sentiu um aperto quando percebeu que deste dia em
diante nunca mais poderia tomar uma deciso sobre o futuro da filha sem o consentimento de Kyle.

  O sol descia no horizonte quando Kyle limpou as mos de graxa. Depois de colocar colunas durante a manh, passara a
tarde fazendo seu prprio inventrio: examinando as mquinas e prdios, calculando o que precisaria ser vendido e o que
poderia ser consertado, estimando quanto precisaria investir neste lugar para mant-lo funcionando por seis meses, antes de
poder vend-lo por um bom preo.
  Como se algum fosse compr-lo no inverno. Kate estipulara que ele deveria morar aqui por seis meses antes de vender,
mas, na realidade, ficaria preso aqui por quase um ano, ento era melhor cuidar do lugar.
  Na semana anterior, encontrara trs pessoas que moravam nas proximidades e j haviam prestado servios para a fazenda.
Randy Herdstrom, um homem grande e robusto com duas crianas e uma pequena fazenda prpria, sabia lidar com o gado,
cuidar dos equipamentos e negociar com os compradores. Os outros dois, Carson e Russ, eram jovens e ainda verdes, o tipo de
rapazes musculosos que poderiam trabalhar o dia todo, capinando, castrando e marcando, e depois, no final do dia, gastariam
todo o salrio em cerveja, apostas e mulheres na Taverna Lone Elder nos arredores da cidade. No que fosse da conta de Kyle
o que eles faziam nas horas de folga. S se importava com o desempenho deles no trabalho.
  Ainda tentando tirar a graxa dos dedos, encostou na cerca e olhou para uma parte do rebanho: gado corpulento, com pernas
curtas e de vrias cores. A maioria dos animais tinha as caractersticas da raa Hereford, focinhos brancos e malhados. Mas
plos pretos ou escuros se misturavam com o couro vermelho do gado, o que mostrava que a fazenda, ao longo dos anos,
tivera touros de outras raas. Pastando pelos campos no crepsculo, o gado parecia satisfeito.
  Sempre fora to inquieto, mas no podia negar a verdade. S encontrara tranqilidade naqueles dias de vero, nesses
campos vastos e selvagens, montando, laando, cuidando dos animais ou fazendo amor com Sam. Sempre Sam. A me de sua
filha.
  Por que no aparecera hoje? Esperara que ela aparecesse para trabalhar com Curinga. Prestara ateno para ouvir o barulho
da caminhonete dela, ou para ver Sam ou Caitlyn e, um pouco antes do pr-do-sol, disse a si mesmo que deveria ir  casa dela.
Agora que sabia que Caitlyn era sua filha, no poderia se manter afastado. A obsesso que tinha por Sam j era ruim o
suficiente, mas agora tinha uma criana envolvida.
  Olhou para a paisagem j escura, as sombras das montanhas crescendo bem acima dos campos secos. Ser que conseguiria
morar aqui? Com Sam? Um sorriso tocou o canto de seus lbios ao pensar em dormir na cama de Sam, fazer amor
apaixonadamente com ela e t-la nos braos ao acordar.
  To rpido quanto apareceu, essa idia desapareceu. Sam merecia mais do que um casamento de convenincia. Ela
desejava um amor verdadeiro e precisava disso, e Kyle sabia que era incapaz de amar daquele jeito narrado nos contos de
fadas. Casamento estava fora de questo. Ele sabia disso, Sam sabia e Caitlyn acabaria entendendo.
  Viu a caminhonete de Grant descer a alameda e estacionar perto de sua caminhonete. Grant saltou coberto de poeira da
cabea aos ps.
  - Tentei ligar, mas voc no atendeu.
  - Estive fora. O que aconteceu?
  - Uma longa histria envolvendo o touro fujo do meu vizinho, minha cerca e minha caminhonete... No foi um bom dia.
  Kyle riu.
  - Vamos entrar e tomar algo.
  - Parece timo.
  Entraram pela varanda dos fundos.
  Sentou-se em uma cadeira na cozinha enquanto Kyle procurava uma garrafa. Serviu dois copos e entregou um a Grant.
  - Administrar uma fazenda pode ser o melhor e o pior trabalho do planeta. - Grant encostou a borda de seu copo na de Kyle
e tomou um gole virando a cabea para trs.
  Kyle puxou uma cadeira.
  - No sei do melhor, mas posso falar do pior.
  - Tem alguma cozinheira escondida por a? - brincou Grant.
  - No, pensei em irmos at a cidade e encontrar algum lugar que sirva um fil enorme.
  - T pagando?
  - Claro, agora que sou fazendeiro, estou rico. Terminaram a bebida, lavaram os rostos e mos e foram para a cidade. No
caminho, Kyle decidiu desabafar, e enquanto o meio-irmo escutava, explicou sobre o relacionamento que teve com Sam e
sobre Caitlyn.
  - Srio?! - disse Grant. Cocando a barba, continuou: - Nunca poderia imaginar. Todo mundo na cidade achava que a menina
era de Tadd Ritcher e que Caitlyn parece com a me, mas agora que voc contou...
  Pararam a caminhonete em um estacionamento perto de um restaurante que ficava na beira da estrada principal.
  - Ento, o que voc vai fazer agora?
  - Tenho medo de que qualquer coisa que faa seja contra a vontade de Sam.
  - No importa o que voc quer, Kyle, tem de pensar em Sam e Caitlyn primeiro. Ficaram bem sem voc por nove ou dez
anos. No pode simplesmente invadir a vida delas como um caminho desgovernado.
  - Grant, ela  minha filha. Tenho o direito de reivindicar.
  - , contanto que no a machuque no processo. Use a cabea pelo menos uma vez e guarde isso para si mesmo at que Sam
e Caitlyn se acostumem com a sua presena.
  - Ento agora voc virou conselheiro sentimental?
  - Eu apenas me importo.
  - Com quem voc se preocupa tanto? Comigo ou com Sam?
  - Nem com um nem com outro. Vocs so adultos. Quem me preocupa  Caitlyn. No  muito difcil partir o coraozinho
dela.
  - Eu no faria isso... Ah! Ela pode montar Curinga? Tem insistido nisso desde que a conheci.
  - Se Sam deixar e algum estiver com ela... Aquele garanho tem um temperamento selvagem.
  - Estarei l.

  Captulo 8

  - Voc ainda o ama?
  A pergunta de Caitlyn ecoou no banheiro enquanto Samantha lhe penteava o cabelo.
  - Se eu o amo? No  uma pergunta fcil.
  - Ah! E o que  fcil nisso tudo?
  - O amor  complicado. So muitas emoes envolvidas...
  - Voc me ama.
  - Claro.
  - E sempre me amou.
  - Eu sei, mas...
  - Ento por que o Sr. Fortune... Kyle... Como devo cham-lo?
  - Ah, Deus, Caitlyn! No sei...
  - Papai parece estranho.
  - Por que no deixa ele decidir? Depois, se voc no se sentir confortvel com a vontade dele, sugira outra coisa. Ele  uma
pessoa razovel...
  - Voc se casaria com ele se ele pedisse?
  - O qu? - Sam engoliu seco.
  - Eu perguntei se...
  - Eu sei, escutei da primeira vez. S no consegui acreditar que estava me perguntando isso.
  - Mas voc se casaria'? - Caitlyn insistiu. Gentilmente, Sam segurou nos ombros da filha.
  - Acho que no, meu amor. O que ns tivemos, eu e seu pai... foi h muito tempo e as coisas mudam. - Sentiu a frustrao
aparecer nos olhos da filha, mas no podia mentir.
  - Isso no quer dizer que as coisas no possam voltar a ser como eram - Caitlyn retrucou, os olhos brilhando de novo.
  Samantha pendurou uma toalha mida na barra atrs da porta e levou as encharcadas para a lavanderia, que ficava do lado
de fora. Olhou para a Fazenda Fortune e suspirou. Kyle no aparecera durante todo o dia, e deliberadamente, ela tambm no
fora l.
  Ambos precisavam de tempo para se acostumarem com a idia de serem os pais de Caitlyn. Uma dor peculiar cortou seu
corao: apesar de saber que era certo deixar Kyle fazer parte da vida da filha, ela se ressentia com a intromisso. Onde ele
estivera durante os nove longos meses da gravidez, em que olhares curiosos a condenavam? Onde ele estava durante as vinte
horas de parto, quando os mdicos tentavam decidir se ela precisava de uma cesariana e ela tinha certeza de que morreria?
Alguma vez ele a confortara? Abraara-a quando, assustada com a responsabilidade de criar uma criana, chorara no
travesseiro  noite?
  - Meu Deus, Rawlings, agora voc est parecendo pattica e com pena de si mesma, o tipo de mulher que voc odeia - disse
a si mesma ao subir as escadas. Colocou Caitlyn na cama, deixou a luz do corredor acesa e desceu de novo.
  Kyle estava esperando por ela, sentado relaxadamente em uma cadeira da sala. Ele a estudou com olhos impenetrveis.
  O corao dela quase parou, e tudo que conseguiu fazer ao v-lo foi sentar-se tambm, como se ele pertencesse a essa
pequena famlia, como se realmente fizesse parte dela.
  - Voc me assustou... Como voc entrou?
  - A porta dos fundos no estava trancada.
  - Nunca tranco antes de ir para cama. Mas deveria ter escutado sua caminhonete... - Olhou pela janela, onde a luz azul de
segurana formava estranhas sombras sobre o quintal.
  - Vim andando. Precisava de tempo para colocar minha cabea no lugar.
  - E Fang no latiu? - Olhou para o cachorro, que, deitado perto da porta dos fundos, tivera o bom senso de ficar
envergonhado. - Que tipo de co de guarda  voc?
  Com a cabea descansando entre as patas, Fang sacudiu a cauda.
  - Estou surpresa de voc no ter subido para me ver colocar Caitlyn para dormir.
  - Eu quis. Mas achei melhor conversar com voc sozinho.
  Uma pontada de desespero cortou o corao dela.
  - Por qu?
  - Temos muito o que conversar.
  - Agora?
  - .
  - Tudo bem, mas tome uma xcara de caf enquanto termino algumas coisas. Volto em quinze minutos.
  - Vou com voc.
  - Como quiser.
  Sob um cu coberto de estrelas, vieram pelo caminho de cascalho at que o silncio foi interrompido pelo berro de um
bezerro que estava preso na cerca.
  - Voc vai ficar bem... - Sam tentava acalmar o bezerro. Uma de suas patas dianteiras estava bastante machucada e Sam
decidiu lev-lo para dentro da cocheira at que o ferimento melhorasse um pouco. Agora ele berrava ainda mais alto, capaz de
acordar um morto na cidade vizinha.
  - Ele no est feliz aqui... - Kyle olhava o couro do bezerro manchado de azul de metileno.
  - No gosta de ficar preso... - Sam concordou e se curvou para abrir um fardo de feno.
  - No o culpo. - Kyle pegou o forcado antes de Sam e jogou o feno no cocho do bezerro.
  - Est falando de voc, agora? - perguntou Sam, tentando parecer indiferente, mas seu corao pulava. Compromisso no
era uma palavra presente no vocabulrio de Kyle Fortune. Com mos repentinamente suadas, pegou um balde e foi andando
at a torneira.
  - Voc no foi trabalhar com Curinga hoje.
  Sabia que ele notaria sua ausncia, esperava que perguntasse, mas no gostava de se explicar. Abriu a torneira e a gua
gelada comeou a cair no fundo do balde.
  - Precisava de tempo para pensar.
  - Foi o que imaginei.
  Quando o balde encheu, fechou a torneira e voltou para a cocheira. Kyle estava encostado na parede perto do forcado.
  - O que decidiu?
  - Nenhuma deciso. Realmente no sei o que fazer. -Ela encheu uma vasilha pequena com gua do balde. Se ele pelo
menos parasse de encar-la com aqueles olhos hipnotizantes. Saindo da cocheira, ela trancou o porto. Estava pendurando o
balde em um prego perto da janela quando os dedos de Kyle cobriram os seus, envolvendo seu pulso enquanto ela segurava a
ala.
  Com a outra mo, ele empurrou o forcado para um fardo de feno.
  - Certo, dei a sua chance. Agora  a minha vez. - Sentiu o hlito dele em sua nuca. Virou-se e ficou cara a cara com ele. O
corao dela batia com fora e, sem querer, seu olhar passou para os lbios dele.
  - Pensei muito e decidi que o destino est me dando um presente. Amaldioei minha av por me obrigar a morar nesta
fazenda por seis meses como parte da herana, mas agora acho que foi uma bno. Tenho tempo para conhecer minha filha
e... - a boca dele se apertou nos cantos - conhecer voc de novo.
  -  Voc j me conhece, Kyle, e no me quis. - No pde evitar a amargura nas palavras. Tentou soltar a mo mas ele
segurou com mais fora.
  - Voc sabe, fui imaturo e insensato... - Ele chegou ainda mais perto, o que fez com que o corao dela acelerasse.
  - E burro? - ela disse, o pulso batendo cada vez mais rpido.
  - Talvez.
  - No tenho dvidas sobre isso... - Ela disse, quase sem flego. - Cometemos muitos erros... Foi s isso que aconteceu.
  - Voc no se arrepende do que aconteceu entre ns? - ele perguntou, os olhos fixos nos dela.
  - No. - O corao dela agora martelava, o sangue corria. O ar na cocheira de repente parecia quente e escasso. - Tenho
Caitlyn. Nunca me arrependerei de ter... estado com voc. - Ela engoliu. - Por causa dela.
  - Essa  a nica razo? - Com uma das mos, ele a tocou nos ombros, e ela se assustou, quase saindo do prprio corpo.
  - Se voc espera que eu diga que fico contente por termos tido um caso, que o sofrimento e a dor de sua partida e de seu
casamento com outra  uma das minhas melhores lembranas, ento est errado. No posso dizer que no fico feliz por ter
conhecido voc, por ter transado com voc, mas s por causa de Caitlyn. Sem voc, no a teria agora. Fora isso, acho que
nosso relacionamento foi um grande erro.
  - No foi to ruim. Foi?
  - Foi o inferno.
  Ela empurrou o brao dele e o balde caiu.
  - Kyle, me deixe em paz. No  s porque voc descobriu que  pai da minha filha que alguma coisa mudou entre ns. J
disse...
  - Eu sei o que voc disse e, como j falei antes, voc  uma mentirosa, Samantha. - Ele se inclinou para a frente, o olhar
preso no dela, os braos a envolvendo apesar da resistncia dela.
  - No, Kyle. Se voc tem um pingo de decncia...
  - No tenho. Ns dois sabemos disso. - Os lbios dele cobriram os dela com fora, impacientes e exigentes. Kyle, no faa
isso comigo, no quando tentei esquecer voc por dez anos!
  Com um leve gemido, ela se entregou ao beijo, abrindo a boca ao pedido da lngua dele, que explorava mais fundo, tocava
a dela, e juntas moviam-se rapidamente, acariciando-se, unindo-se, at que o mundo parecesse voar e ela tremesse por dentro
querendo mais... muito mais.
  Mas no podia. Era um fogo perigoso que corria por suas veias.
  - Sam, Sam, Sam - murmurava ele. - Por que voc faz isso comigo?
  - Eu? Fao isso com voc? Ah, Kyle...
  Ele a beijou de novo, e todos os protestos foram levados pelo vento quente de Wyoming. To naturalmen como se tivessem
sido amantes pelos ltimos dez anos, ela enroscou os braos no pescoo dele, ignorando os avisos que soavam em sua cabea,
escutando no a cabea mas corpo, e o fogo, h tanto adormecido, reacendeu.
  - Kyle... - O protesto mais parecia um apelo.
  Ele a levou para fora, onde o ar estava leve e a brisa balanava os galhos da macieira perto da porta dos fundos. Uma meia-
lua subia no cu em que milhes de estreIas brilhavam, mas Sam mal as notou quando Kyle a beijou e a levou para a sombra
mais distante da casa, onde a grama estava seca, o ar perfumado com a essncia das rosas;
  Com lbios fervorosos, ele a cobriu de beijos, tocando suas plpebras, bochechas, queixo e pescoo.
  - Voc se lembra? - ele perguntou, a respirao quente perto do ouvido dela.
  - Ah, lembro, lembro... - Ela tremia enquanto ele a abraava.
  Ele contornou as curvas da orelha com a lngua, e as costas dela se arqueavam como o trigo ao vento.
  - Minha doce Samantha. Minha menina...
  Todas as velhas mentiras vieram a sua cabea. Pare, Sam! Use a cabea! Ficar com Kyle Fortune  perigoso. Faa-o parar
antes que seja tarde demais! Mas no conseguia. Ele desabotoou o primeiro boto da blusa dela e deu um beijo molhado e
quente abaixo do pescoo. O desejo se espalhava pelo sangue e ela gemia antecipadamente a cada boto que ele desabotoava,
permitindo que o tecido se separasse lentamente, expondo a pele clara acima da linha do suti.
  A lngua dele deslizou pelo pedao de tecido rendado, e os mamilos se enrijeceram, pressionando o suave algodo at que a
boca os encontrasse e os beijasse atravs da renda.
  Ela arqueou e ele a abraou ainda mais forte, e a beijou enquanto abaixava o suti, deixando os seios dela  mostra. Calor e
desejo corriam pelas veias de Samantha, latejando nas partes mais ntimas.
  - Voc  ainda mais bonita do que eu me lembrava -ele disse, a voz baixa e rouca.
  Ela esperava, esperava mais, o corpo ansiava pelo toque dele, pela lngua, mas ele s olhava para o seu corpo, banhado pela
luz da lua.
  - Kyle... Por favor...
  Ah, no, no estava implorando para ele, estava? Mas a paixo gritava por seu corpo: estava trmula quando ele se sentou e
a abraou, trazendo o corpo dela para seus lbios. Ele sugava os seios dela como se sua vida dependesse disso, as mos
espalmadas nas costas dela, to perto um do outro que ela sentia a ereo dele contra sua coxa, apesar de ainda estarem
vestidos.
  Isso era loucura. Perigo. Exploso. Mas ela no conseguia parar. Nunca deixara outro homem toc-la, no desde Kyle, e
depois de dez anos de rejeio, no conseguia segurar a onda de desejo que a inundava.
  Ela abriu a camisa dele, acariciou os plos do peito e sentiu o abdmen dele se contrair em resposta. Ele ficou sem flego
quando ela arrancou a camisa do cs da cala.
  - Sam, Sam, Sam... voc tem noo do que faz comigo? Ela engoliu seco.
  - Acho que prefiro no saber.
  - Prefere?
  Arrancando a blusa dela de dentro da cala, ele ps de lado a pea indesejada e habilmente abriu o suti, que foi jogado
para longe. Por instinto, ela tentou cobri-los, mas ele segurou as mos dela e admirou o torso nu, a pele clara iluminada pela
luz da lua, os mamilos intumescidos sob o olhar dele.
  - A sua beleza  indecente - ele disse, deixando-a corada. Ainda segurando as mos dela, curvou-se para beij-la. Fechando
os olhos, ela tremia embaixo dele, as costas arqueadas.
  - Calma - ele sussurrou na orelha dela. - Temos a noite toda.
  Apesar de as mos dele segurarem as dela como algemas, elas tremiam, e quando ele deitou a cabea no abdmen dela, ela
murmurou com uma voz que nem parecia dela:
  - Kyle...
  Ele abriu a cala dela e a beijou, a boca e a lngua tocando a calcinha, a respirao quente entrando atravs do algodo. Ela
soltou um leve gemido.
  Ele a beijou novamente, mas exatamente neste momento, o telefone tocou, alto e insistente, o som vindo pela janela aberta.
  - Deixe tocar - resmungou ele.
  - No posso. - Os instintos maternais superaram o desejo.
  - No tem secretria eletrnica?
  - Caitlyn vai acordar... - Sam estava se afastando dele, abotoando a cala rapidamente.
  - Samantha...
  O telefone tocou mais uma vez e ela pegou a blusa, forando os braos para dentro das mangas e abotoando enquanto corria
para a casa.
  - Pelo amor de Deus, Sam...
  O terceiro toque foi curto, e quando Sam chegou na varanda dos fundos e entrou na cozinha, percebeu que Caitlyn atendera.
  - Al? - ela disse, segurando o gancho.
  - ... Tommy Wilkins acha que voc  uma prostituta ...
  - Quem ? - perguntou Sam para a voz gemida. Silncio.
  - Ainda est a? Est me escutando? Pare de ligar e de nos incomodar ou vou chamar a polcia e sua me, porque eu, pode
acreditar, vou descobrir quem voc . - Ela ouviu passos na varanda e percebeu que Kyle conseguira escutar o final de sua
conversa da varanda. A porta de tela estalou quando ele entrou.
  -  Me... - Sam escutou a voz de Caitlyn, tremendo, pelo telefone.
  - Desligue a extenso, querida - disse Sam, rangendo os dentes e silenciosamente amaldioando o pirralho do outro lado da
linha. - Tem mais algumas coisas que quero dizer...
  - No, me... Clique.
  - Ainda est a? - ordenou Sam, batendo na parede, frustrada. - Pode me escutar, seu...
  - Desligaram - falou Caitlyn.
  - Bom.  melhor assim. Estarei a em cima em um minuto.
  Desligando o telefone, ela foi para as escadas.
  - Problemas? - ele perguntou, seguindo-a enquanto corria para as escadas.
  - Algum pirralho acha legal ligar para c e atormentar nossa filha.
  - O que voc quer dizer?
  - Ligar a qualquer hora. Insultar Caitlyn ou no falar nada quando atendemos - ela disse sobre os ombros.
  - Eles tm identificador de chamadas, voc sabe... um aparelho que diz quem ligou, e tem um servio que voc pode ligar
para reconectar com o ltimo nmero que ligou para voc.
  - Aqui no tem.
  Ela entrou apressadamente no quarto, onde a filha, ainda segurando o telefone, estava sentada na beirada da cama. A
coberta estava puxada at o queixo e lgrimas caam de seus olhos.
  - Ah, querida. - Com o corao partido, Sam pegou o telefone da mo de Caitlyn, desligou e abraou a filha com fora. Dor
e dio corriam por seu corpo. - Est tudo certo.
  - Eles me chamaram daquele nome de novo.
  - No d ouvido a eles.
  - Que nome? - Kyle estava parado na porta, a luz do corredor acesa atrs dele, contornando a sua silhueta. Sam no podia
ver o rosto, mas a voz era baixa e intensa.
  Ela balanou a cabea.
  - No importa.
  - Que nome? - Ele repetiu.
  - Fique fora disso, Kyle.
  - Acho que j fiquei fora disso muito tempo. O que a pessoa do telefone disse para voc, Caitlyn?
  Ela deixou escapar um soluo. Lgrimas quentes molhavam a frente da blusa de Sam.
  - Eles falaram de novo - disse Caitlyn com a voz engasgada. - Me chamaram de bastarda.
  - Quem? - Kyle perguntou. - Quem chamou?
  - No sabemos. Acho que j expliquei tudo isso - disse Sam, ainda abraando a filha e embalando-a enquanto os soluos de
Caitlyn aumentavam.
  - Acho que  a Jenny. - Caitlyn fungou e tentou secar os olhos.
  - Quem  Jenny?
  - Jenny Peterkin - disse Sam - estuda na mesma sala de Caitlyn.
  - Por que ela faria isso?
  - Voc sabe como so as crianas.
  - Porque ela  malvada - falou Caitlyn e continuou: - E porque a Sra. Johnson me escolheu para uma viagem a Portland e
ganhei dela no basquete e nas Olimpadas.
  Apesar da raiva, Kyle sentiu uma pontada de orgulho.
  - Jenny no gosta de perder - disse Sam. - Ela  uma menina rica e mimada que est acostumada a ganhar sempre. Mas
lembre-se, no podemos provar quem ligou. Voc j est bem, no est? - perguntou  filha, e Caitlyn fez que sim com a
cabea.
  - No deixe ningum tirar o melhor de voc. - Kyle pegou na mozinha dela. - Durante toda a sua vida, vo passar pessoas
que s querem ridicularizar voc. Algumas sero detestveis, outras sorriro para voc enquanto por trs traem voc. E s
vezes at a sua melhor amiga pode se virar contra voc, com ou sem inteno. - Olhou para Sam por um rpido segundo e
depois se voltou para a filha. - Mas tem de manter a cabea erguida e acreditar em voc mesma. A maioria da pessoas no 
m, pelo menos no o tempo todo, mas existem algumas por a que podem fazer voc perder a f. Nunca perca, Caitlyn. Ela
sorriu entre as lgrimas.
  - Eu odeio Jenny Peterkin.
  - Ah, no, meu amor - disse Sam, mas Kyle ajoelhou-se e olhou para a filha bem nos olhos.
  - Continue odiando. Ao menos por enquanto.
  - Eu quero ligar para ela e dizer que ela  uma convencida insuportvel e tem a cabea igual a de uma pulga!
  Kyle riu.
  - Tenho certeza de que voc quer, mas no deve. Ainda no. S vai piorar as coisas. Quanto mais enfurecida ela deixar
voc, mais ela vai continuar implicando, e no final voc vai ficar parecendo uma boba. Ento, apenas ignore. Acredite em
mim, o que as Jenny Peterkins do mundo mais odeiam  quando algum finge que elas no existem. - Lentamente, ele soltou a
mo de Caitlyn.
  Samantha suspirou.
  - Ok, a crise acabou. Por que voc no volta para a cama?
  - Mas ainda  cedo!
  - Voc j estava quase dormindo quando o telefone tocou. - Com um pouco de paparico e uma promessa de Kyle de que
viria v-la no dia seguinte, Caitlyn se enroscou na cama e caiu no sono em poucos segundos. Com Kyle observando do
corredor, Sam apagou a luz.
  - Isso costuma acontecer sempre? - perguntou quando chegaram no andar de baixo.
  - Mais do que deveria. - Ela ficou parada perto da pia, olhando pela janela da cozinha, os dedos agarrados na beirada do
balco. - s vezes ligam e no dizem nada, apenas desligam rapidamente. Como uns cretinos.
  Uma pequena preocupao se instalou no corao de Kyle.
  -  a mesma pessoa que liga?
  - Acho que sim - ela disse levantando o ombro.
  - Mas no tem certeza?
  - No... Por qu?
  - No  tpico de uma criana de dez anos ligar e no falar nada. E mais provvel que xingue e depois desligue. Mas s
vezes so crianas diferentes. - Kyle olhou pela cozinha aconchegante. - At descobrirmos, acho melhor ficar aqui.
  - Por qu?
  - No caso de voc precisar de mim. Ela riu demonstrando estar nervosa.
  - Ficamos bem por nossa conta por mais de nove anos, Kyle. Acho que conseguimos lidar com as coisas.
  - Mas eu no sabia que tinha uma filha antes. Agora sei, e no quero deix-la... nem voc... sozinhas.
  - Sua preocupao chegou um pouco atrasada, no acha?
  - Antes tarde do que nunca - murmurou e saiu verificando janelas e portas e trancando as que estavam abertas.
  - Voc est paranico...
  - Caracterstica da famlia. Est no sangue.
  - O que isso quer dizer?
  - Que quando a sua famlia tem dinheiro e um pouco de fama ou notoriedade, ou seja l o que for, sempre existe a chance
de algum maluco achar que tem a oportunidade de fazer um p de meia. Seqestro e chantagem so as principais fontes.
  - Isso  doena...
  Ele entrou no banheiro e fechou a janela. Trancou, virou-se e quase colidiu com Sam.
  -  melhor se acostumar.
  - Por qu?
  - Porque Caitlyn  uma Fortune.
  - Ningum sabe disso.
  - Ainda. - Ele lanou um sorriso enigmtico. -  s uma questo de tempo.
  - E da, Kyle? Voc acha que de uma hora para outra ela vai se transformar em alvo?  isso que voc est dizendo? - Santo
Deus, isso no pode ser real. Ela e Caitlyn sempre tiveram uma vida despreocupada. E claro, sempre houve os insultos e as
afrontas, mas as duas sempre estiveram protegidas aqui. Os medos que tinha com a filha incluam as preocupaes normais
sobre acidentes ou problemas na escola, ou a crueldade das outras crianas, mas as preocupaes de Kyle eram muito mais
complexas e assustadoras.
  - Acho que estamos fazendo tempestade em um copo d'gua. S porque uns pirralhos ligam no quer dizer que algum vai
machucar Caitlyn.
  - Espero que voc esteja certa - ele disse - mas no caso de voc no estar, ficarei aqui.
  - Meu Deus, Kyle, no acha que est exagerando? Sendo melodramtico?
  Ele se virou e a colocou contra a parede.
  - Prefere apostar o futuro de nossa filha nisso, Sam?
  -  claro que no.
  - Ento vai me deixar dormir aqui.
  - Eu... eu no acho que seja uma boa idia.
  Os lbios dele se esticaram em um sorriso quase pecaminoso.
  - Como vai me impedir? Vai me jogar pela janela? Apontar a espingarda do seu pai para mim? Chamar a polcia?
  - Na verdade, pensei em seduzir voc - ela disse tranqilamente, sem desviar os olhos. - Convidar voc para a minha cama,
fazer tanto amor que voc ficaria sem ar, imploraria misericrdia, e depois ficaria to fraco que mal conseguiria se mover, a
eu chamaria os paramdicos para levarem voc de ambulncia.
  Ele riu e tocou o rosto dela com um dedo.
  - Engraado, essa era exatamente a mesma tortura que pensei para voc, mas se acha que  mulher suficiente para fazer
tudo que prometeu, pode comear. Estou  sua disposio.
  - Exatamente como deve ser - ela segurou o riso enquanto tateava a porta atrs de si tentando abrir o armrio do corredor.
Quando ele se inclinou para beij-la, ela tirou um travesseiro e um cobertor velho que cheiravam a naftalina. - Aqui est,
cowboy... Se quer ficar aqui, tudo bem, mas tem de ser no sof.
  - E todo aquele papo de fazer amor selvagem e apaixonado?
  - Mentira! - E quando ele se inclinou para beij-la, ela colocou as mos nos ombros dele e balanou a cabea. -  muito
cedo, Kyle. Sem brincadeira, no acho que esteja preparada para me envolver com voc.
  - Como voc sabe?
  O sorriso dela se tornou gelado.
  - Voc sabe o que dizem... uma vez queimada, duas vezes mais prevenida. Acho que j fui queimada pela vida inteira.
  Ele saiu do caminho dela.
  - No acho isso, Sam, e l no fundo, se voc pensar mais, vai concordar comigo.
  - Apague as luzes.
  - Sam...
  - Boa noite, Kyle.
  - A que horas  o caf?
  - Na hora que voc prepar-lo. Eu gosto de ovos mexidos, e a Caitlyn gosta de panquecas. Mas o que voc fizer, estar
bom.


  Captulo 9

  Sam acordou com o cheiro de caf subindo as escadas.
  - O que...?
  Tirando o cabelo dos olhos e se espreguiando, lembrou-se de que Kyle dormira na sua casa. Seu quarto ainda estava
escuro, os primeiros raios de sol comeando a entrar pela janela aberta. Pegou o robe e desceu.
  - Bom dia - ele falou de forma arrastada, recostado em uma das cadeiras. Fang estava deitado ao seu p, e o caf j estava
pingando na cafeteira.
  - Bom dia. - Levantando a sobrancelha, foi at a cafeteira, serviu uma xcara e sentou-se em uma cadeira em frente a ele. -
Nunca pensei que veria este dia - ela disse, balanando a caneca. - Kyle Fortune, a imagem de um dono de casa.
  - Tem muita coisa que voc no sabe a meu respeito, Sam.
  - Verdade? Ento, me conte.
  -  Uma coisa bsica que voc deve saber  que para dormir sob o mesmo teto que voc e no subir as escadas e quebrar a
porta, precisei de uma fora sobre-humana. Passei metade da noite brigando comigo mesmo. No final, a nobreza ganhou dos
apelos sexuais, mas no posso prometer que vai ser sempre assim. Na verdade, garanto que no vai ser.
  Sam sentiu a garganta ficar seca como se estivesse em uma tempestade de areia, tomou um gole do caf quente e
silenciosamente pediu fora. Nada era fcil com este homem, nem mesmo acordar.
  - O que faz voc pensar que vai ter uma prxima vez?
  - O que faz voc pensar que no vai ter?
  - No podemos viver desta maneira, fugindo de sombras, com voc acampado aqui para nos proteger. Caitlyn e eu... ns
estamos bem.
  Furioso, ele tomou outro longo gole de caf e no respondeu.
  - Estivemos sozinhas esse tempo todo.
  - Porque eu no sabia que tinha uma filha. Agora eu sei, e de jeito nenhum voc vai me manter longe da vida dela.
  - No disse que queria isso.
  - O que voc quer?
  - Essa  fcil, Kyle. Quero que minha filha seja feliz.
  - Sem um pai?
  - No, isso seria tolice. Nunca realmente quis que voc ficasse fora da vida dela, mas as circunstncias fizeram parecer
inevitvel.
  - No precisava ser assim. Venha... - Ele a levou at  varanda. Depois, a abraou to forte que ela podia ouvir seu corao.
- No precisamos brigar sempre.
  Ela descansou a cabea no ombro dele. Os lbios dele beijaram sua tmpora.
  - Eu quero as mesmas coisas que voc para Caitlyn.
  - Quer?
  - Confie em mim, Sam. Desta vez as coisas vo ser melhores.
  - Desta vez? - repetiu ela, percebendo que ele estava falando sobre o relacionamento deles. Ah, era tudo to complicado e
confuso, tanto o passado quanto o presente. Seria possvel ser to feliz a ponto de apagar a dor do passado?
  Passos desciam as escadas, e Sam afastou-se de Kyle antes que Caitlyn pudesse peg-los abraados.
  - Me?
  - Aqui, querida.
  Ainda de pijama, Caitlyn correu pela cozinha e passou pela porta, apenas para levar um susto ao encontrar Kyle.
  - Voc ainda est aqui? - Tinha uma pontada de esperana na voz dela.
  - Estou. Sua me no conseguiu se livrar de mim.
  - Ele passou a noite no sof.
  - Por que voc no foi para casa?
  - Fiquei preocupado com voc.
  - Comigo?
  - Por causa do telefonema - Sam explicou.
  - Jenny  uma burra. Ela pode dizer o que quiser de mim, porque no  mais verdade, certo?
  - Certo - concordou Kyle.
  - Nunca foi verdade - disse Sam apressadamente, temendo o rumo da conversa.
  - Caitlyn, v se vestir rpido que vou preparar o caf da manh para vocs dois.
  - Mas...
  - Agora.
  - No discuta com sua me - interrompeu Kyle. - Alm disso, temos muito o que fazer hoje, ns trs.
  - Temos? - Sam suspeitou na hora.
  - Temos, mas mais tarde. - Ele acariciou o cabelo da filha. - Primeiro, temos negcios para tratar.

  Kyle tocou a campainha e esperou na grande varanda onde jardineiras de petnias, fcsias e gernios estavam penduradas.
Rosas contornavam a entrada, e o gramado, verde e exuberante, contrastava com os campos ao redor. A casa era de tijolos
com vigas brancas, tinha trs andares e estava completamente fora de lugar nesta parte do Wyoming.
  Ele ouviu passos, viu um rosto bonito, preocupado, olhando pela janela ao lado da porta.
  - Kyle Fortune! - Shawna Davies Peterkins estava parada na porta, toda arrumada e engomada, sem um fio de cabelo fora
do lugar, um sorriso saindo pelos cantos de seus lbios cobertos de batom rosa. - Ouvi dizer que voc estava de volta a Clear
Springs, mas no esperava... Ah, entre, entre. Tenho caf, ch ou algo mais forte. - Ela estava ruborizada como uma colegial.
  Sempre fora falsa. Neste momento, ela estava destilando charme, como se ele fosse a pessoa mais interessante que j
estivera em sua porta.
  - Obrigado, mas no tenho muito tempo - ele disse, sem entrar.
  -  claro que tem.
  - Esta no  uma visita social.
  - O qu? Tem alguma coisa errada?
  Atrs da me, escondida nas escadas, estava uma menina da idade de Caitlyn, olhos grandes e cabelos negros.
  - Algum tem feito umas ligaes de mau gosto para Caitlyn Rawlings, e no sei quem  o culpado, mas o nome de Jenny
foi citado como uma possibilidade.
  A menina empalideceu.
  - Minha Jenny? - Shawna balanou a cabea e nenhum fio de cabelo se mexeu. - Tenho certeza de que voc est errado. - O
sorriso desapareceu completamente. - Jenny  uma boa menina, Kyle, e no sei que tipo de mentiras Samantha Rawlings e a
filha contaram, mas posso assegurar que Jenny nunca fez essas ligaes.
  -  Tem certeza? - O olhar de Kyle foi direto para a menina nas escadas.
  - Absoluta! Jenny  muito ocupada com as aulas de piano e natao para fazer esse tipo de coisa. Ela  meiga com todos,
at com a menina Rawlings.
  - At com ela? - A pacincia de Kyle se esgotou.
  - . Aquela menina no tem controle. Deixam-na correr livremente como um... No me diga que Samantha mandou voc
aqui para fazer o trabalho sujo.
  - No. Assumi isso como uma misso pessoal.
  - Por qu?
  - Porque eu gosto da filha dela e no quero ver Caitlyn magoada ou com problemas.  bom que voc fale isso para Jenny e
para os amiguinhos dela para que fiquem sabendo que quando eu descobrir quem est ligando, no vou deixar que isso
acontea de novo.
  - Deixe-me entender melhor, Kyle, para que possa falar para o meu marido quando ele chegar em casa. Voc est
ameaando a minha filha?
  - Imagine, Shawna... S pensei que voc e ela... bem, talvez seu marido... quisessem saber. Talvez Jenny tenha uma idia
de quem est se divertindo com essas ligaes.
  - Claro que no. As crianas com quem ela anda so legais, de boas famlias. Est reclamando no lugar errado.
  - Se voc est dizendo... - Kyle saiu e a deixou parada na porta.

  -  assim que se faz - Kyle segurou a corda que amarrara em um galho de uma rvore solitria. - Voc vem na corrida,
agarra a corda e se atira para a frente. Quando estiver bem em cima da gua, voc solta.
  - No sei no... - Sam respondeu com desconfiana. Kyle, s de jeans, soltou um grito e correu. Agarrou a corda e se lanou
no rio. Caitlyn riu.
  - Sua vez - disse para Samantha ao sair da gua. Ela tentava no olhar para seus msculos torneados...
  - Vamos, Sam, tente.
  - De jeito nenhum.
  - Vamos l, me! - Os olhos de Caitlyn brilhavam. Era a primeira vez que a famlia estava reunida. Sam preparara o almoo
para fazerem um piquenique, e Kyle trouxera os cavalos, ento cavalgaram pela encosta, at o riacho. Mas eles ainda eram
pouco mais do que estranhos tentando se adaptar a uma situao embaraosa que lhes fora imposta pelo destino.
  - Me, por favor... - implorou Caitlyn.
  - Tudo bem, tudo bem... - Sam levantou e sem dificuldade fez o mesmo que Kyle, correu e usou a corda para se atirar na
gua.
  - Voc conseguiu, me! - Caitlyn gritava de alegria.
  - Como foi? - perguntou Kyle, o jeans ainda pingando.
  - Gelado!
  - Vamos, Caitlyn. Vamos mostrar para sua me como se faz! - Ele agarrou a filha pela cintura e, com o brao livre, usou a
corda para voar at a gua. Caitlyn exultava.
  Vendo os dois juntos, ouvindo as gargalhadas, vendo sua filha finalmente encontrar o pai que tanto queria, Sam sentiu o
corao acelerar. E o futuro? E se Caitlyn se apegasse muito a ele nos prximos seis meses, se passasse a am-lo? Como se
sentiria quando o inverno chegasse, quando ele planejava vender a fazenda e partir? Desejaria ir com ele? Kyle desejaria ter
uma menina de nove anos atrs dele? E a escola? Ah, Deus, que confuso! Completamente molhada, Sam foi at a toalha e
deixou o sol de final de tarde secar sua pele. Ver pai e filha rindo na gua do rio, a fez imaginar como a vida teria sido
diferente se ela e Kyle tivessem ficado juntos.
  Passou os dedos pela terra e se perguntou se algum dia conseguiria esquecer a verdade. O corao estava apertado com
medo de a histria se repetir. Por mais que tentasse evitar, a verdade era que ainda se sentia atrada por Kyle Fortune - to
atrada quanto sempre fora. Querendo ou no, estava se apaixonando por Kyle Fortune de novo, e no parecia haver muito o
que fazer para mudar isso.
  Mas no podia confiar nele, no podia am-lo. Tinha de se lembrar de que o interesse dele nestes dias era s por causa de
Caitlyn. Mais cedo ou mais tarde, teriam de tomar uma deciso sobre o futuro da filha.
  E ele vai partir. Lembre-se de que ele est apenas esperando at poder vender a fazenda. E depois? O que ele vai querer
fazer com Caitlyn?
  Esse pensamento a perseguiu pelo resto do que deveria ser uma despreocupada tarde de vero.

  O cu estava com uma colorao arroxeada anunciando o anoitecer quando Kyle estacionou a caminhonete perto da
varanda da casa de Sam. Caitlyn, exausta de um dia nadando e cavalgando, cara no sono durante a curta travessia da Fazenda
Fortune at sua casa. Em vez de despert-la, Kyle a pegou no colo e a colocou na cama pela primeira vez na vida.
  Parada na porta, observava pai e filha, as mos grandes e bronzeadas puxarem ternamente o cobertor at o queixo de
Caitlyn. Os olhos da menina se abriram um segundo e ela suspirou:
  - Obrigada, papai. Eu amo voc - ela disse, caindo no sono novamente.
  O corao de Sam quase parou. Kyle magoaria a filha. Com ou sem inteno, no importa o que fizesse, iria machucar e
decepcionar a filha.
  Kyle levantou da cama de Caitlyn, ficou em p sem se mexer por um minuto, como se no pudesse acreditar no que acabara
de ouvir. Depois, se virou, com uma expresso sria.
  - Acho melhor conversarmos...
  Desceram juntos e caminharam em silncio at a cerca mais afastada da casa.
  - J sei o que voc vai dizer...
  - Sabe? - Ele a encarou com um olhar to intenso que por um segundo ela esqueceu o que ia dizer. - O qu?
  - Que... que voc quer Caitlyn com voc, que vai pedir judicialmente a custdia dela, que... ah, Deus, Kyle, no faa isso.
No faa!
  - Voc acha que eu tentaria roub-la de voc? - Ele bufou de raiva, os olhos apertados e fixos.
  - Voc no consideraria isso um roubo.
  O rosto se contraiu ainda mais e ele passou os dedos pelo cabelo.
  - No sou esse cafajeste.
  - No disse isso...
  - Ento o que voc acha que devemos fazer?
  - Ah, Deus, Kyle, como eu gostaria de saber!
  - Eu tambm.
  - O que est acontecendo com a gente? - ele perguntou e ela sentiu o sangue esquentar.
  - No sei...
  Deveria se afastar dele, impor alguma distncia entre seus corpos, manter a cabea fria. Mas quando o rosto dele veio em
direo ao dela, ela levantou o queixo, vida e impaciente.
  - Isso  uma bno ou uma maldio, ainda no sei... - Os lbios dele cobriram os dela e hesitaram.
  - Uma maldio - ela murmurou, antes de beij-lo. Os braos dele a envolveram em um abrao forte, e ela no tentou
resistir, no discutiu com o anseio de sua alma. Os anos voltaram como em um sonho, e ela era de novo uma menina, cheia de
esperana e desejo, com o rapaz que amava.
  - Samantha... - ele sussurrou. Ela o enlaou pelo pescoo e a mo dele escorregou por suas costelas at sentir o seio passar
entre seus dedos. - Isso  loucura...
  - Uma tolice... - ela concordou, a cabea rodando, as dvidas fugindo pela noite. - Eu no quero...
  - Nem eu... - ele respondeu, vacilante, os dois ainda abraados.
  - Kyle!
  - Ah, Sam, o que vou fazer com voc? - Os lbios dele mais uma vez mergulharam nos seus, que se abriram para a lngua
dele. Nada to bom quanto isso poderia ser errado. Ele era o homem que ela amava, o pai de sua filha, o nico homem que j a
tocara.
  Fechou os olhos e se deixou sentir os dedos que a acariciavam, um calor queimando sua carne atravs da blusa e do suti.
Dedos speros brincavam com seus mamilos, e o calor que descia por seu abdmen lentamente comeou a subir, causando um
formigamento, um desejo  libertino e selvagem - que latejava entre suas pernas.
  - Que saudade... - ele sussurrou em sua orelha. Seus joelhos tremiam quando ele a deitou no cho. As mos dele tambm
tremiam quando ele abriu sua blusa. A boca era quente e a lngua, provocante, beijava sua pele, primeiro suavemente, depois
com ferocidade.
  Ela o ajudou a tirar a camisa, sentindo seus msculos fortes e rijos ao beij-lo com a mesma paixo com que era beijada,
redescobrindo o homem que roubara seu corao, sua juventude e sua virgindade.
  Ele rolou para que ela ficasse em cima dele. Beijou cada um dos seus seios com uma suavidade agonizante at finalmente
mergulhar no calor de sua carne - a lngua, os lbios e os dentes brincando com os mamilos.
  Ondas de desejo passavam por seu corpo. Arrepios quentes a deixavam tonta e com a respirao acelerada. As mos
exploravam o peito coberto de plos, e seguiam a linha que desaparecia dentro do jeans. Ela gemia, querendo mais enquanto
as mos dele desciam para roar o tecido que cobria suas ndegas, os dedos deslizando para a parte interna de suas coxas.
  - Isso  perigoso...
  - Eu sei...
  Os dedos dele entraram pelo cs da cala de Sam, deslizando pelas ndegas nuas para ajud-la a tirar a cala. Nua, deitada
em cima dele, ela se contorcia a cada toque, o corpo molhado de suor, a respirao entrecortada. Com dedos gentis, ele a
acariciou, encontrando as partes mais ntimas, que ele fora o nico que ousara explorar.
  Sam gemeu e se entregou ao prazer que ele lhe oferecia. Era isto que queria: ser amada por ele, abandonar os seios em sua
boca enquanto as mos exploravam o corpo.
  Ela no precisava de mais nada. O boto e o zper da cala dele se abriram e mostraram a ereo embaixo da cueca. Ela o
tocou to intimamente quanto ele a tocava.
  - Sam... espera, ainda no, ainda no!
  Com a respirao ofegante, ele a virou com cuidado, separou suas pernas, beijando seu rosto, pescoo, abdmen e entre as
coxas enquanto os dedos afagavam suas pernas e ps.
  Ela gemeu quando a respirao dele atingiu a dobra mais sensvel de seu corpo e os lbios beijaram o lugar mais ntimo.
  - Por favor... - A pele pegava fogo, pulsando de desejo enquanto ele fazia como a boca uma mgica que ela no lembrava
existir. Exatamente quando achou que gozaria, ele parou, e a deixou ansiando por ele por um segundo, at penetrar fundo em
seu calor.
  Sam, ofegante, acompanhou os movimentos de Kyle e se segurou quando o mundo comeou a girar em uma rbita nova e
estrelada e a terra colidiu em uma srie de espasmos que se espalharam pelo corpo inteiro.
  - Kyle... - ela suplicava, mas a voz estava perdida no prprio gemido rouco e primitivo dele, que repercutia em seu corao.
  - Sam, como senti a sua falta...
  Lgrimas brotaram nos olhos dela, que lutou contra os soluos. Suavemente, ele a abraou.
  - Calma, querida. Vai ficar tudo bem....
  - Vai?
  - Podemos fazer ficar bem.
  - Lembra quando voc disse que sabia o que eu ia dizer? Bem, voc estava errada. O que eu ia fazer era pedir voc em
casamento.
  - O qu? - O corao dela parou por um instante.
  - Voc me escutou, Sam. Desta vez acho que devemos fazer as coisas certas. Quero que voc seja minha esposa.
  -  Voc no pode estar falando srio - ela disse, mas a cabea j estava girando, antecipando imagens deles juntos, os trs.
Kyle, Samantha e Caitlyn, finalmente uma famlia: um sonho que nunca poderia se tornar realidade.
  - Acredite em mim, Sam. Nunca falei to srio em toda a minha vida.
  - Mas onde moraramos? Voc est planejando vender a fazenda, certo? Ento voc vai morar aqui comigo? Ou voc pensa
que eu e Caitlyn vamos nos mudar para onde quer que seja sua casa?
  - Tenho uma cobertura em Minneapolis.
  - Ah, muito adequado para ns.
  - No espero que vocs se mudem.
  - Que bom. Porque eu no iria. No poderia. No seria justo com Caitlyn. - Sam tentou libertar-se dos braos dele, mas as
mos a seguraram. - Vai ser um desses casamentos a distncia, em que voc s aparece de vez em quando?
  - Seria o que tem de ser. Nada mais, nada menos...
  - Um casamento no nome apenas...
  - Caitlyn teria um nome... um pai.
  - Mas um pai pela metade. Como um pai de convenincia.
  - Voc no precisa ver as coisas desta maneira.
  Era a nica maneira que ela conseguia. Ele no mencionara amor.
  - Eu e Caitlyn pertencemos a este lugar.
  - Caitlyn precisa de um pai.
  - Ah, entendo. Ns devemos ir aonde voc quiser, estar disponveis quando voc precisar de ns em vez do contrrio.
  - No disse isso.
  - J disse o suficiente, Kyle, e se no entendeu antes, entenda agora: no sou o tipo de mulher que sai correndo quando voc
liga, nem a Caitlyn. Se voc acha que...
  - Acho que devamos ficar juntos. Por Caitlyn.
  Ela soltou o ar com raiva e se afastou dele e juntou as roupas.
  - Tenho novidades para voc. Eu e Caitlyn estvamos bem antes de voc aparecer e continuaremos quando for embora.
Voc no precisa vir com uma proposta de casamento mais do que atrasada para tentar consertar as coisas. - Ela puxou ojeans
e enfiou os braos nas mangas da blusa. - No quero acordar com um pai de convenincia, cuja nica razo para estar casado
com a me  aliviar a conscincia pesada. Ento, se era isso que tinha em mente, pode esquecer!
  - Caitlyn precisa de um pai.
  - Precisa? Seria realmente to bom colocar Fortune no nome dela para que as pessoas pudessem ver o miservel, egosta,
cafajeste que o pai dela ?
  - Voc est entendendo tudo errado - ele disse, vestindo a cala. - Estou mais velho e mais maduro agora.
  - Esse  o problema, no ? Eu tambm. No vou me queimar de novo, pelo menos no com o mesmo homem. E acredite
em mim, nunca, nunca, vou deixar voc magoar nossa filha.
  - Eu no faria isso...
  - No? No pode simplesmente jogar charme para ela e depois fugir de novo!
  - Eu realmente magoei voc, no foi?
  - Magoou. Mas sou uma mulher adulta e posso lidar com isso. - Isso era mais do que uma mentira, mas preferia omitir a
verdade para proteger seu corao. Colocando as botas debaixo do brao, foi em direo  varanda da frente e continuou: -
Caitlyn no pode. Boa noite, Kyle.
  Ela deixou a porta bater atrs de si e tentou no chorar. Ele oferecera se casar com ela, casar, meu Deus, mas isso no era o
bastante. Um casamento de convenincia era como um anel de vidro, um diamante falso que se quebraria no primeiro sinal de
problema. No, preferia morrer a aceitar a proposta dele. No precisava dele, nem Caitlyn.
  - Voc  uma tola, Sam - Disse para si mesma e se inclinou para afagar as orelhas de Fang. - Nada mais do que uma tola
orgulhosa.


  Captulo 10

  Vrios cavalos, na sua maioria guas e potros, j tinham se acostumado com Kyle consertando as coisas pela fazenda:
pintando muros desbotados pelo sol, substituindo ripas de madeira no telhado do estbulo, escorando pilastras de varandas e
esticando quilmetros de arame farpado pelas cercas. Os animais nem levantavam as orelhas ou o focinho do campo onde
pastavam enquanto ele fazia seus reparos.
  Na verdade, agora que seus msculos pararam de protestar, estava comeando a gostar dessa vida. Alm disso, todo esse
trabalho pesado canalizava suas energias e o ajudava a se manter calmo.
  Trs noites antes, pedira Sam em casamento e desde ento no a vira muito. Viera para trabalhar o cavalo, tentara ser
educada, ou pelo menos civilizada, mas no sorrira. Caitlyn viera junto e percebera o clima carregado.
  Droga, parecia que ela o estava punindo por pedi-la em casamento!  verdade, no houvera muito romance nessa proposta,
mas ela no esperava isso, esperava? Quem conseguia entender essa mulher?
  Pegou a camisa pendurada na cerca, jogou a chave inglesa no cinto de ferramentas e foi para casa. Fizera muitas coisas na
ltima semana. Randy Herdstrom concordara em continuar supervisionando a fazenda, e Carson e Russ continuariam fazendo
parte da equipe. Curinga estava um pouco mais calmo com o trabalho de Sam, e Caitlyn confiava nele.
  A menina era mesmo surpreendente. Ela o seguia o dia todo, falando sem parar, fazendo perguntas e implorando para
montar o cavalo. Ontem, Sam concordara em deixar a filha subir nas costas de Curinga. Mas Caitlyn ficara decepcionada
quando a me no largou a corda do Appaloosa. Reclamou que j tinha idade para lidar com qualquer cavalo, mas Sam no
arredou o p.
  Ele ouviu a caminhonete dela antes de v-la, e no conseguiu evitar que o corao palpitasse. Ele andou at o
estacionamento enquanto ela saltava. O olhar furioso pousou nele com toda fora.
  - A est voc.
  - Estive aqui a tarde toda.
  Apontando um dedo para o peito nu dele, ela tremia de raiva.
  - Voc no tinha o direito - ela disse, os olhos verdes cuspindo fogo. - No tinha o direito de acusar Jennifer Peterkin!
  - Ei...
  - No se atreva a negar porque acabei de encontrar Shawna na loja e ela estava doida para me contar tudo e avisar que se eu
ou voc colocssemos os ps na propriedade dela de novo, ela nos processaria por calnia, invaso de propriedade,
importunao e mais umas outras cinqenta acusaes!
  - Gostaria que ela tentasse....
  - Essa no  a questo. Voc foi l pelas minhas costas e nem me contou.
  - Achei que voc fosse ficar indignada e tentar me impedir.
  - Bingo! Estou indignada. Na verdade, mais do que isso. Estou com raiva, irritada, enojada... furiosa.
  - Caitlyn tambm  minha filha.
  - Isso no d o direito de voc acusar...
  -  claro que d! - Kyle segurou o dedo que apontava para seu peito nu. Dedos fortes apertaram os dela. - Ningum mais
vai importunar Caitlyn. Eu vi Jenny se escondendo nas escadas, atrs da me, quando estive l. E deu para perceber que ela
tem culpa no cartrio.
  - Provavelmente. Mas voc no tem provas.
  - Recebeu mais algum trote? - ele perguntou, deixando seu temperamento ruim aparecer.
  - O qu?
  - Nos ltimos dias. Algum ligou e deixou Caitlyn triste, ou apenas desligou o telefone, com uma respirao forte?
  - No, mas...
  Ele sentiu uma pontada de satisfao.
  - Voc deveria me agradecer em vez de vir aqui soltar os cachorros em cima de mim.
  - Espere um minuto.
  - No, espere voc um minuto! Enquanto eu estiver por perto, ningum vai magoar a minha filha. Ningum!
  - E por quanto tempo vai ser isso, hein?
  - Isso  com voc, Sam. Estarei por perto enquanto voc permitir.
  - Mas o tempo est passando e voc pretende vender esta fazenda em... o qu... cinco meses? - Os olhos se estreitaram ao
olhar para ele. - No precisa se preocupar com ningum magoando Caitlyn, tudo bem? Porque voc  quem vai partir o
corao dela quando for embora.
  - Eu pedi voc em casamento. - A respirao dele, quente e furiosa, atingia o rosto de Sam. - A proposta ainda est de p,
Sam.
  Se a resposta fosse to simples assim. Se a dor e as cicatrizes do passado no machucassem tanto. Em alguns momentos,
sentia como se tivesse dezessete anos de novo - jovem, ingnua, desesperadamente apaixonada, o mundo aos seus ps porque
Kyle estava de volta. Mas todas essas iluses se dissipavam facilmente quando olhava a sua volta e se lembrava dos fatos
cruis da vida. Era me solteira. O pai de sua filha era um playboy rico que a deixara dez anos antes para se casar com outra
mulher. Apesar de estar apaixonada por ele de novo, tinha certeza de que ele iria embora - no apenas a deixando para trs,
mas a filha tambm.
  Mas ele quer casar com voc, Sam. Quantas vezes ele vai ter de pedir? Quantas vezes ele pedir? O que voc est
esperando? E isso a, a aliana, a chave para a sua felicidade! Agarre essa oportunidade antes que seja tarde demais.
  - Vamos entrar, que tal beber alguma coisa? - Ele olhou para a caminhonete. - Onde est Caitlyn?
  - Foi passar a tarde na casa de Sarah.
  - Ento temos tempo sozinhos. - Os olhos dele brilharam maliciosamente e ela soube que teria problemas. No conseguiria
resistir, nunca conseguira. Vendo que ela hesitava, ele pendurou um brao sobre o ombro dela e tocou a sua testa na dela.
  - Eu no mordo.
  - Eu mordo.
  - J percebi.
  - E no tem medo?
  - Estou morrendo de medo.
  Ela no pde deixar de rir. H alguns minutos estava com tanta raiva que queria estrangul-lo, agora queria relaxar, rir com
ele, curtir alguns minutos...
  - Sabe, Fortune, se voc no for do tipo que morde, ento, definitivamente, no estou interessada.
  - Que mulher perversa. - Ele a puxou para seus braos e a abraou, os lbios reivindicando os dela para um beijo que a
deixou sem flego.
  - Kyle, por favor...
  - O que voc quiser.
  - Gostaria de saber o que quero...
  - Venha para cama comigo, Samantha. - A voz estava baixa, rouca e convidativa.
  - No  uma boa idia.
  -  uma excelente idia.
  - Estamos no meio da tarde... - Transar com ele s a enfraqueceria quando mais precisava ser forte.
  - Eu sei... - No esperou que ela fizesse mais objees. -  a melhor hora! - Kyle a pegou no colo e a levou para dentro.
  - Isso  um erro.
  - S mais um.
  Subiu as escadas e chegou a um quarto dominado por uma cama king size e a colocou sobre a colcha feita com pele de
carneiro que cobria a cama. Com um suspiro de satisfao, ela se entregou a ele, tirando as botas e roupas.
  Suas mos e lbios eram mgicos, acariciando o corpo dela com uma intimidade que a deixou emocionada. Um desejo
recm-descoberto se espalhou pelo corpo quando ele tirou a cala. Estava ansiosa, latejando, e ele tambm.
  - Meu amor... - ele murmurou e a penetrou, afastando qualquer pensamento de sua cabea. Ela era dele e nada mais
importava naquele momento. Enquanto a luz do sol entrava atravs das janelas, e as velhas cortinas finas se agitavam com a
brisa de vero, ela o amava com um abandono selvagem e se recusava a pensar no futuro.

  Kyle ouviu a campainha, primeiro distante, depois mais insistente quando abriu o olho e percebeu que cochilara. Samantha,
ainda nua, estava aninhada nele, e o maldito telefone ficava no andar de baixo.
  Samantha abriu os olhos.
  - O telefone...
  - Deixe tocar. - Ele a beijou de novo, mas ela o empurrou.
  - Pode ser Caitlyn. - Ela j estava de p pegando as roupas.
  - Bem-vindo  paternidade.
  Resmungando, Kyle colocou o jeans e saiu correndo do quarto. Quem quer que fosse do outro lado da linha era persistente.
  - Al?
  - Onde voc estava? - Uma voz suave de mulher. -Estou tentando ligar h dias.
  - Caroline?
  - Voc se lembra - disse a prima com uma gargalhada. - Desde que foi para o Wyoming, ningum aqui da empresa soube de
voc.
  - Trabalho duro e vida honesta - ele disse, piscando para Sam quando ela entrou na sala.
  - Ah, certo. Voc vive to honestamente quanto o prprio demnio. No me venha com essa histria de trabalho duro,
Kyle. Eu conheo voc. Se est ocupado, provavelmente  por causa de alguma mulher.
  - Cuidado, Carol, suas garras esto aparecendo...
  - Estou ligando para lembrar da reunio do conselho na sexta...
  - Esta sexta?
  - Hum, hum. No  s porque despedi voc do cargo de meu assistente que no faz mais parte dos negcios. Todos na
famlia que tm aes, e todos temos, tm de vir  reunio.
  - Por qu?
  - Porque temos muitas questes a discutir. A nova campanha publicitria, o valor das aes desde a reorganizao da
empresa, e tem a frmula da juventude para ser discutida. Nada foi decidido desde que Kate morreu... Ah, droga, ainda no
consigo dizer isso sem chorar por dentro.
  Caroline pigarreou.
  - Tem mais. Nick no pode avanar na frmula para o creme da juventude sem o ingrediente principal...
  - Eu sei, eu sei - interrompeu Kyle, uma dor de cabea se formando atrs dos olhos. Era a mesma dor de cabea que latejava
sempre que algum problema da empresa lhe era apresentado. Tentara por um tempo, mas no conseguira se interessar. Talvez
a av estivesse certa em deixar a fazenda para ele, bem longe do resto da famlia e dos escritrios da empresa. Ainda no
queria pensar na suposta frmula da juventude, o ingrediente principal que estava sendo cultivado em algum lugar da Floresta
Amaznica e que fora o motivo de Kate ter voado para o Brasil e morrido.
  Sam trouxe uma caneca de caf.
  - Tem um outro motivo para eu querer que voc venha para casa, Kyle - disse Caroline, com a voz mais sria. -  Rebecca.
  - Nem me diga. Ela acha que houve sabotagem no avio e que Kate foi possivelmente assassinada. - Kyle tomou um gole
do caf quente e piscou para Sam. - Rebecca j me ligou.
  - Ela disse que contratou um detetive particular chamado Gabriel Devereax para ajud-la a investigar?
  - Disse que estava trabalhando nisso.
  - Bem, no sou contra contrat-lo. Suponho que se tem algo suspeito sobre o acidente, devemos saber. Mas no acho uma
boa idia a imprensa se aproveitar dessa histria. A teoria de Rebecca, mesmo fraca, esbarra em espionagem industrial e no
tipo de publicidade que a Cosmticos Fortune no precisa nem deseja. O incndio no laboratrio h alguns meses j chamou a
ateno da imprensa e deixou alguns acionistas nervosos. Talvez eu esteja exagerando por causa da insistncia de Rebecca em
dizer que vov foi assassinada.
  - Ei, Carol, acalme-se. A Rebecca s tem uma teoria, e que  muito fraca.
  - Mas a imprensa...
  -  a menor de nossas preocupaes. - Colocou a caneca no balco, desejando que ela no tivesse ligado.
  - Percebe por que precisa vir at aqui?
  - , voc me deu um bom motivo. A que horas  a reunio?
  - s nove em ponto.
  - Estarei a. Alm disso, tambm tenho novidades. Sam ficou aterrorizada.
  - Boas ou ms? - perguntou Caroline.
  - Definitivamente boas.
  - No! Kyle, no...
  - O que ? - a prima perguntou, curiosa. Sam estava implorando, plida como um fantasma.
  - Kyle, no, no agora. No est na hora...
  - Eu ia telefonar para o papai para contar para ele primeiro, mas j que ligou, voc tambm deve saber que agora tenho uma
famlia.
  - O qu? - Caroline parecia perplexa.
  Sam respirou fundo como se o mundo tivesse de repente acabado. Kyle continuou:
  - Tenho uma filha. De nove anos.
  O outro lado da linha ficou mudo e Sam tentou pegar o telefone, determinada a deslig-lo.
  - Desculpe, Kyle - disse Caroline. - Voc tem uma...
  - Menina. O nome dela  Caitlyn - ele disse virando-se para que Sam no conseguisse pegar o telefone.
  - No, Kyle, pare com isso! - Sam estava frentica, olhando para o telefone como se fosse a encamao do mal.
  - Lembra de Samantha Rawlings?
  - Lembro...
  - Ns tivemos um envolvimento h muitos anos, ah, droga...  complicado. Mas eu vou lev-las a Minneapolis e
explicaremos tudo.
  - Meu Deus! - A voz de Caroline era quase um sussurro.
  - Vejo voc na sexta.
  Ele desligou e Sam ficou parada na frente dele, os olhos cuspindo fogo.
  - Como voc ousa?
  - Eles tm de saber.
  - Mas no assim.
  - Ento, como?
  - No sei. Mas deve haver uma forma melhor.
  - Cite uma.
  - Ah, Deus, Kyle. Voc no pode simplesmente jogar isso em cima das pessoas...
  - Contaremos juntos.
  S pensar na famlia dele j congelava seu sangue. Nunca faria Caitlyn passar por tal experincia e no conseguia se
imaginar passando por isso tambm.
  - Pedi voc em casamento - ele lembrou.
  - Para tornar as coisas mais dignas?
  - Para tornar as coisas mais fceis.
  - s vezes o mais fcil no  o melhor.
  Ele tentou segur-la mas ela se afastou, furiosa.
  - Podemos nos casar e vocs podem ir conhecer a minha famlia.
  - Tenho uma fazenda para administrar.
  - Conseguiremos uma pessoa para supervisionar por alguns dias.
  - No estou pronta, Kyle.
  - Voc teve dez anos.
  - Isso est indo rpido demais. No quero que voc s case comigo porque temos uma filha, para dar um nome para
Caitlyn, para fazer alguma coisa nobre que alivie a sua culpa, ok? J tenho idade suficiente para me virar sozinha e no quero
uma proposta pela metade para me sentir melhor comigo mesma.
  - O que isso quer dizer?
  - Que voc no pode me usar para conseguir minha... nossa filha. No vou deixar voc brincar com meus sentimentos nem
com os dela. J disse que no estou interessada em nenhum papel dizendo que somos marido e mulher. Um casamento  mais
do que um pedao de papel assinado por um juiz. - Ela balanou a cabea. - Essa conversa  absurda. E alm disso, casada ou
no, no posso largar tudo e sair.
  - Minha famlia vai estar esperando voc.
  - No ligo para a sua famlia. Tenho de pensar em Caitlyn e no lev-la para um lugar estranho cheio de parentes curiosos,
reprteres ansiosos e perguntas que ela no conseguir responder. No vou deix-la se transformar em algum show a parte
para caadores de novidades. Como voc planeja apresent-la?
  - Como minha filha.
  - Sua filha ilegtima que foi concebida um pouco antes de voc se casar com outra mulher?
  - Ento voltamos a isso...
  - Acho que sim.
  - Mais cedo ou mais tarde vou ter de contar para a minha famlia que...
  - Mais tarde, certo? - O cheiro dele ainda estava impregnado em sua pele. Apenas alguns minutos antes, estavam deitados
juntos, nus, corpos emaranhados, como se j fossem casados, como se existisse algum tipo de compromisso entre eles, como
se amassem.
  - O que voc quer de mim, Sam?
  - Tempo e espao para organizar a minha cabea.
  - Dez anos em uma das reas menos populosas do pas no foram suficientes?
  - No brinque comigo.
  - No estou brincando. Uma vez voc me acusou de covarde, Sam, mas acho que  voc quem est com medo. O que em
mim assusta tanto voc?
  Que voc no me ame; que me magoe de novo; que magoe a sua filha que est comeando a ador-lo.
  - S no quero cometer um erro.
  - Sabe, Sam - ele disse, sentando-se no balco e a encarando com aqueles malditos olhos que sempre conseguiam ver fundo
em sua alma. - Eu disse uma vez que voc era uma mentirosa, e isso no mudou. Voc est evitando a verdade. Voc nunca
foi o tipo de pessoa que foge de um desafio, que se esquiva, que se preocupa em mergulhar em um rio s porque  muito
fundo.
  O sorriso dela era gelado.
  - Voc est me confundindo corri uma pessoa que conheceu. Uma menina que confiava, uma menina que no tinha uma
filha que dependia dela, uma menina despreocupada...
  - No. Estou falando de uma menina que fez de tudo pelo pai, um alcolatra. Uma menina capaz de superar qualquer coisa
que a vida colocasse em seu caminho. Uma menina que confiava e amava. Estou falando de voc, Sam, e no minta para mim
dizendo que mudou tanto, que eu machuquei voc e deixei cicatrizes e que no consegue mais encontrar essa menina dentro
de voc. Vamos, Samantha, admita. Voc no quer se casar comigo porque acha que se entrar no mesmo barco que eu vai ter
desistido, sucumbido ao inimigo, abandonado sua promessa de criar sua filha sozinha. Seu orgulho  to grande que voc est
tropeando nele.
  - E o seu ego  to grande que est deixando voc cego!
  Antes de dizer algo que pudesse se arrepender, ela saiu para a varanda. A porta de tela bateu, mas a voz de Kyle a seguia.
  - Se voc acha que ganhou esta batalha, Sam, est errada. No sei que tipo de jogo voc est jogando, mas acho melhor
encarar o fato de que fao parte da vida de Caitlyn e  assim que vai continuar sendo.
  - Faz?
  - Claro que fao.
  - Kyle, me diga, voc faz de tudo para ser um cafajeste ou  natural em voc?
  -  natural, voc sabe disso!

  - Temos um problema, Kyle vai a Minnepolis para uma reunio da empresa. - O estranho encostou no vidro empoeirado da
cabine telefnica. Estava cansado desse negcio de trabalhar disfarado. No era mais jovem, e as viagens entre Minneapolis
e Clear Springs estavam ficando cada vez mais difceis.
  O parceiro suspirou alto.
  - Ele voltar  fazenda.
  - Tem certeza?
  - Absoluta. Ele sabe que tem uma filha, no sabe?
  - Acho que sim. Ele passa muito tempo com Samantha Rawlings e a menina.
  - Perfeito. Sabia que isso funcionaria.
  - Voc espera... Como eu disse, ele est indo para Minneapolis.
  - Ele voltar. Ele  mais forte do que todo mundo pensa e nunca se sentiu em casa em Minnesota. Nunca.
  No estava convencido, mas no discutiria.
  - Bem, isso no  o pior. Nossa maior preocupao  que Rebecca est suspeitando. Ela acha que algo est acontecendo.
Contratou um detetive particular para comear a bisbilhotar, investigar o acidente, procurar pistas. Est convencida de que h
alguma espcie de mistrio na morte da me.
  - Interessante.
  -  s o que voc sabe falar? No  apenas uma curiosidade v, voc sabe. Se Rebecca comear a descobrir informaes
que no devia, as coisas podem sair do controle. Poderia haver mais problemas e nosso plano seria exposto. E a?
  - As coisas vo ficar perigosas.
  - Exatamente.
  - Para todo mundo. - Houve uma longa pausa enquanto o parceiro refletia sobre todos os ngulos da questo. - Bem,
ningum provou nada ainda. Pelo que todo mundo sabe, Kate Fortune sofreu um trgico acidente. Pura falta sorte.
  - At que Rebecca e aquele detetive particular descubram a verdade.
  - Voc se preocupa demais.
  - Voc me paga para me preocupar.
  - No vamos nos preocupar antecipadamente.
  - No precisamos. J temos muito com o que nos preocupar.
  - Rebecca no descobrir nada. Pelo menos no por enquanto. E quanto ao Kyle, no se preocupe com ele. Ele voltar para
o Wyoming antes do que imagina, e a a primeira parte de nosso plano estar indo bem.
  - Vou cruzar os dedos.
  - Sempre ctico. Apenas continue no curso. Voc sabe, esse  o meu lema.
  - Eu sei. - E olha aonde ele levou voc, completou silenciosamente antes de desligar.

  - Voc est indo viajar? - Caitlyn observava Kyle colocar sua pequena mala na carroceria da caminhonete de Sam.
  - Por pouco tempo. - Kyle a ajudou a sentar no banco do carona e depois se sentou ao lado. - Estarei de volta na segunda-
feira  noite ou na tera de manh.
  Sam sentada ao volante, forou um sorriso. Contra sua vontade, mas tentando no parecer ressentida, ela concordara em
lev-lo. ao aeroporto em Jackson. Apesar de ela e Kyle s terem trocado umas dez palavras desde a discusso do outro dia,
estava determinada a fazer com que Caitlyn acreditasse que estava tudo bem - tanto quanto poderia estar, considerando as
circunstncias - entre seus pais.
  - Por que voc tem de ir? - perguntou Caitlyn quando Sam passou a primeira marcha.
  - Negcios.
  - Achei que voc era dono da fazenda. No  esse o seu negcio?
  - , mas tenho aes de uma empresa... Olha, meu amor, no se preocupe. Estarei de volta em poucos dias.
  - Mas voc vai voltar? - insistiu Caitlyn, mordendo o lbio inferior.
  - Pode contar com isso! - Ele piscou para a filha antes de voltar o olhar para Sam de novo. - Sabe, querida, voc no vai
conseguir se livrar de mim assim to facilmente.

  Captulo 11

  Enquanto cantarolava uma velha balada de Bruce Springsteen que tocava no rdio, Sam fechou a torneira e enxugou o
cabelo. Os msculos cansados se sentiam melhor com a gua quente, e a sujeira que cobrira o rosto e o corpo depois de horas
na sela foi lavada. Passara a maior parte do dia verificando o gado e certificando-se de que um bezerro que se machucara
estava readaptado ao rebanho, depois fora para o estabulo onde limpara o estrume, a palha velha e a sujeira. Cada msculo do
corpo protestara por causa do trabalho pesado, mas precisava se manter ocupada, mergulhar em cada tarefa para no pensar
em Kyle e o fato dele estar to longe.
  Qual era o problema? Se ele nunca voltasse, ela no teria perdido nada e Caitlyn se adaptaria. Sam e sua filha voltariam 
vida normal, aquela sem Kyle, e embora Caitlyn fosse sentir saudades do pai, pelo menos saberia quem era ele.
  E voc? O que vai fazer para esquecer as lembranas de vocs dois juntos, rindo, se tocando, fazendo amor?
  - Caitlyn! - Quando terminara, deixara a filha brincando embaixo da macieira. Fang ficara com ela.
  - O que voc acha de sairmos para jantar esta noite? - Ei? - chamou de novo. - Que tal uma pizza?
  Nenhuma resposta. Provavelmente Caitlyn ainda estava do lado de fora.
  - Caitlyn? - chamou ao passar pelo corredor que leva  cozinha.
  A casa estava quieta, exceto pelo sempre presente barulho da geladeira e o tic-tac do relgio na sala. Fang estava tirando
uma soneca na varanda dos fundos, mas Caitlyn, que estava no balano h menos de quinze minutos, sumira de vista.
  - Caitlyn? - Sam chamava pela janela da cozinha. Nenhuma resposta. - Vamos at a cidade, podemos encontrar a vov e
comer uma pizza...
  Nenhum grito de resposta ou passos da filha correndo.
  - Querida? - Sam olhou ao redor do quintal mas no viu nenhum sinal da filha. Sam voltou e verificou a sala de estar e o
quarto da filha, mas a casa continuava quieta. Muito quieta. No se apavore, disse para si mesma. Caitlyn estava em algum
lugar por perto, mas Sam sentiu o corao palpitar e o suor escorrer pelo pescoo.
  Fique calma. Ela est por perto. Tem de estar.
  Talvez Caitlyn tenha se distrado ao perseguir borboletas ou gafanhotos. Uma pontada de desespero passou por sua alma
enquanto procurava. A filha no estava catando pedras no riacho ou construindo um forte no celeiro ou se escondendo
embaixo do antigo galinheiro. O medo comeava a tomar conta de seu corao.
  - Caitlyn? - repetia ela, e ento, j baixinho: - Onde est voc?
  No desista, ela est aqui. Tem de estar! Suor brotava em sua testa e um medo entorpecente que tentara manter afastado
estava dominando seu corao. Onde voc est, Caitlyn? Onde? Dentro da casa de novo, foi at o telefone. Kyle. Tinha de
ligar para Kyle. Quando comeou a discar, lembrou que ele no estava na cidade, nem Grant, o outro homem com quem podia
contar  estavam longe dali, em Minneapolis.
  - Droga! - Desligou o telefone com fora. Batia com os dedos nervosamente no balco. No havia razo para ligar para a
me. Se Caitlyn tivesse ido de bicicleta at a cidade, ela teria ligado no minuto em que Caitlyn pisasse em Bess Rawlings. A
av insistiria para que entrasse.
  Mordendo o lbio e evitando o medo que embrulhava o estmago, Sam olhou para o horizonte enquanto roa uma unha. O
olhar na Fazenda Fortune, que se espalhava como se os muitos hectares no terminassem nunca. Com bastante freqncia
ultimamente, Caitlyn pulava a cerca e ia andando at a casa de Kyle, ou para visitar o recm-descoberto pai ou para tentar
convencer algum a deix-la montar Curinga, sua obsesso... Ah, meu Deus.
  Sam sentiu o estmago revirar.
  Com o corao na garganta, pegou as chaves no balco e voou para a caminhonete.
  - Por favor, me permita encontr-la... - rezou, imagens de Caitlyn e Curinga passando pela cabea.
  Com o p l embaixo no acelerador, dirigiu at a Fazenda Fortune. Assim que chegou, viu a filha montada no maldito
garanho. Curinga estava bufando, correndo de um lado para outro do curral, e Caitlyn se agarrava a ele como um carrapato.
  - Segure-se - murmurou Sam, procurando aparentar calma. No deixe o cavalo sentir sua preocupao. Mas seu corao
estava na garganta, o olhar fixo na filha que, com o cabelo louro avermelhado voando e o rosto branco como giz, a viu.
  - Me!
  - Segure firme!
  Curinga, com suor brilhando em seu couro escuro, estancou de repente e empinou.
  - No!
  Quando as patas dianteiras atingiram o cho novamente, o garanho saiu correndo para a cerca do outro lado.
  - Me...! - Caitlyn ainda estava agarrada  crina dele.
  - Ah, meu Deus! - Fique calma, Sam. No desmorone agora. Controle a situao, droga! - Oua, rapaz...  ela abriu o
porto e entrou no curral. O garanho estava fora de controle, os olhos fixos, as narinas e msculos tremendo. - Est tudo bem.
Vai ficar tudo bem... - A voz era suave e ela no sabia se falava para si mesma, para o garanho ou para a filha.
  Curinga soltou um relincho agudo e arrastou a pata no cho.
  - Caitlyn, se voc conseguisse escorregar... Bufando, o garanho empinou outra vez. Sam ficou congelada.
  - Me...
  O garanho disparou mais uma vez, passando por Sam como uma bala, levantando poeira com as patas, agitando a cauda
como uma bandeira de seda preta.
  - Caitlyn! - gritou Sam. - Segure-se. Vou pegar voc. - No!
  Curinga, relinchando ainda mais alto, empinou de novo. Caitlyn gritou.
  - Segure-se, querida! - Sam correu para a frente, tentando acalmar o cavalo, apesar de estar morrendo de medo por dentro.
Curinga virou os olhos em sua direo.
  - Devagar, rapaz... - ela se aproximou para tentar segur-lo pelo cabresto.
  Curinga disparou e estancou de repente. Caitlyn foi arremessada para a frente quando o garanho abaixou a cabea.
  - No! - Sam correu, as botas escorregando.
  A menina caiu e a cabea bateu na terra seca. Curinga tentou saltar por cima dela e uma pata atingiu seu ombro. Com um
grito, Caitlyn se encolheu ainda mais.
  Sam caiu de joelhos ao lado da filha, rezando para que no estivesse machucada. Pelo canto do olho, viu Curinga sair
galopando pelo porto aberto.
  - Caitlyn, meu amor, ah, Deus... - Abraou a filha, o cabelo louro empoeirado caindo de seus braos. - Voc pode me
escutar?
  Caitlyn gemeu mas no abriu os olhos.
  - Voc vai ficar bem - sussurrou Sam, lgrimas rolando pelo rosto ao abraar a filha e rezar. - Fique aqui...
  Ouviu o trator antes de v-lo perto do estbulo. Era Randy Herdstrom que correu para ajud-la.
  - Meu Deus, o que aconteceu?
  - Chame uma ambulncia! - ordenou Sam.
  O homem saiu disparado e voltou pouco depois.
  - O que aconteceu? - perguntou de novo, passando os dedos experientes pelo ombro, costelas e brao de Caitlyn, enquanto
Sam lhe contava como tudo acontecera.
  A sirene da ambulncia gritava ao longe.
  Randy colocou a mo grande e suja em seu ombro.
  - Parece que a cavalaria est chegando... Ela  durona que nem a me. Vai ficar boa.

  Com o humor pssimo, Kyle padeceu durante a reunio.
  A sala do conselho, mesmo com tantas janelas e uma viso panormica da cidade, parecia apertada e claustrofbica. Como
conseguira morar aqui? Nunca se sentira to amarrado, sufocado.  verdade que sempre fora inquieto, nunca calmo ou feliz,
mas agora parecia que iria enlouquecer. J votara vrias vezes, dera sua opinio umas duas vezes e se sentia mais fatigado do
que se estivesse colocando pilastras h vrios dias nos interminveis hectares de Clear Springs.
  Sim, sua vida mudara, e no centro de tudo estavam Sam e Caitlyn. O fato de Sam no querer casar com ele o corroa por
dentro. Ela gostava dele, talvez at o amasse. Mesmo assim, no aceitara a proposta.
  Porque voc, seu cafajeste burro, agiu como se estivesse fazendo um favor para ela.
  Girou o anel na mo direita e deu uma olhada no relgio.
  Quando o debate passou para a maldita frmula da juventude - o produto principal da nova linha da Cosmticos Fortune -
uma mortalha caiu sobre a mesa. Ningum esquecera que Kate perdera a vida procurando o ingrediente secreto. Se Kyle
estivesse no comando, encerraria o projeto. Mas o consenso era que a nova frmula no s traria muitos lucros como tambm
beneficiaria os consumidores. Com o preo das aes da empresa caindo, o sucesso da maldita frmula era essencial.
  A parte boa era que at agora no tinham tido tempo de falar sobre suas vidas pessoais. Kyle entrara na sala do conselho
dois minutos antes de a reunio comear e sentara-se em uma cadeira em volta da lustrosa mesa de cerejeira. Grant sentou-se
do seu lado esquerdo e a prima Rocky, do lado direito. Os forasteiros, rebeldes que no se adequavam ao nicho da famlia
Fortune aqui da cidade, ficaram juntos. Em frente a ele, Caroline, sempre devotada  empresa e vice-presidente de marketing,
estava cercada pelo marido, Nick Volkov, e a bela Allie. Apesar de gmea de Rocky, Allie sabia aproveitar a beleza que Deus
lhe dera, enquanto Rocky tendia a menosprezar seu rosto clssico, pescoo comprido e cabelo ruivo denso. Allie era modelo e
Rocky, piloto.
  Na cabeceira da mesa, cercado por seus filhos, irmos, sobrinhos e sobrinhas, Jake, tio de Kyle, estava explicando os lucros
e prejuzos do ltimo trimestre.
  Observou Rocky rabiscando no bloco, e Grant, que no conseguia ficar quieto, olhando para o relgio a cada dois ou trs
minutos.
  - Achei que ia trazer Sam - sussurrou Grant.
  - Eu tambm.
  Grant ensaiou um sorriso de quem conhece.
  - Cabea-dura, no ? Kyle lanou-lhe um olhar.
  - Bem adequada para a famlia.
  - Para a famlia? - As sobrancelhas grossas de Grant se juntaram. - Vocs vo se casar?
  Kyle franziu o cenho ao pensar na pergunta. Pela primeira vez na vida, ele percebeu que o que desejava desesperadamente
estava alm de seu alcance. Ah, e como desejava ter Sam e Caitlyn para ele.
  Ignorou a pergunta de Grant e tentou prestar ateno  explicao de Jake e ao grfico de fluxo colocado na ponta da mesa.
"Lucros Previstos" era o ttulo, e parecia que, com as vendas previstas da frmula da juventude, os lucros subiriam para a
estratosfera.
   claro, tudo dependia de procurar e cultivar uma planta rara encontrada apenas na Floresta Amaznica. Jake fez uma
pausa, e mais uma vez a morte de Kate recaiu como um fantasma sobre toda a famlia.
  Depois de vrios intervalos e um almoo servido ali mesmo, Jake passou a palavra para Sterling Foster, que era confidente
e advogado de Kate. Agora Sterling trabalhava junto com Nathaniel, pai de Kyle e advogado oficial da empresa. Sterling falou
sobre processos contra a empresa, avaliou a maioria deles como importunos, mas nada preocupante, e lanou seu sorriso
confiante. Ele parecia menos acometido pelo luto do que da ltima vez que Kyle o vira, na leitura do testamento, mas havia
alguma coisa estranha nele. Em nenhum momento olhara para Kyle. Por qu?
  Kyle se inclinou para a frente, interessado. Qual seria o problema com Foster? O advogado parecia diferente da ltima vez
que se encontraram - no escritrio dele, com a famlia toda arrasada. Sterling, como o resto deles, estivera completamente
destrudo. Mas no ltimo ms, parecia que catara os cacos de sua vida e avanara.
  - Sei que  uma hora difcil para todos vocs, tentar administrar a empresa, organizar as vidas ocupadas e lidar com a dor. -
O olhar de Sterling moveu lentamente ao redor da mesa, e quando atingiu Kyle, pareceu esperar por um segundo antes de
continuar. - Kate gostaria que vocs colocassem essa dor de lado e continuassem a cuidar de suas vidas, criar seus filhos e
colocar a Cosmticos Fortune no caminho certo. Existe uma discusso sobre as circunstncias da morte de Kate. Sei que 
difcil, mas temos de encarar o fato de que ela se foi, prematuramente, mas se foi. O acidente foi perturbador e no resolvido,
eu sei, mas no houve sabotagem nenhuma, eu vi os relatrios da polcia do Brasil e, se quiserem, posso dar uma cpia para
cada um. Na minha opinio, no seria sbio gastar tempo, energia e fundos na procura de uma vaga conspirao nesse trgico
acidente. Kate no ia querer...
  - Espere um minuto! - Rebecca se levantou, como se escutar mais uma palavra fosse demais para ela. - S quero respostas.
Nate, voc  um advogado, pelo amor de Deus!  claro que pode entender. Tem muita coisa que foi deixada sem explicao.
  - O qu?
  - Talvez ela tenha sido assassinada. Nate soltou a caneta.
  - Assassinada? Pelo amor de Deus, no me diga que voc est comeando a acreditar nesses mistrios que escreve.
  - Isso no tem nada a ver com meu trabalho...
  - No vamos brigar aqui - interrompeu Jake.
  - Ela est brincando de detetive de novo - resmungou Nate. Kyle encostou na cadeira, interessado pela primeira vez nas
encenaes da famlia:
  - Qual  o problema de ela contratar um detetive particular?
  Sterling tentou assumir a situao.
  - Era isso que Kate ia querer, toda essa briga?
  - Era - disse Kyle antes que qualquer um pudesse responder. - Ela adorava uma boa discusso, quanto mais acalorada
melhor. Com certeza, Kate gostaria que Rebecca fizesse o que acha certo.
  - Isso  verdade - concordou Jake - Se vov nos ensinou alguma coisa, foi para seguirmos nossos coraes.
  -  Estamos falando da mesma mulher? - perguntou Michael, lanando para a irm sonhadora um olhar capaz de derreter ao
- Vov era sensata e pragmtica. Ela no era conhecida por ir atrs do arco-ris ou... - desviando o olhar para Rebecca -
fantasmas. Vamos l, sejamos realistas por um minuto...
  - Estou com Kyle. - Kristina finalmente se juntou  conversa, surpreendendo os dois irmos. Geralmente preocupada
apenas consigo mesma, Kris no costumava entrar nas discusses de famlia. - Qual  o problema? Vov ia querer que
considerssemos todas as possibilidades. Essa  a maneira que ela teria lidado com a situao. No teria ficado com medo...
  - Ou preocupada com o que as outras pessoas iam pensar. Ento, vamos deixar Rebecca contratar um detetive.  o mnimo
que podemos fazer por Kate - completou Kyle.
  Kyle sorriu para a irm. Nunca imaginara que ela pudesse sentir alguma coisa com tanta paixo.
  Houve mais um pouco de reclamaes e discusses, especialmente da parte de Sterling, mas no final, como esperado, a
trgua foi alcanada e Rebecca manteve Gabriel Devereax na folha de pagamento. A funo dele seria determinar se Kate
morrera mesmo em um acidente. Ele deveria investigar todas e quaisquer questes envolvendo sua morte, assim como
qualquer pista vaga de espionagem industrial. Ningum perguntou o que aconteceria se o detetive chegasse  concluso de que
Kate fora assassinada.
  Kyle deixou a reunio do conselho se sentindo morto por dentro. Todo aquele papo de lucros e prejuzos e frmulas
secretas e a morte de Kate o deixara deprimido. Queria Sam. S ela conseguiria tirar a angstia de seu corao.
  Deus, como ele a amava.
  Esse pensamento o atingiu como uma faca. Ficou congelado.
  Ele a amava.
  Os escritrios estavam vazios, a maioria de seus familiares j correra para casa depois da longa reunio. A vida deles estava
aqui em Minneapolis, mas ele no pertencia a este lugar. No, finalmente entendeu que seu destino era viver na base das
montanhas Tetons com uma fazendeira sardenta e sua filha.
  Apertou o boto do elevador ansioso por chegar em seu apartamento, ligar para Sam e implorar para que ela aceitasse casar.
Mas ela acreditaria nele? Ou desligaria na sua cara? No, seria melhor v-la cara a cara, olhar nos seus olhos, abra-la e dizer
que no poderia viver nem mais um segundo sem ela. E se ela dissesse no?
  Uma campainha tocou e a porta do elevador abriu.
  -  Segure o elevador! - gritou Rocky, correndo para peg-lo.
  A voz dela o surpreendeu.
  - Achei que j tivesse ido embora...
  - No, esqueci meu guarda-chuva... Vamos tomar alguma coisa - ela ofereceu quando o elevador chegou no trreo.
  - Pareo algum que precisa de uma bebida?
  - Dupla - implicou ela quando a porta abriu.
  - Est pagando?
  - Eu? De jeito nenhum. Voc que  o cowboy rico que tem uma fazenda. Voc paga a conta. - Ela era uma de suas primas
favoritas, e seu sorriso era contagiante.
  - No vou ser uma boa companhia esta noite. - Estava ansioso para ligar para Sam e acertar os detalhes de sua volta para o
Wyoming.
  - Alguma vez voc ? - ela brincou.
  Algumas gotas pesadas de chuva comearam a cair e eles apressaram o passo por quase dois quarteires at um
aconchegantepub estilo ingls. Rocky encontrou uma mesa no canto e uma garonete anotou seus pedidos sem esboar
nenhum sorriso. Copos tilintavam, bolas se chocavam em uma mesa de sinuca e o barman servia tulipas de cerveja e doses de
usque.
  - Ouvi dizer que voc tem uma filha. - Rocky foi direto ao assunto.
  - As novidades correm rpido.
  - Vamos, Kyle, me conte sobre ela.
  - Tudo bem. Ela tem nove anos.
  - E acredito que tenha um nome.
  - Caitlyn. Caitlyn Rawlings, at que eu mude legalmente.
  - Sam vai deixar? - Rocky perguntou como se duvidasse. Conhecera Samantha anos atrs e, aparentemente, j sabia de
quase tudo que estava perguntando. No havia dvidas de que Grant j lhe passara todas as informaes.
  - Estou tentando convenc-la.
  - Boa sorte.
  - Voc conheceu minha filha? - ele perguntou, percebendo de repente que Rachel podia j ter esbarrado com Sam e Caitlyn.
  - Acho que no. Apesar de s vezes ir a Gear Springs, no vejo muito Samantha. Mas pelo que me lembro dela quando
ramos crianas e visitvamos a fazenda, duvido que seja o tipo de mulher que acata ordens. Passou vrios anos trabalhando
duro e tentando manter o pai sbrio.
  - Voc sabe disso? - perguntou Kyle.
  - Sei. Acho que Kate tambm sabia. Assim como provavelmente Ben. Mas ele trabalhava duro, tinha esposa e filha para
sustentar... - Ela levantou um ombro. - Nunca disse nada a ningum. Sempre achei que no era da minha conta. De qualquer
forma, acredito que Sam, que teve de crescer mais rpido do que todos ns, seja uma mulher de opinies fortes. Duvido que
seja daquelas mulheres que aceita que digam o que deve fazer.
  -  verdade... Mostraria uma foto de Caitlyn, mas, claro, no tenho nenhuma aqui. Na verdade, no tenho nenhuma.
  - Ento, fale-me sobre ela...
  - No sei o que dizer. Ela  uma moleca, linda como a me, to teimosa quanto e... - Ele olhou para a caneca e franziu a
testa. - Ah, droga, a verdade  que quero casar com Sam, registrar Caitlyn e comear do incio.
  - Isso  possvel?
  - Ainda no. - Ele tomou um gole e olhou com cara feia para a caneca, como se a bebida fosse a fonte de todos os seus
problemas. - J perdi nove anos, dez se contar a gravidez de Sam. Mas ela quer ir devagar. No cometer nenhum erro.
  - Parece uma mulher inteligente.
  - Ou cabea-dura. Rocky teve de rir.
  - E o que ela diz? Que leva tempo para se conhecer um ao outro?
  - , e eu sinto como se estivesse perdendo mais tempo... Alm disso, elas moram sozinhas l no meio do nada.
  - Ah, e voc quer ser o cavaleiro em sua armadura brilhante que chega para salv-las? Talvez de ervas daninhas
descontroladas! - A gargalhada dela fez com que vrias cabeas se virassem em sua direo.
  - O Wyoming no  o fim do mundo. L tambm tem cretinos. Caitlyn est tendo problemas com uma menina da mesma
classe que a est usando de saco de pancada mental e tambm me contou que tem a sensao de que algum a est seguindo,
ou melhor, observando. Isso me deixa nervoso.
  Rachel, que ainda nem tocara na cerveja, inclinou-se para a frente.
  - Voc acha que ela est sendo seguida? Em Clear Springs?
  - No sei o que pensar, mas isso me preocupa. - Tomou um longo gole de cerveja. - E muito.
  - Cara, voc entendeu tudo errado.
  - O qu? Ela sorriu.
  - No tente me fazer de boba, Kyle. Nunca acreditaria se no tivesse visto com meus prprios olhos e escutado com meus
prprios ouvidos, mas voc est apaixonado por Samantha, no est? No  s por causa de sua filha. Voc quer se casar com
ela porque a ama.
  Ele contraiu o maxilar.
  - Isso no  um crime, sabia? J contou para Sam o que sente por ela?
  Hesitando, ele levantou a caneca, observando a marca escura que deixava no tampo de madeira da mesa.
  - Ah, Deus, Kyle, voc ainda no contou que a ama?
  - Ela sabe.
  - Sabe? Ou ela pensa que voc est fazendo tudo isso por causa da filha? Voc a deixou uma vez, voc sabe disso.
  - , eu sei - Ele estava mais ansioso do que nunca para falar com Sam - Tentei explicar tudo a ela - Kyle sentiu aquela
pontada de culpa que sempre aparecia quando era lembrado do passado e dos erros que cometera.
  - Aposto! Kyle Fortune, o grande comunicador! Voc no acha que ela suspeita que sua proposta com dez anos de atraso
pode ser motivada por "obrigao"?
  Ele no respondeu.
  - Acredito que ela saiba sobre Donna.
  - Sabe.
  - Ento Sam sente como se voc a tivesse abandonado grvida e casado com outra mulher.
  - Eu no sabia que ela estava grvida.
  - No importa. Voc estava envolvido com ela, depois foi embora e se casou com outra. No me surpreenderia se ela nunca
perdoasse voc.
  Kyle estremeceu.
  - Isso  o que eu gosto em voc, Rocky, realmente sabe como levantar o nimo de um cara.
  - Mas foi o que voc fez.
  - Mas no posso mudar o passado.
  - S o futuro.
  - Acredite em mim, estou tentando. Rachel tomou outro gole de sua caneca.
  - Tudo bem, no querendo insistir no mesmo ponto, mas voc, por acaso, disse a ela que a ama, que o sol nasce e se pe
para nela, e que...
  - No sou bom para falar essas coisas...
  - Eu sei, mas acho que est na hora de praticar. No momento, Samantha  quem est dando as cartas. Anos atrs, voc
estava no controle da situao, mas as coisas mudaram, e acredito que Sam no queira arriscar o corao dela, nem o da filha,
com um homem com o seu passado.
  - No sabia que voc tinha a misso pessoal de me colocar contra a parede.
  - Sempre tive. Por que deveria mudar agora? - Ela tocou a borda do copo dele. - Sade, primo.

  As ruas estavam midas, luzes brilhando nas avenidas e prdios enquanto Kyle dirigia. A cidade, seu Porsche, o
condomnio, tudo era familiar, mas parecia vazio e sem vida, no fazia mais parte dele.
  Dentro do apartamento, que considerara sua casa por muitos anos, no sentiu nenhum conforto, nenhuma sensao de
felicidade. Serviu uma bebida no bar espelhado e viu seu reflexo - um homem alto, vazio, sem propsito nesta cidade. Um
estranho em sua prpria casa. No pertencia mais a este lugar. Talvez nunca tenha pertencido. Os mveis de couro pareciam
frios, e a vista da cobertura no lhe causava mais nenhuma admirao. Percebeu a luz vermelha piscando na secretria
eletrnica e, sem muito interesse, rebobinou a fita.
  O gravador apitou enquanto mensagens de um ms o bombardeavam.
  - Kyle, aqui  Frank. Que tal uma partida de squash na semana que vem?
  - Oi, Kyle. Sou eu, Cindy. Liga para mim.
  Apenas escutava ligao aps ligao sem interesse - mensagens curtas de pessoas com que no se importava realmente.
  Tomou um longo gole do Scotch que servira, sacudindo os cubos de gelo quando o gravador apitou de novo e a voz de Sam
encheu o ambiente.
  - Kyle, voc est a? Se estiver, atenda, por favor. - Endireitou-se ao ouvir medo e desespero em sua voz.
  -  Caitlyn. Ela sofreu um acidente. Ela caiu do Curinga... - O corao dele parou - e parece que vai precisar de uma
cirurgia. No brao e ombro esquerdos, talvez mais, depende se... se houve algum dano ou hemorragia interna.
  Quase podia ver o desespero dela ao deixar esta mensagem, e sua garganta se fechou quando pegou o palet que jogara
sobre o encosto do sof. As chaves ainda estavam no bolso.
  - Eles... eles acham que ela precisa de um especialista... para a espinha, se tiver sofrido alguma coisa, mas eles ainda no
tm certeza. Ah, Deus, eles esto falando sobre lev-la de avio para Salt Lake City para ver um mdico de l, mas s se tiver
algum problema na espinha, e eu no sei. Simplesmente no sei. Terei mais detalhes logo, eu espero. Vou... vou tentar ligar de
novo.
  Clique.
  O gravador parou e o apartamento ficou morbidamente silencioso.


  Captulo 12

  Samantha estava sentada na sala de espera do hospital em Jackson. Nem tocara na xcara de caf fraco deixada na mesa ao
lado do velho sof em que passara as ltimas horas.
  No conseguia comer, nem beber, nem pensar em nada que no fosse o fato de que Caitlyn estava no final do corredor,
atrs de portas duplas, passando por uma cirurgia. Um mdico que no conhecia, tido como o melhor de Jackson, estava
supervisionando o procedimento, mas pelo menos parecia que Caitlyn no seria mandada para Salt Lake City ou Boise ou
outro hospital maior.  O Dr. Renfro acreditava que a espinha no fora atingida pelo acidente, embora as costas estivessem
contundidas, possivelmente um msculo torcido. Samantha era grata por isso. Todos os outros ferimentos de Caitlyn
conseqentemente cicatrizaro uma vez que a cirurgia acabe e seja bem-sucedida.
  Ento, por que estava to preocupada? Era bobagem, mas mesmo assim, no conseguia substituir esse medo entorpecedor
pelo senso comum ou pela f.
  Esfregando os braos, Sam levantou e comeou a andar desatentamente, os pensamentos em Caitlyn, as oraes
interminveis, as preocupaes a corroendo por dentro.
  - Por favor, Deus, cuide dela...
  - Sam?
  A voz de Kyle... Virou-se e o viu: a barba por fazer, o terno amarrotado, o palet jogado por cima do brao, a gravata solta
e as mangas da camisa dobradas at o cotovelo. A preocupao estava estampada nas linhas de seu rosto, os olhos, ansiosos.
  Sam caiu em seu braos. Ele a abraou, e ela desmoronou, as lgrimas que segurara encheram seus olhos e escorreram pelo
rosto. O alvio tomou conta dela, e ela no protestou quando ele passou os dedos em seu cabelo e enterrou o rosto em seu
pescoo.
  - Ela est bem?
  - No sei - ela disse com um fio de voz, agarrando-se a ele como se pudesse puxar sua fora. - Mas graas a Deus voc est
aqui.
  - Onde ela est?
  - Em cirurgia.
  - Que tipo de cirurgia? Quem  o mdico? O especialista que voc falou?
  - Dr. Renfro, o melhor de Jackson.
  - Por que no a levaram para um especialista em Salt Lake?
  - No foi preciso.
  - Posso pagar o melhor mdico do pas, do mundo...
  - No foi uma questo de dinheiro, Kyle!
  - Tudo bem, tudo bem... S me conte o que aconteceu.
  Ficaram em p na janela olhando o estacionamento. Samantha contou para ele sobre o acidente, a terrvel viagem na
ambulncia, a deciso de manter Caitlyn aqui com Dr. Ned Renfro. Mas no contou que quase desmaiara, que nunca se sentira
to assustada na vida, que se sentira incapaz de lidar com o temor pela filha.
  - Eles vo colocar um parafuso, ou dois, no brao e imobilizar o ombro e a clavcula. Ela ter de passar pelo menos uma
temporada engessada e com uma tala, e quando a inchao passar provavelmente ter de colocar outro gesso. Mas eles acham,
pelo menos me disseram, que ela vai ficar bem, que... que a espinha no foi atingida.
  - Graas a Deus...
  - Espero que eles no tenham mentido e que no encontrem mais nada... - Ele sentiu lgrimas quentes molharem sua
camisa: s agora Sam se permitia desmoronar.
  - Tenha f - ele disse, embora a sua prpria estivesse abalada. Beijou sua testa e a abraou mais forte. - Superaremos isso.
Ns trs.
  Sam sentia como se fosse cair aos pedaos. Agarrou-se a Kyle e tentou no expressar seu medo, seu desespero. Ainda
estava preocupada que os mdicos encontrassem algum tipo de dano interno que no tivessem visto. E se eles estivessem
errados? E se a espinha de Caitlyn foi atingida ou algo pior? At os melhores mdicos cometem erros. Ser que sua moleca
travessa nunca mais poderia pular as pedras do riacho ou pegar peixinhos, montar ou andar?
  Se Sam no tivesse sido to despreocupada. Se tivesse visto Caitlyn sair. Se no tivesse deixado o rdio ligado to alto. Se
tivesse imaginado que a filha cruzara o campo como j fizera mais de cem vezes. Mas Sam reagira devagar, e quando
encontrou Caitlyn montada em Curinga j era tarde demais. Ela vai ficar bem, tem de ficar.
  - Gostaria de t-la encontrado antes que subisse no cavalo...
  - No se culpe por isso... Voc no tem culpa de nada.
  - Mas...
  - Mas nada! Voc  a melhor me que uma criana poderia pedir. - Os braos dele a abraavam com firmeza. -  melhor
voc sentar.
  Os segundos passaram lentamente, e Sam pensou que perderia a cabea. Sem a presena e a fora de Kyle, j teria perdido
a sanidade, mas ele a mantinha firme.
  - Curinga fugiu...
  - Randy o encontrar.
  Um bolo se formava em sua garganta, uma sensao de estar em carne viva.
  - Eu vi Caitlyn montada nele e corri pelo porto. Acho que no fechei o trinco, mas sempre verifico. No sei em que eu
estava pensando.
  - Estava pensando em nossa filha. Droga, o cavalo no importava. E continua no importando.
  - Mas ele  valioso. E pertence a Grant...
  - Eu gostaria de atirar nesse filho da me, miservel. Curinga tem sido uma dor de cabea para mim desde o primeiro dia.
Os punhos se cerraram mostrando toda sua frustrao.
  - No banque Rhett Butler de E o vento levou culpando o cavalo pelo acidente de Caitlyn. - Sam tirou o cabelo dos olhos.
  - Por que no?
  - Porque foi minha culpa - ela disse com firmeza, determinada a assumir a culpa. - Tinha de ter sido mais cuidadosa.
  - Voc estava tomando banho.
  - Estava e no a escutei gritar que ia at a sua fazenda. No teria deixado, no sozinha. Mas com a porta trancada e o rdio
tocando e a gua correndo, nem ouvi que ela estava tentando me dizer alguma coisa. S soube a caminho do hospital, quando
ela abriu os olhos por uns segundos e me disse. Ah, Deus, se pelo menos eu... - A voz fraquejou e lgrimas encheram seus
olhos.
  - Shh... Pare de se culpar. - Ele entrelaou seus dedos com os dela. - Eu deveria estar aqui. Se no tivesse ido  maldita
reunio do conselho em Minneapolis...
  - Mas voc foi. E Caitlyn sabia que no era para ir  fazenda quando voc no estivesse em casa.
  - Isso no vai acontecer de novo - Kyle a encarou com os olhos azuis cheios de preocupao.
  - Claro, - Ela balanou a cabea, sabendo muito bem o quo teimosa a filha era. - Como vai poder evitar?
  - No vou perd-la de vista.
  - Ah, certo...
  - Quero dizer isso mesmo, Sam. Pensei muito quando estava em Minneapolis, e depois quando voc ligou, e no vo para
c. Repensei nossa situao por todos os ngulos possveis e a nica soluo  nos casarmos. Da maneira certa, no um
casamento de convenincia.
  - O qu? - Levou um susto e encarou o rosto determinado dele.
  - Voc me escutou, Sam. Eu amo voc. E quero que se case comigo.
  Amor? Ele a amava. Engolindo seco, estava certa de que no ouvira direito, mas seu corao quase pulou com a sinceridade
e a esperana nos olhos dele. Mas podia confiar nele? Acreditar nele? J se machucara uma vez, mas se arriscaria em um
casamento?
  - Kyle...
  Ficando de p, ele a puxou tambm.
  - Voc me escutou?
  - Escutei, mas...
  Decepo escurecendo seu olhar.
  - Eu amo voc, droga, e quero me casar!
  - Ah, Deus, eu tambm amo voc. - A felicidade encheu seu corao quando os braos dele a envolveram e ele a beijou at
que ficasse sem flego, at que a promessa do futuro espantasse qualquer dvida escondida em algum cantinho de sua cabea.
  - Escute, Sam - ele disse, levantando a cabea. - Tem mais.
  - Mais?
  - Quero registrar Caitlyn como filha, fazer tudo que tiver de fazer para colocar Fortune no nome dela. Quero me casar com
voc e trazer vocs duas para morar comigo.
  - Com voc? - O corao dela parou. A idia de mudar para a cidade a deixou confusa, mas se fosse para se casar com
Kyle, iria. Ele estava certo. Fazer parte de uma famlia normal, com pai e me, seria o melhor para Caitlyn. E Sam sabia que
no queria passar o resto da vida longe dele. - No sei como Caitlyn vai se adaptar a Minneapolis.
  - Ah, tenho certeza de que ela odiaria. - Os dedos deles se entrelaaram mais uma vez. - No  Minnesota. Estou falando de
vocs duas irem morar comigo na fazenda.
  No podia acreditar no que estava ouvindo.
  - Aqui? No Wyoming?
  -  to difcil de entender? - ele perguntou sorrindo.
  - Mas voc vai vender a fazenda e voltar para...
  - Nunca! Finalmente percebi que aqui  o meu lugar, com voc, minha filha, na nossa fazenda. Nunca venderei o lugar.
  - Voc vai mudar de idia - ela disse. - Os invernos aqui so muito rigorosos. A temperatura cai, os ventos uivam, a neve...
  - A irei esquiar ou... como se chama aquilo que fazem agora? Snowboard? Acho que posso fazer com Caitlyn. Ele olhou
para o corredor, preocupado de novo. - Isto , se ela estiver melhor at l.
  - Estar - Sam de repente teve certeza.
  - Ento? - ele perguntou, os braos apertando-a forte. - O que vai ser, Sam? Voc vai se casar comigo?
  - Quando voc quiser - ela respondeu e enrascou os braos no pescoo dele. Kyle a agarrou e a girou no ar, produzindo uma
cena quando Dr. Renfro, com a prancheta na mo, se aproximou. O suor encharcava sua roupa, mas ele sorria.
  - Srta. Rawlings?
  - Como ela est? - perguntou Sam, o corao na garganta, o brao dado com Kyle.
  - Ela ficar bem daqui a um tempo.
  - Daqui a um tempo? - Os joelhos de Sam fraquejaram.
  - Sua filha superou tudo. Imobilizamos o ombro, o brao e as costelas. O brao foi a parte mais difcil, requerendo
parafusos no rdio e na ulna, j que a fratura foi combinada e os ossos estilhaaram.
  - E a espinha?
  Seu sorriso era paciente.
  - Como disse antes, no sofreu nada srio. Ela vai ficar bem, mas sentir dor por um tempo. Prescrevi algo para os
prximos dias, mas ento ela ficar ansiosa para levantar e andar por a. Seu maior problema ser mant-la deitada.
  Ouviram as instrues do mdico, e Sam, aliviada, desmoronou de novo. Sempre forte e no comando, de repente ficou
mole de tanta felicidade. Lgrimas escorreram de seus olhos, e se no fossem os braos de Kyle teria cado no cho.
  - Lembrem-se - continuou Renfro - isso vai levar tempo. Ela passou por uma mudana drstica.
  Ele explicou tudo em detalhes, respondendo s perguntas de Kyle e as dela. Mas durante a conversa, tudo que Sam queria
era estar com a filha. O mdico concordou.
  - Assim que ela sair da recuperao, poder v-la. Ficar no quarto 301.

  - Voc est aqui. - Os olhos de Caitlyn se abriram e ela encarou Kyle. Seu corao acelerou um pouco com a surpresa nos
olhos dela. - Eu... eu achei que voc tinha ido embora.
  - S por uns dias.
  - Por minha causa - ela disse, ainda grogue. Passou a lngua nos dentes e bocejou.
  - Sua causa?
  - Voc no me queria. Foi o que Jenny Peterkin disse... que meu pai no me queria.
  - O qu? Ah, meu amor, no...
  - Voc deixou a mame antes. Por minha causa. - Seus olhos pareciam pesados de novo.
  Trevas passaram por seu corao.
  - Cometi um erro quando fui embora. Mas no sabia sobre voc, meu amor. S fiquei sabendo de voc algumas semanas
atrs...
  Mas ela apagara de novo, cachos louros emoldurando seu rosto, sua pele bronzeada abatida, as sardas no nariz mais
visveis.
  - O que  isso que ela est falando? - perguntou a Sam.
  - No sei. No me disse nada.
  - Temos de consertar as coisas e rpido. Caitlyn?
  - Hmmm?
  - Sua me e eu vamos nos casar. Suas plpebras se abriram de novo.
  - O qu?
  -  verdade, querida - disse Sam, passando o brao pela grade de metal da cama para tocar a mo machucada da filha.
  - Kyle e eu vamos pedir para o reverendo Pease nos casar assim que voc sair daqui. Kyle ser o seu papai.
  Olhos azuis procuraram os de Kyle.
  - Voc no est dizendo isso s porque estou aqui?
  - Tenho tentado convencer a sua me h um tempo - disse Kyle.
  - Voc no queria se casar? - Caitlyn, ainda brigando com as nuvens que passavam por sua cabea, piscou para a me.
  - S queria ter certeza.
  - Ningum perguntou para mim. Kyle prendeu a respirao.
  - Bem, voc gostaria que fssemos uma famlia? - perguntou Sam.
  - Uma famlia de verdade?
  A garganta de Kyle estava seca e quente.
  - , meu amor. Se voc quiser... Ela virou os olhos.
  - Posso ter um cavalo s meu?
  - Tudo que voc quiser. Sam lanou o olhar para Kyle.
  - Tudo o que for razovel.
  - O meu nome vai ser Caitlyn Fortune?
  - Caitlyn Rawlings Fortune - disse Sam, deixando cair as lgrimas que enchiam seus olhos.
  Kyle tocou gentilmente na cabea da filha.
  - Ento,  s voc ficar boa, viu?
  - Tudo bem - ela disse, formando um sorriso maroto nos lbios. - Tudo bem, papai.

  - Gostaria de apresentar-lhes o Sr. e a Sra. Kyle Fortune - disse o padre, quando Kyle e Sam se viravam para os convidados.
Sam estava radiante em um vestido de seda marfim, e Kyle nunca se sentira to feliz na vida. Caitlyn, realmente exultante,
estava em p perto da av na primeira fila de bancos. A igreja estava lotada com familiares e amigos, e Kyle abriu um sorriso
quando viu os rostos sorridentes de seu pai e madrasta, e os rostos cobertos de lgrimas das irms e primas.
  Conhecia a maioria dos convidados, mas quando seu olhar encontrou um homem frgil e idoso no ltimo banco, achou que
o reconhecia, mas depois percebeu que no sabia quem era aquele estranho de bigode, vestindo um terno de linho, gravata
preta e culos escuros.
  O pianista tocou a msica de sada, e Kyle e Sam, juntos como marido e mulher, caminharam pela nave da igreja e saram
para o sol do Wyoming. Com as montanhas Tetons  distncia, ficaram na sombra de um choupo solitrio na frente das portas
da igreja e cumprimentaram cada convidado.
  A famlia de Kyle no estava desconfiada. Cada membro estava pronto para apertar sua mo e dizer o quanto ele tinha sorte
por ter uma noiva to linda quanto Sam. Suas irms estavam muito emocionadas, contentes por terem se livrado de um de seus
irmos cabeas-duras. Jane, que usava um broche antigo, brincou com Sam.
  - Bem-vinda  famlia - disse com um sorriso. - E no deixe Kyle mandar em voc.
  - Ele nem sonharia com isso - ela respondeu.
  - Bom - exclamou Kristina, dando um beijo na bochecha do irmo, o cabelo louro brilhando com a luz do sol - porque ele
sabe ser um filho da me teimoso quando quer.
  - Sabe? - Sam abriu um enorme sorriso. - Nunca imaginei.
  - Vocs podiam me dar um tempo... - Kyle murmurou. Mike no pde deixar de dizer:
  - Ento finalmente voc ficou esperto.
  - Finalmente  admitiu Kyle.
  - No  uma tradio beijar a noiva? - Grant nem esperou a resposta e quase derrubou Sam para trs quando pressionou
seus lbios contra os dela.
  Samantha riu sem graa, mas o sangue de Kyle ferveu, e Grant, tirando seu chapu Stetson da cabea, abriu um largo
sorriso para a cunhada e piscou para ela.
  - Voc poderia ter ficado comigo - ele brincou, e Sam sorriu alegremente, dando o brao para o marido. - Voc fez a
escolha errada. Se esse cara... - apontou um dedo para Kyle - aprontar com voc,  s me ligar.
  - No perca seu tempo - disse Kyle com um sorriso duro. Grant pegou Caitlyn no colo.
  - Ainda usando isso? - Ele deu um tapinha no gesso escondido embaixo do vestido rosa.
  - Ainda. - A coroa de botes de rosa de Caitlyn caiu no cho quando assentiu com a cabea. Rapidamente, Kyle pegou a
aurola da grama e a colocou em volta dos cachos da filha.
  - Deixe-me ajudar. - Sam endireitou a coroa de flores. - Pronto... Caitlyn s tem de usar o gesso por poucas semanas.
  - Parece que nunca vai acabar - Caitlyn reclamou.
  - Ah, vai passar rpido. - Grant a colocou no cho.
  - Alm disso, tenho uma surpresa para voc e para sua me.
  - O qu? - Caitlyn juntou as mos em puro prazer.
  - Mal posso esperar - disse Samantha, olhando para o marido. - Vou pegar voc se estiver sabendo tambm.
  Kyle piscou para ela de maneira exagerada.
  - Idia minha.
  - Ah!
  - Lembra-se quando Curinga fugiu, no dia do acidente? - perguntou Kyle.
  Caitlyn assentiu sria e olhou para o cho. Kyle se ajoelhou para que pudesse olhar a filha bem nos olhos.
  - Curinga est bem. Grant o encontrou dois dias depois com aquelas guas... aquelas que ele arrebanhou e comprou do
governo.
  - ? - disse Caitlyn, levantando o rosto, os olhos brilhando de repente.
  Grant deu um tapa nas costas do meio-irmo.
  - Existe uma boa chance de alguma daquelas guas ter um filhote de Curinga na prxima primavera, e seu pai e eu
pensamos que voc podia querer um.
  - Posso? - disse Caitlyn, as mos juntas de felicidade, a coroa de flores caindo de novo quando comeou a pular.
  Kyle abraou a filha.
  - Pode apostar.
  - Me?
  Sam suspirou.
  - Acho que no vou conseguir convencer nem voc nem seu pai a desistir dessa idia.
  Caitlyn soltou um grito de alegria e Sam mostrou a lngua para o marido.
  - Voc e tio Grant vo estrag-la com tanto mimo.
  - Esse  exatamente o meu plano - Kyle pegou Caitlyn e a beijou at ela reclamar.
  - Ento, parece que perdemos voc... - Allie, vestida de seda preta, olhou para o primo. Arqueando a sobrancelha perfeita,
ela suspirou para Kyle quando ele colocava a filha no cho e a observava correr para um grupo de amigas.
  - Quem podia imaginar? - Allie beijou seu rosto. Um chapu com abas largas fazia sombra em seu rosto quando sorriu para
Sam. - Sei que deveria falar alguma coisa do tipo "no perdi um primo, ganhei uma amiga", mas tenho um pressentimento de
que Kyle no ir mais a Minneapolis com freqncia. Acho que perdemos nosso primo, de verdade.
  - Ah, no seja boba. Kyle voltar. Ele tem de voltar. Barbara, sua madrasta, insistia enquanto avanava na fila de
cumprimentos. Sempre com os ps no cho, aceitara os filhos de Nathaniel do primeiro casamento como seus, e amara Kyle
mais do que a prpria me.
  Sheila, a primeira esposa de Nathaniel, recusara o convite do filho para o casamento. Apesar de ter passado quase vinte
anos, ainda estava amargurada com o divrcio e com o que considerava perda de status e de riqueza. Dissera em bom tom para
Kyle pelo telefone que desejava o melhor para ele mas no poderia interromper sua viagem pela Europa para ir ao casamento.
Ele aceitou sua rejeio. Algumas coisas nunca mudavam.
  - Esperaremos vocs. Pelo menos para as festas - insistiu Barbara. - Sou do campo tambm, mas o Natal na cidade 
especial.
  - Pensei que a famlia toda podia se reunir aqui no Natal - discordou Kyle. - Teremos neve e pinheiros e...
  - Temperaturas abaixo de zero. - Allie, fingindo que estava tremendo, soltou uma gargalhada. - Obrigada, mas no consigo
nos ver desafiando os elementos da natureza para sair e alimentar os cavalos. Desculpe, Kyle.
  Vendo a brincadeira nos olhos de Allie, Sam abriu um sorriso. Seria bom ter esta famlia extensa em suas vidas. Fora filha
nica, e Caitlyn... bem, at agora no tinha irmos, ento acolheria toda a famlia de Kyle com braos abertos, incluindo a
luxuosa Allie, que costumava parecer distante e desinteressada.
  Sam suspeitava que por baixo daquela beleza estonteante, a prima de Kyle tinha um grande corao, algo vital escondido
embaixo do corpo elegante e do rosto perfeito de uma supermodelo. Enrgica como a av Kate, Allie Fortune, sabendo ou
no, estava esperando apenas que o homem certo cruzasse seu caminho.
  Sam apertou inmeras mos, recebeu muitas palavras de congratulaes e de gratido e percebeu que fazia parte do cl
Fortune enquanto voltava para a fazenda e para a festa que todos esperavam ansiosamente.
  - No estamos to mal - disse Rebecca para ela mais tarde, depois de as fotos de famlia terem sido tiradas e o bolo cortado.
Champanhe flua de uma fonte prateada posicionada perto das escadas, e notas musicais que vinham do piano que estava na
varanda de trs enchiam o ambiente.
  De forma amvel, Rebecca passou a mo pelo peitoril da janela.
  - Sabe, minha me amava este lugar. Era seu santurio. Fico feliz de ela ter deixado para Kyle, mas fico triste de ela no
estar aqui, no ter participado desta cerimnia.
  - Eu tambm - disse Sam, bebericando em um copo longo. Velas brilhantes refletiam nas janelas, e do lado de fora a lua
subia no vasto cu do Wyoming.
  Rebecca suspirou, olhou pela janela e levantou o copo:
  - A Kate - ela disse.
  Sam encostou a borda de seu copo no de Rebecca quando Kyle se juntou a elas.
  - Sabe - ele parecia envergonhado - apesar de parecer uma loucura completa, hoje na igreja senti como se ela estivesse l.
Quando descemos as escadas, podia jurar que ela estava na multido. - Um rubor de embarao subiu por seu pescoo.
  - Olha para mim, estou comeando a parecer voc, Rebecca.
  - Acho que podemos pensar que ela estava l em esprito.
  - Tambm senti isso - admitiu Sam. Rebecca virou os olhos.
  - Ah, e eu sou aquela que todos da famlia consideram a estranha.
  - No estranha, s excntrica. Toda famlia precisa de algum assim - disse Caroline com uma gargalhada. Com um sorriso,
olhou para Kyle:
  - Acho que todos esto esperando que voc dance com a noiva.
  - Ser que a banda sabe tocar "Turkey in the Straw"? - perguntou Michael ao conduzir os noivos para a pista de dana que
fora colocada do lado de fora, perto do jardim das rosas. O pianista dera lugar a uma banda que estava afinando os
instrumentos. Os convidados se juntaram em volta e aplaudiram quando Kyle puxou no s Sam, como Caitlyn tambm, para
a superfcie lisa. A banda tocou "The Anniversary Waltz", e com as duas mulheres que amava nos braos, Kyle deslizou pela
pista provisria. O perfume das artemsias e dos pinheiros se misturavam ao de Sam, e o vento assoviava gentilmente atravs
das montanhas, fazendo com que os lampies coloridos colocados nas varandas balanassem. Kyle abraou sua famlia com
fora e percebeu que finalmente encontrara seu lar. O caminho fora longo, com curvas dolorosas e becos sem sada, mas agora
estava onde deveria estar.
  Obrigado, Kate, pensou ele. Agradecia a av por, em sua morte, ter dado a ele o que precisava na vida: sua prpria famlia
e uma fazenda nos campos do Wyoming. Outros casais se juntaram a eles, e Grant pegou Caitlyn dos braos de Kyle.
  - Apenas uma dana com a jovem senhorita.
  Sam riu, e o som ecoou pelo corao de Kyle. Abraou sua noiva e lhe beijou o rosto.
  - Acho que agora voc conseguiu, Sam - disse Kyle como se a estivesse repreendendo, tocando a aliana de ouro no dedo
dela. - Depois de hoje, voc nunca vai conseguir se livrar de mim.
  - Ah, quer dizer que isso  para sempre? Droga. Ele a apertou e sua gargalhada encheu a pista.
  - Voc est brincando com fogo, moa.
  - Estou?
  - E pode se queimar. - Esse aviso era um sussurro implicante.
  - Ah, conto com isso - ela disse suavemente - e pretendo queimar voc tambm. - Ela beijou o pescoo dele, deixando uma
marca molhada. - Vai ficar to quente, meu marido, que ser difcil apagar o fogo.
  Ele gemeu baixo.
  - Se no parar com isso, carregarei voc at o andar de cima agora, na frente da minha famlia, sua me, nossa filha, Deus e
todo mundo!
  - Promessas, s promessas - ela disse alegremente, e em um rpido movimento, ele a levantou, colocou um brao embaixo
de seus joelhos e foi em direo s escadas. Samantha ria, mas lutava para se soltar.
  - Primeiro as primeiras coisas, cowboy - ela disse, e quando ele a colocou no cho, ela pegou o buqu de uma mesa e foi
para a escada. Com um movimento ligeiro, jogou o ramalhete por cima dos ombros. As flores foram bem alto, quase atingindo
o telhado antes de cair justamente nas mos de Allie.
  - Ah, meu Deus! - Allie, atordoada, olhou para o buqu de rosas e cravos que estava em suas mos.
  Kyle riu.
  - Perfeito - ele disse, achando engraado a surpresa no lindo rosto da prima. Depois, incapaz de esperar mais um minuto,
ele levou sua noiva fugitiva para o quarto. Uma vez l dentro, ele bateu a porta atrs de si e virou a chave. Afrouxando a
gravata enquanto se aproximava lentamente dela, ele perguntou:
  - O que devemos fazer agora?
  Os olhos verdes de Sam brilharam travessos.
  - Use sua imaginao - ela sugeriu, quando uma mozinha bateu na porta.
  - Me? Pai? Vocs esto a?
  Sam riu.
  - , meu amor, s um minuto. - Com uma sobrancelha levantada, ela olhou para o marido, cruzou o quarto e destrancou a
porta. - Bem-vindo  paternidade, Kyle Fortune. Acho que sua filha precisa de voc.


  Eplogo

  - Ainda no aprendeu a lio? Um acidente quase fatal no foi suficiente para deixar-lhe mais cuidadosa? -Sterling estava
claramente agitado. Seus lbios eram uma linha implacvel e desconfiada. Passou a mo pelo pescoo, por debaixo do
colarinho da camisa.
  Ela se repreendia por t-lo feito passar tantas horas no Wyoming vigiando Kyle, Samantha e Caitlyn, mas isso fora
necessrio.
  Sentado em sua imponente mesa, a vista de Minneapolis pela janela de seu escritrio de esquina, ele olhou para ela como se
fosse uma criana desobediente, ou melhor, um parceiro em quem no se podia confiar.
  - Todos na sua famlia acham que voc est morta, Kate - ele lembrou. - O pior  que a nica maneira de assegurar sua
segurana  mantendo esta farsa.
  -  voc quem diz.
  - Voc concordou, lembra? Foi idia sua, eu acho. -Tirou os culos e coou a ponta do nariz. Estava cansado. Os ltimos
meses foram pesados demais para ele.
  - Ningum pensa diferente. Infelizmente, todas as pessoas que me amam, menos voc, acham que passei desta para a
melhor.
  Ele no estava embaraado.
  - Ir ao casamento no Wyoming foi imprudente. Muito arriscado. Em que voc estava pensando?
  - Sentei no ltimo banco da igreja vestida de homem. Ningum me reconheceu.
  - Assim voc me mata, Kate - ele murmurou e ela riu da ironia. - Passei as ltimas seis semanas indo e voltando de Clear
Springs, contando tudo para voc, para que ningum suspeitasse que voc estava viva, e da voc aparece e vai l, com todos
da sua famlia presentes. Inferno, Kate. Estou comeando a me perguntar se o acidente no afetou seu crebro. - Ele estava
visivelmente preocupado.
  - No se preocupe tanto, Sterling. Est tudo bem. Voc sabe to bem quanto eu, que eu no perderia o casamento do meu
neto por nada neste mundo.
  - Mas...
  - Eu no disse que deixar a fazenda para ele faria com que ele e Samantha se acertassem? - Bateu com os dedos na bengala
que usava desde o acidente: a queda do avio que lhe teria tirado a vida. Por sorte, o seqestrador que estava escondido no
avio, e saiu do esconderijo na hora em que ela se preparava para aterrissar, perdeu o controle da situao. Eles lutaram, e
durante a briga, o avio sem controle, perderam altitude. Na primeira batida da fuselagem nas copas das rvores da floresta
tropical, Kate fora jogada para fora da aeronave, e o seqestrador queimara at ficar irreconhecvel na bola de fogo que se
formou quando o avio atingiu o cho.
  Kate estava inconsciente quando nativos a encontraram. Levaram-na para a aldeia e cuidaram dela. Nos meses seguinte,
todos, incluindo Sterling, presumiram que o corpo queimado encontrado nos destroos fosse dela. Ela quase o matou de susto
quando apareceu viva, mas pensou que se permanecesse "morta", a pessoa que pagara algum para mat-la revelaria sua
identidade.
  O maior problema era que estava muito preocupada com a famlia. Ficar longe dos filhos e netos, estava sendo mais difcil
do que pensara, e no perderia o casamento de Kyle de jeito nenhum. O mesmo era verdadeiro para o resto da famlia. Teria
de arranjar um jeito de ir aos casamentos, festas e, Deus, funerais.
  Sterling balanou a cabea, mostrando uma covinha no queixo.
  - Como voc sabia que Caitlyn era filha de Kyle?
  - Isso foi fcil. - Kate suspirou. - O beb tinha Fortune estampado no rosto desde o momento em que nasceu. Soube da
primeira vez em que a vi, e o tempo era exato, nove meses depois que Kyle visitara a fazenda. Enquanto esteve na fazenda
naquele vero, estava completamente apaixonado por Samantha e ela por ele. - Kate brincava distraidamente com o cordo de
prolas em seu pescoo. - Kyle s no conseguia encarar o fato de uma mulher estar controlando seus sentimentos em vez do
contrrio. Voltou para Minneapolis e casou-se com outra que achou que fosse faz-lo feliz, o tipo de moa dos crculos sociais
certos. Eles foram infelizes juntos, voc sabe.
  - No ousei falar que achava que o beb de Sam era dele. Mesmo depois da anulao do casamento com Donna, ele se
recusava a voltar ao Wyoming.
  - At for-lo a voltar, deixando a fazenda para ele com a condio de que teria de morar l por seis meses. -Sterling
balanou a cabea, como se assustado por ela ser to manipuladora.
  - Funcionou, no funcionou?
  - Como um encanto. Parece que ficar l para sempre. Dizem que ele anda falando que nunca vai vender a fazenda e que
seus planos so de criar muitos filhos com Sam.
  Kate riu, contente consigo mesma.
  -  timo. As coisas no esto mais to sombrias, no ?
  Sterling no estava convencido.
  - E Rebecca e o detetive particular?
  - Eles no so minha principal preocupao  admitiu Kate, pensativa.
  - No? - Os olhos de Sterling se estreitaram - Acho que no quero saber qual .
  Levantando-se com a ajuda da bengala, ela sentiu uma pontada de dor do acidente, mas ignorou. Era s uma amolao.
Tinha coisas mais importantes para discutir.
  -  Alisson - ela admitiu.
  - Allie?
  - Hum, hum. Eu a vi no casamento. No parecia feliz.
  Kate lembrou da tristeza que brincava no canto de seus lbios carnudos, a expresso distrada em seu rosto quando achava
que ningum estava prestando ateno nela.
  - No comece a inventar problemas. Allie est muito feliz, e por que no estaria?  linda, radiante, a porta-voz e modelo da
Cosmticos Fortune, pelo amor de Deus. Acredite em mim, Allie Fortune  invejada por todas as mulheres deste pas. Est
realizada.
  - Fico pensando. - Kate franziu a testa. - Tinha alguma coisa nos olhos dela... Sabe, acho que ela nunca superou terminar o
noivado com...
  - Nem diga isso... voc j interferiu o suficiente. Allie j est crescida. Pode se cuidar sozinha.
  - Como Kyle?
  Sterling deu a volta na mesa e parou bem perto dela. Bem mais alto que sua pequena parceira, apontou um dedo para o
nariz dela.
  - No gosto deste brilho nos seus olhos, Kate. Lembre-se de que todos acham que voc est morta e isso porque algum
tentou matar voc. No sabemos se a pessoa que queria ver voc morta vai aparecer quando voc de repente voltar e anunciar
que houve um terrvel engano no Brasil e que algum est enterrado em seu lugar na jazigo da famlia. O assassino no avio
era provavelmente algum matador de aluguel, e at que descubramos quem o pagou, voc corre perigo.
  - A no ser que esteja morta. - Esse pensamento era to deprimente.
  -  a nica maneira de descobrirmos quem est por trs do seqestro. Ento, no se preocupe com Allie.
  Kate batia os dedos na curva da bengala. Sentiu a coluna enrijecer, como sempre sentia quando era desafiada.
  - Agora, Sterling, voc sabe muito bem que quando se trata da minha famlia, fao tudo para que fiquem felizes.
  - Nem sugira isso...
  - No farei nada por enquanto. S vou ficar de olho em Allie. S isso.
  - Talvez eu deva escrever isso - Sterling encostou na mesa e cruzou os braos.
  - No seja bobo - ela disse com uma gargalhada.
  - Qual seria a utilidade da assinatura de uma mulher morta?
  - Kate...
  -  Apenas mantenha-me informada sobre Alisson, Sterling. - Kate insistiu: - Quem quer acabar comigo no sabe com quem
estavam lidando, no ? - Pegou a bolsa e a colocou debaixo do brao. - Temos de acabar com eles jogando o jogo deles.
  -  s isso?
  Ela no pde evitar o sorriso em seus lbios quando se lembrou de Kyle, Samantha e Caitlyn.
  - Apenas lembre-se do que eu sempre falo para voc: Nada na vida  impossvel !
  - Voc  surpreendente - Ele riu e lhe deu o brao. At para uma mulher morta.
  - Se voc no esquecer isso, Sterling - ela disse com os olhos brilhando - voc e eu continuaremos seguindo nuito bem.

  FIM
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